Francisco: “Somos uma civilização que não faz filhos e também fecha as portas aos migrantes: isso se chama suicídio”

Ícone dos Novos Mártires da Basílica de São Bartolomeu. (Crédito: Comunidade de Sant’Egidio)

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24 Abril 2017

“Muitos campos de refugiados são como campos de concentração. Os acordos internacionais são mais importantes que os direitos humanos”. Essa foi a denúncia que o Papa Francisco fez neste domingo, 23 de abril, durante uma Liturgia da Palavra em memória dos mártires do século XX e XXI que presidiu na Basílica de São Bartolomeu, na Ilha Tiberina desta capital.

A reportagem é de Elisabetta Piqué, publicada por La Nación, 23-04-2017. A tradução é de André Langer.

Em uma homilia em que evocou os “muitos cristãos assassinados só porque são discípulos de Jesus”, deixando de lado o texto preparado, Francisco recordou uma mulher, “da qual não lembro o nome, mas que nos olha do céu”, cristã, casada com um muçulmano e que foi degolada por terroristas fundamentalistas após negar-se a tirar o crucifixo. “Degolaram-na na minha frente; nós nos amávamos muito”, contou ao Papa seu marido, muçulmano, de 30 anos e pai de três filhos, quando o saudou em um campo de refugiados – de Moria – na ilha grega de Lesbos, no ano passado.

Com rosto fechado, Francisco acrescentou que não sabia o que aconteceu a esse homem que lhe contou essa terrível história. “Não sei se aquele homem conseguiu sair daquele campo de concentração", disse. “Muitos campos de refugiados são como campos de concentração, com toda essa gente”, acusou, sem papas na língua. Os migrantes “são abandonados a povos generosos que devem carregar este peso, porque parece que os acordos internacionais são mais importantes do que os direitos humanos”, acrescentou.

Em sua homilia, o Papa também recordou que “a causa de qualquer perseguição é o ódio”. E destacou que “a Igreja necessita de mártires, de testemunhas, isto é, dos santos de todos os dias, dessa vida ordinária, vivida com coerência”. “Mas também daqueles que têm a coragem de aceitar a graça de serem testemunhas até o final, até a morte”, continuou. “Todos eles são o sangue vivo da Igreja, são as testemunhas que levam adiante a Igreja”, acrescentou.

“Os mártires nos ensinam que, com a força do amor, com mansidão, se pode lutar contra a prepotência, a violência, a guerra e se pode realizar com paciência a paz”, afirmou, finalmente.

Em uma igreja de mais de mil anos, considerada dos mártires, já que conserva antigas e mais recentes relíquias de mártires, que está sob os cuidados da Comunidade de Santo Egídio, escutavam-no em silêncio alguns familiares de vítimas do horror de nossos tempos. Entre eles, a irmã de Jacques Hamel, o padre de 86 anos que foi assassinado por terroristas fundamentalistas no dia 26 de julho do ano passado no norte da França, que falou no começo da cerimônia. Por Hamel, assim como por cristãos mártires do comunismo, da guerra civil espanhola, do terrorismo de Estado – foram mencionados o beato Oscar Romero e o bispo argentino Enrique Angelelli – e da perseguição que ocorre hoje em várias partes do mundo, rezou-se depois em um ambiente de grande recolhimento.

Antes de sair, o Papa saudou um a um os refugiados sírios que trouxe em seu avião de Lesbos, que se estabeleceram na Itália, e muitos outros, entre os quais havia africanos, trazidos nas chamadas “pontes humanitárias” pela Comunidade de Santo Egídio.

Ao sair da igreja, rodeada por uma multidão que queria saudá-lo, o Papa voltou a fazer um apelo em favor dos refugiados, uma das grandes preocupações do seu pontificado. “Pensemos na crueldade, na exploração, nas pessoas que chegam em embarcações e são acolhidas por países generosos, como a Grécia e a Itália, mas que depois os tratados internacionais não deixam (ir para outros lugares)”, disse, falando a um microfone.

“Se na Itália dois migrantes fossem acolhidos por município, teria lugar para todos”, desafiou. Elogiou, em seguida, “a generosidade do sul”, da Ilha de Lampedusa, da Sicília, de Lesbos, e desejou que “possam contagiar um pouco o norte”. “Somos uma civilização que não faz filhos, mas também fechamos as portas aos migrantes: isso se chama suicídio”, concluiu.

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