Vamos guardar os celulares à mesa. Vamos parar de nos proteger do esforço do encontro. Artigo de Massimo Recalcati

Uso do celular. | Foto: Reprodução

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

06 Janeiro 2020

"O chamamento de Francisco deve ser lido de uma maneira diferente de um genérico retorno à retórica patriarcal da família. Sabemos disso por experiência própria; se existe uma beleza na família, é aquela que podemos encontrar em toda instituição humana; uma beleza que não exclui rachaduras, trincas, desconforto, feridas".

O comentário é de Massimo Recalcati, psicanalista italiano e professor das universidades de Pavia e de Verona, em artigo publicado por la Repubblica, 30-12-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Segundo o psicanalista, "no tempo em que a palavra não é mais (justamente) sequestrada pela autoridade dos pais, no tempo em que uma nova pluralidade se configura, o mais importante é preservar o lugar da palavra como um local de uma conexão diferente daquela alimentada pelos objetos tecnológicos. Não é a palavra retórica do diálogo entre gerações - muitas vezes impossível - nem a palavra conformista-burguesa, nem a palavra pacificadora do bom senso. Habitar a vida da família impõe hoje mais do que ontem um novo equipamento: suportar a solidão em que todos nós estamos evitando cultivar a ilusão de uma harmonia que simplesmente não existe".

Eis o artigo. 

O Papa Francisco convida a recuperar a comunicação nas famílias devastadas pela irrupção prepotente dos smartphones.

Até o local do convívio onde a palavra e a comida se alternavam parece ter sido demolido pelo fechamento autista causado pelo uso ilimitado da tecnologia. É um problema de grande atualidade que envolve não apenas os filhos, mas também adultos igualmente alienados em seus parceiros tecnológicos.

O chamamento de Francisco não contém tanto a evocação nostálgica de um tempo perdido, onde a família era o lugar idílico para troca e comunicação. No tempo dominado pela figura patriarcal do pai patrão, com muita frequência, o espaço da palavra era sequestrado por sua voz, cujo timbre severo obtinha um silêncio assustado. Portanto, não se trata de mendigar um tempo que irreversivelmente ficou para trás e de modo algum ideal; não se trata de olhar nostalgicamente para o passado para encontrar uma solução para os problemas de nosso tempo. A família não é uma instituição ideal, como nenhuma instituição humana ó é.

Como pais, sempre tateamos no escuro, precários, em dificuldade. Ninguém, muito menos o pai disciplinador do patriarcado, possui a chave para tornar a vida juntos frutuosa. Mas nosso tempo coloca um problema adicional: existe uma tendência cada vez mais difundida - especialmente no mundo juvenil - (que eu recentemente chamei de "neo-melancólica") à fobia, ao retraimento social, ao fechamento. Nossos filhos tendem a construir nichos separados que, em vez de protegê-los da vida, os separam da vida. É um atalho que também inclui o mundo dos adultos: preferir o fechamento à abertura; a defesa da vida ao encontro com a plenitude da vida.

A ilusão da hiper-conexão é a de colocar nossas vidas em relacionamento com aquelas dos outros quando, ao contrário, muitas vezes separa do relacionamento. Mas todo relacionamento, incluindo aquele familiar, não é protegido das dificuldades, dos mal-entendidos e dos conflitos. Talvez por esse motivo, o relacionamento sem relacionamento do parceiro tecnológico seja preferido às inevitáveis asperezas do relacionamento real. O chamamento de Francisco deve então ser lido de uma maneira diferente de um genérico retorno à retórica patriarcal da família. Sabemos disso por experiência própria; se existe uma beleza na família, é aquela que podemos encontrar em toda instituição humana; uma beleza que não exclui rachaduras, trincas, desconforto, feridas.

No tempo em que a palavra não é mais (justamente) sequestrada pela autoridade dos pais, no tempo em que uma nova pluralidade se configura, o mais importante é preservar o lugar da palavra como um local de uma conexão diferente daquela alimentada pelos objetos tecnológicos. Não é a palavra retórica do diálogo entre gerações - muitas vezes impossível - nem a palavra conformista-burguesa, nem a palavra pacificadora do bom senso. Habitar a vida da família impõe hoje mais do que ontem um novo equipamento: suportar a solidão em que todos nós estamos evitando cultivar a ilusão de uma harmonia que simplesmente não existe.

Mas essa desilusão, em vez de desencorajar, desmotivar, frustrar, deveria ajudar-nos a reunir como "preciosos tesouros" aqueles fragmentos de humanidade e beleza que ainda podemos encontrar ao estar juntos em família. Não pretender a felicidade dos filhos, não se colocar como exemplos de como seja correto viver, não esconder as nossas dificuldades. Em outras palavras, estar junto com o desconforto que toda situação de estar juntos comporta.

Então, lido nesta chave, o chamamento de Francisco não nos exorta a cultivar a ilusão de uma família ideal, mas a não esconder a cabeça na areia diante da dificuldade de construir relacionamentos humanos não artificiosos e unilaterais, como aqueles que a tecnologia oferece. Na verdade, aqueles relacionamentos não são relacionamentos. São relacionamentos - conexões - que prometem salvar da dificuldade real de qualquer relacionamento, inclusive o da família.

 

Leia mais