A igreja se adaptou às mídias sociais antes das mídias sociais. Artigo de Marco Ventura

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07 Março 2023

"O Papa Bento XVI e o Papa Francisco são então muito mais que um estilo comunicativo nos antípodas: são arquétipos originais que juntos tornam a Igreja capaz de transformar as mídias, recombiná-las, mantendo estável no centro a doutrina construída ao longo dos séculos e liberar, conclui Tarzia, uma 'força talvez indestrutível'", escreve Marco Ventura, professor de Direito canônico e eclesiástico da Universidade de Siena, em artigo publicado por La Lettura, 05-03-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Segundo a profecia de Marshall McLuhan, a Igreja não sobreviverá ao advento das novas mídias.

Ela se dissolverá no âmbito privado das consciências e perderá toda consistência pública e institucional. Não será a política, não será a economia, que a destruirá. Será a comunicação o fator decisivo: os meios são a mensagem e a mensagem desses meios será um cristianismo disperso nos indivíduos. O estudioso canadense morreu em 1979, um ano após a eleição de Karol Wojtyła, pontífice televisivo por antonomásia. Assim como o papa polonês, os papas alemão e argentino também foram julgados à luz de um desafio midiático destinado em todo caso a triturá-los.

Fabio Tarzia vê as coisas de maneira diferente. Ele reconhece que “os ambientes elétricos e depois digitais da globalização que voltaram a tribalizar a comunicação” representam um enorme desafio, mas não compartilha da opinião dos especialistas em mídias de um catolicismo “fortemente reduzido, em busca constante de inovações tecnológicas e em perpétuo atraso com os tempos”.

Em Benedetto contro Francesco: una storia dei rapporti tra cristianesimo e media (Bento contra Francisco: uma história da relação entre cristianismo e mídia; Meltemi, p. 304 e 24) o sociólogo da Sapienza de Roma propõe uma leitura alternativa. Para fazer isso não contesta a competência sobre a religião dos estudiosos das mídias, ao contrário, usa suas categorias e linguagem para propor uma abordagem de “mediologia das religiões”. Sua análise se diferencia porque se propõe compreender a Igreja em sua peculiaridade, a partir de sua interação bimilenar com as mídias.

Benedetto contro Francesco: una storia dei rapporti tra cristianesimo e media

Assim, o cristianismo aparece desde os Evangelhos como “a religião multimídia por excelência”, que soube evoluir da oralidade para a escrita, da escrita para a imagem, do manuscrito ao livro, e que soube integrar inúmeras formas de comunicação em um conjunto dinâmico, sempre capaz de preservar a identidade e de se renovar no tempo e no espaço.

Se, escreve Tarzia, “a Igreja Católica sempre foi uma extraordinária ‘máquina’ que cria sistemas midiáticos complexos”, deve ser considerada capaz de encontrar uma solução mesmo na era digital, como já está acontecendo com a web e as redes sociais que a própria Igreja consegue inserir “num enorme recipiente direto do centro”. Isso é possibilitado, para Tarzia, pela dupla alma original do cristianismo, apocalipse e mundo, matriz judaica e influência grega, Evangelho de Lucas e Evangelho de João, cidade luminosa cercada pelas trevas e missão confiante aberta ao mundo, e mais São Bento e São Francisco, Jesuítas e Jansenistas.

O Papa Bento XVI e o Papa Francisco são então muito mais que um estilo comunicativo nos antípodas: são arquétipos originais que juntos tornam a Igreja capaz de transformar as mídias, recombiná-las, mantendo estável no centro a doutrina construída ao longo dos séculos e liberar, conclui Tarzia, uma "força talvez indestrutível". 

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