O cardeal no porão dos últimos

Stefan Wyszynski. Foto: PAP / CAF / Z. Wdowinski

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14 Mai 2019

Existe uma Igreja que literalmente desce no porão dos últimos, sujando as mãos para restaurar a luz. E uma política, vinculada a setores eclesiásticos de viés obscurantista, que abertamente a ataca e até a ridiculariza. No meio disso está o conceito de legalidade, pote de barro entre o apelo à superioridade das consciências, por um lado, e a defesa dos interesses, pelo outro. Nas últimas horas as duas posições se manifestaram através de ações simbólicas.

A reportagem é de Gabriele Romagnoli, publicada por la Repubblica, 13-05-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

A primeira é do cardeal Krajewski, o esmoleiro do Papa, que desceu no poço dentro de um prédio ocupado para remover os lacres que impediam o fornecimento de luz e água quente por causa de contas em atraso. Um gesto forte, a intervenção de uma igreja do fazer, composta por sacerdotes com um passado de trabalhadores, que não hesitam em entrar no meio de cidadãos e instituições para realizar o que, por ensinamento recebido a elaboração pessoal, considerem a coisa certa. Nisso, o esmoleiro se coloca na esteira do histórico "primaz do milênio", herói da igreja polonesa, amigo e mentor de Karol Wojtyla, o cardeal Wyszynski que em uma carta ao seu governo esculpiu as palavras: "Vamos seguir a voz apostólica de nossa vocação e consciência sacerdotal". Aquela voz lhe disse para romper os lacres escolhendo entre as necessidades de 450 pessoas e a contabilidade da entidade prestadora de serviços e assumir a responsabilidade por isso. Não é coincidência que a causa de beatificação de Wyszinski, iniciada por João Paulo II em 1989 e depois deixada em espera, tenha sido reiniciada pelo Papa Francisco.

O mesmo papa contra quem ocorreu, com gesto inédito e forte, uma procissão pelas ruas de Roma que leva à Praça de São Pedro e justamente durante Angelus. Militantes da Forza Nuova, organização de extrema-direita, afixaram uma faixa com os dizeres: "Bergoglio como Badoglio. Pare a imigração". O papa chamado pelo sobrenome, como um adversário qualquer, unido a quem foi considerado um traidor dos princípios. E agora um alvo não só de um grupo do Vaticano, mas de um partido político.

O desafio está aberto, com uma sucessão de pancadas e respostas: o papa que recebe a família cigana ultrajada pelos neo-fascistas em Casal Bruciato, exasperando ainda mais aqueles que já haviam desprezado o gesto de beijar os pés dos líderes do Sudão do Sul.

Tudo isso enquanto evita receber o verdadeiro referente desse sentimento, Matteo Salvini. Que, por enquanto, se vira com seus comentários ácidos: "O Papa pode se encontrar com quem ele quiser, ele é livre para fazê-lo" e "Se alguém tem condições de pagar as contas dos italianos em dificuldade ficaremos felizes. Mas agora que pague também as atrasadas".

Mas é claro que a contraposição é clara e que as referências do Papa à civilização são golpes. Como replicar a isso? Você certamente não pode chama-lo de “bonzinho”, pois a bondade é parte de seu credo, ou culpa-lo por um Rolex, quando seu Estado poderia comprar a fábrica, mas ele provavelmente segue uma linha intermediária. Nem mesmo se pode, como para Mimmo Lucano, prefeito afastado de Riace e alvo anunciado do dia, culpá-lo pela transgressão da legalidade em nome de uma ideia pessoal de justiça. Quando rompe os lacres, o esmoleiro do Papa que desceu no poço, segue uma visão que vai além da sua própria, que vem de cima.

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