O discurso de Putin sobre a Ucrânia é um exemplo flagrante da síndrome da húbris

Putin durante o dicurso de 21/02/2022 | Foto: kremlin.ru

25 Fevereiro 2022

 


Nada menos que 55 minutos de reescrita da história, falsas acusações contra a Ucrânia, afirmações paranoicas e rancores pontuados por suspiros exasperados. Na segunda-feira, 21 de fevereiro, Vladimir Putin, de frente para a câmera, fez o discurso mais surreal de toda a sua presidência. Anteriormente, houve a incrível cena da reunião do Conselho de Segurança, onde vários oficiais russos visivelmente assustados, alguns gaguejando, aconselharam-no a reconhecer as duas repúblicas do Donbas, Donetsk e Lugansk.



A reportagem é de Anne Guion, publicada por La Vie, 22-02-2022. A tradução é de André Langer.



Uma dupla sequência que levanta sérias dúvidas sobre a racionalidade do presidente russo. Vladimir Putin enlouqueceu? Após 22 anos no poder, o ex-agente da KGB, cujo pragmatismo foi elogiado quando chegou ao Kremlin, parece ter entrado em outra dimensão.



Já em 2014, à época da crise na Crimeia, a chanceler alemã Angela Merkel disse ao presidente dos EUA, Barack Obama, após uma conversa telefônica com o presidente russo, que este “perdeu todo o contato com a realidade”. “Ele está em outro mundo”, acrescentou ainda a chanceler. Vladimir Putin sofre da “síndrome de húbris”, a intoxicação do poder que parece afetar muitos dirigentes?

 

“O poder tende a corromper”

 

A ideia de que o poder corrompe não é nova. Foi o lorde Acton, historiador e político britânico, que, no século XIX, cunhou a famosa fórmula: “O poder tende a corromper; o poder absoluto corrompe absolutamente”. Na Antiguidade, a embriaguez do poder era um conceito filosófico onipresente: a húbris é a intemperança, o orgulho excessivo que faz perder o equilíbrio. Os mitos e as tragédias estão cheios disso. É claro que é Ícaro que queima suas asas tentando chegar muito perto do Sol.



A húbris é o crime contra o qual os homens da Antiguidade devem se proteger a todo custo. Em Roma, durante a cerimônia do triunfo dos generais vitoriosos, um escravo tomava lugar na carruagem do general e lhe sussurrava em intervalos regulares durante o desfile “memento mori” (“Lembre-se de que você vai morrer”). Um procedimento destinado a conter o fogo do orgulho – para os gregos e os romanos, a húbris é um fogo que consome a alma.

 

Uma inclinação narcisista

 

Um fogo que lorde David Owen podia ver crepitando à vontade. Este psiquiatra britânico está habituado aos mistérios do poder: foi ministro e depois secretário de Estado para Assuntos Externos, de 1977 a 1979, e diplomata. Um posto de observação ideal para acompanhar os comportamentos de homens e mulheres de Estado. Em The Hubris Syndrom: Bush, Blair and the Intoxication of Power (2007), ele descreve a síndrome da húbris como um distúrbio comportamental típico de chefes de Estado.



Ou uma inclinação narcisista de ver o mundo principalmente como uma arena na qual exercer seu poder e buscar a glória, uma preocupação desproporcional com a própria imagem e aparência, uma confiança excessiva em seu próprio julgamento e um desprezo pelas críticas e conselhos dos outros, uma perda de contato com a realidade muitas vezes associada a um isolamento progressivo.



Segundo David Owen, o gatilho para esse transtorno seria o próprio exercício do poder. Uma “doença do poder” que geralmente seria desencadeada após um grande sucesso seguido de uma ascensão irresistível. Suas consequências? Especialmente tomadas de decisão imprudentes. O psiquiatra cita assim a invasão do Iraque em 2003 pelos americanos, auxiliados pelos britânicos, com base em informações falsas.



“Claro, é preciso ter cuidado com esse tipo de tese, tempera Sebastian Dieguez, pesquisador de neurociência da Universidade de Friburgo. Existe uma tendência atual de psiquiatrizar todos os comportamentos. Isso também pode levar a uma forma de desresponsabilização dos homens de Estado”. Mas, embora a síndrome da húbris não seja atualmente reconhecida oficialmente como uma doença, os trabalhos de David Owen corroboram de maneira surpreendente para as recentes descobertas sobre os efeitos concretos do poder no cérebro e no corpo.

 

O macho alfa, do peixe ao humano

 

Também encontramos esses fenômenos no mundo animal. Em O efeito vencedor. Como a neurociência explica o sucesso (e o fracasso) (Editora Campus), Ian H. Robertson, neurocientista britânico, toma o exemplo dos ciclídeos, uma espécie de peixe encontrada em particular no Lago Tanganica, na África, e que tem dois tipos de macho: um, o macho alfa, é muito colorido, conquistador, agrada as fêmeas e navega na superfície do lago, enquanto o outro é acinzentado e se contenta com uma vida solitária nas águas rasas.



Mas às vezes os machos cinzentos se transformam em alfa. Em que ocasião? Quando conquistam um território. Isso acontece, por exemplo, quando um dos machos alfa é comido por um pássaro: um macho cinza então toma seu lugar. É a aquisição desse novo poder que vai desencadear uma reação hormonal no corpo do peixe.



Nos homens, o poder atua da mesma forma no cérebro: provoca um aumento da testosterona, o que resultará em um influxo de dopamina, um neurotransmissor precursor da adrenalina.



Este efeito da dopamina às vezes é para melhor: o poder pode realmente torná-lo mais inteligente, mais motivado, impulsionando o cérebro (estamos pensando aqui nos “cinco ou seis cérebros perfeitamente irrigados” de Nicolas Sarkozy, segundo Carla Bruni...). Mas cuidado com a overdose: “A dopamina funciona com efeitos de limiar, escreve Ian H. Robertson. Uma quantidade muito pequena não terá efeito, e uma quantidade muito grande terá consequências adversas. Mas o poder absoluto inunda o cérebro com dopamina. Também cria um vício”.

 

“O vício está ligado à nossa ilusão de controle”

 

Segundo o pesquisador, o poder seria inclusive a droga mais poderosa do mundo. O que não é tão surpreendente, de acordo com Sebastian Dieguez: “O vício geralmente está ligado à nossa ilusão de controle. Assim, o viciado em jogo está convencido de que pode influenciar as leis da probabilidade. Ora, o poder dá, por definição, a sensação de que se pode controlar não só a própria vida, mas também a dos outros!”.



E, como acontece com qualquer vício, algumas pessoas correm mais riscos do que outras: neste caso, aquelas que buscam a gratificação narcísica a todo custo. “O excesso de autoconfiança configura um mecanismo mental que impede você de se avaliar pelo seu valor justo. Quanto mais você tem uma apreciação precisa de suas próprias qualidades, mais modesto você é. E, normalmente, você não se sente apto a se tornar chefe de Estado!”, continua o pesquisador.



O contexto também é importante. Quando o poder é exercido dentro do estrito marco da democracia, sua infusão nas veias de um líder de personalidade equilibrada será regulada e o vício poderá ser evitado. Mas, se a substância encontra o sangue de uma pessoa que dela precisa muito e a quem nada e ninguém se opõe, os problemas começam...



Há muitos exemplos de estadistas tomados pela loucura do poder, no primeiro sentido do termo, de Muammar Gaddafi a Robert Mugabe, incluindo Jean-Bédel Bokassa, presidente da República Centro-Africana (1966-1976), que se autoproclamou imperador sob o nome de Bokassa I durante uma cerimônia delirante em 1976.

 

Como se pode evitar esses comportamentos?

 

Mas essas transformações também afetam às vezes homens (e mulheres) que pareciam preparados para resistir a elas. Este é o paradoxo do poder: ele destrói as próprias qualidades que permitiram a quem o queria obter, como a sensibilidade ao interesse comum, a clarividência etc.



Então, o que fazer para evitar esses comportamentos? Fortalecer os contrapoderes, claro, pensar em instituições, formas de governar que equilibrem essa propensão humana ao excesso. “Os suíços fazem isso muito bem", testemunha Sebastian Dieguez. "O Conselho Federal, que é o órgão executivo, tem sete lideranças que se revezam na chefia do país. São sempre personalidades taciturnas, gestores desapaixonados que nunca dão um espetáculo na política, mesmo que o humano permaneça o que é... A apresentação midiática do eu também acentuou muito a síndrome da húbris nos políticos.”



Devemos, portanto, também lutar contra nossa própria tendência de admirar esse tipo de comportamento. Vladimir Putin nunca foi tão popular na Rússia, e uma personalidade como Silvio Berlusconi foi reeleita várias vezes na Itália, apesar dos escândalos sexuais e de corrupção.



“Precisamos pensar que ainda somos primatas que percebem algo de tranquilizador na expressão da autoconfiança e da força, diz Sebastian Dieguez. E os políticos entenderam isso muito bem: hoje, todos sabem que o que conta não é necessariamente a autoconfiança, mas dar a ilusão de confiança”.

 

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