O mistério do documentário papal: “Quebrou, pagou”

Papa Francisco na Praça São Pedro | Foto: Vatican Media

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26 Outubro 2020

Quando eu era criança em uma pequena cidade do oeste do Kansas, EUA, minha mãe me levava de vez em quando à rua principal para visitar as lojas. A maioria delas tinha alguma versão do seguinte letreiro, como um aviso para se ter cuidado com a mercadoria: Quebrou, pagou”.

O comentário é de John L. Allen Jr., publicado por Crux, 23-10-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Há um corolário de relações públicas que poderia ser dito assim: “Não importa quem foi, se quebrou, pagou”. Isso significa que não importa o que um líder realmente diga ou faça: se ele ou ela permite que uma impressão seja criada e não a rejeita publicamente, então ela lhe pertence.

Esse pensamento vem à mente à luz do mistério emergente em torno do novo documentário papalFrancesco, de Evgeny Afineevsky, que estreou nessa semana e já é um candidato a conter os 20 segundos mais dissecados sobre um grande líder mundial desde o filme Zapruder [do assassinato de John F. Kennedy].

Naqueles 20 segundos, o Papa Francisco faz comentários sobre as uniões civis para pessoas do mesmo sexo que criaram um frenesi midiático global nessa quarta-feira, tendo sido relatados como a primeira vez que um papa endossou explicitamente as uniões civis. Isso também parecia contradizer diretamente um documento de 2003 da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, preparado pelo futuro Papa Bento XVI e aprovado por São João Paulo II, alertando que tais leis são “gravemente injustas” e insistindo que os católicos nunca podem apoiá-las.

Em 48 horas, no entanto, a narrativa começou a mudar, porque veio à tona que aqueles celebrados 20 segundos não são uma declaração contínua do Papa Francisco, mas sim uma montagem de falas proferidas em contextos diferentes, costuradas e cobertas por cortes estrategicamente cronometrados.

Um analista italiano afirmou nessa quinta-feira que havia cinco elementos separados de filme, e, portanto, pelo menos quatro edições contidas naquele período de 20 segundos – o que deve equivaler a algum tipo de recorde.

Além disso, agora também está aparentemente claro que a parte sobre as uniões civis não veio das conversas de Afineevsky com o Papa Francisco, mas sim de uma entrevista diferente que o pontífice concedeu há 18 meses à renomada jornalista mexicana Valentina Alazraki – que é quase uma instituição em Roma, assim como o papado –, mas a partir da qual, por alguma razão ainda pouco clara, a frase sobre as uniões civis havia sido cortada quando a entrevista foi exibida em 2019.

A sugestão geral é de que o Papa Francisco falou em dar “cobertura legal” às relações entre pessoas do mesmo sexo e de uma “lei sobre a convivência civil” naquela entrevista de 2019, mas, como a sua linguagem foi tirada do contexto, não há como avaliar o que ele realmente quis dizer.

Em alguns círculos, Afineevsky, junto com certos jornalistas, já despontou como o vilão da narrativa, culpado de criar uma peça de “fake news” a fim de promover o filme ou de alimentar uma pauta.

Há apenas um problema: o Vaticano não negou que o Papa Francisco apoia as uniões civis, apesar de se ter criado nas últimas 48 horas uma impressão global de que ele as apoia. O Vaticano não só não contestou o conteúdo do filme, como na noite passada Afineevsky recebeu o “Prêmio Kineo de Humanidade” nos Jardins do Vaticano, na presença de altas autoridades das comunicações vaticanas, um selo indireto de aprovação, se é que existe um.

Do jeito que as coisas estão, portanto, quase não importa qual foi a participação de Afineevsky na edição do documentário. Francisco e sua equipe sabem muito bem o que a maioria das pessoas acham que ele disse e não fizeram nada para corrigir isso, o que significa que, do jeito que as coisas estão, eles são responsáveis por essa impressão.

Obviamente, esse último enigma de relações públicas é uma reminiscência das célebres entrevistas de Francisco com o lendário jornalista italiano Eugenio Scalfari, fundador do jornal La Repubblica. A primeira ocorreu em outubro de 2013, na qual Scalfari citou o novo pontífice dizendo, entre muitas outras coisas, que as lideranças da Igreja costumam ser “narcisistas, lisonjeados e muito entusiasmados com seus cortesãos”. Alguns meses depois, Scalfari escreveu um artigo afirmando que o Papa Francisco havia “abolido o pecado”. Avancemos para 2018 e para outra conversa de Scalfari com Francisco. Desta vez, Scalfari alegou que Francisco também aboliu o inferno.

Em todos os casos, o Vaticano tentou colocar alguma distância entre Francisco e Scalfari, e rapidamente descobriu-se que Scalfari, hoje com 96 anos de idade, não havia gravado as conversas ou feito anotações. Então, o que ele escreveu foi mais uma reconstrução baseada em suas próprias extrapolações a partir da conversa.

No entanto, de forma semelhante, a questão é que Francisco continuou falando com Scalfari, de modo que o católico médio não pode deixar de pensar que o papa não deve ficado tão chateado. Como resultado, Francisco e sua equipe não podem se dissociar completamente das conclusões que essas entrevistas produziram.

Em certo sentido, tudo isso é terrivelmente injusto para um líder cujas palavras se tornam manchetes e que não pode controlar todos os diversos usos possíveis sobre essas palavras. No entanto, seja pela generosidade e pela moderação papais, como diriam seus admiradores, ou por uma estratégia maquiavélica de enviar uma mensagem enquanto se desvia da responsabilidade, como seus críticos tendem a ver, o fato é que, se um líder acredita que ele ou ela foi deturpado e mesmo assim permanece em silêncio, até mesmo enviando sinais de aprovação, então a propriedade dessa mensagem volta para esse líder.

Então, aqui está a moral da história.

O Papa Francisco realmente disse naquela entrevista de 2019 aquilo que o filme parecer fazer ele dizer? Não exatamente, porque o que vemos em “Francesco é um pastiche de frases ditas em contextos diversos e, na ausência de mais informações, é impossível saber exatamente o que Francisco tinha em mente.

Isso importa? Provavelmente não. Se o Papa Francisco não queria que você acreditasse que ele apoia as uniões civis, ele tem uma infinidade de instrumentos para esclarecer as coisas. Enquanto isso não ocorre, nem quebrar a fita da gravação fará muita diferença.

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