O bem é ter outro diante de nós. Artigo de Paolo Ricca

Imagem: reprodução / Pixabay

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16 Janeiro 2017

“Cada um é uma bênção para o outro através de uma relação de amor. De acordo com o Evangelho, o bem que recebemos ou que fazemos está indissoluvelmente ligado ao próximo e à relação com ele.”

A opinião é do teólogo e pastor valdense italiano Paolo Ricca, professor emérito da Faculdade Valdense de Teologia, em artigo publicado no sítio da revista Riforma, das Igrejas evangélicas batista, metodista e valdenses italianas, 10-01-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Existem bibliotecas inteiras que abordam o eterno (por ser insolúvel) problema do mal. Ao contrário, são raros os livros que levantam e discutem o problema do bem. Uma dessas raridades é um livro recém-lançado, escrito a quatro mãos (mas parecem apenas duas) por Gabriella Caramore e Maurizio Ciampa, intitulado La vita non è il male [A vida não é o mal], que retoma uma frase do poeta russo V. Grossman.

Por que não é o mal? Porque, embora o mal continue impondo implacavelmente a sua presença semeando ódio, dor e morte todos os dias (“o mal sempre volta a se armar, reinventando as suas formas; tem uma criatividade perversa e poliédrica”), ele também não consegue submergir a vida, esmagar totalmente a humanidade que, embora cercada ou, melhor, assediada como é pelo mal, consegue se lembrar que ‘existe o ‘bem’. É preciso somente dar-lhe espaço, fôlego, escuta” (é a frase inicial e programática do livro).

Que ele existe não é uma ideia ou uma ilusão, é um fato. E é um fato que o homem pode discernir, e pode fazê-lo não se deixando vencer pelo mal, mas vencendo o mal com o bem, como diz o apóstolo Paulo (Romanos 12, 21, p. 170).

É claro, o bem – dizem os autores – “aparece como um enigma”, e o é; portanto, é lógico se perguntar “de onde ele vem”. Mas o livro não dá uma resposta, talvez não a queira dar: ele diz apenas, como veremos, que o bem vem “através do outro”. A resposta, no máximo, será dada pelo leitor, após a conclusão da leitura. O livro não é um ensaio teórico de tipo filosófico sobre o problema do bem; em vez disso – como diz o subtítulo – é uma reflexão sobre os rastros do bem.

Esses rastros são descobertos e descritos em muitas outras histórias de pessoas do nosso tempo, que, em alguns lugares, tempos e contextos diversos, praticaram o bem, de formas às vezes exemplares. O bem existe naqueles que o fazem e se tornam, assim, neste mundo que se afoga no mal, testemunhas de que o bem é possível. As histórias contidas no livro mereceriam ser, todas, no mínimo, resumidas, mas os limites de uma resenha não permitem isso.

Mas eu desejo citar uma – a que mais me tocou – aqui. Lendo essa história, não se pode deixar de pensar naquilo que Jesus disse à adúltera: “Eu não te condeno. Vai...”. Adalgisa como Jesus: perdoando o fascista, ela despedaça a corrente do ódio e, fazendo o bem, faz florescer a vida em vez de semear outra morte.

Assim como essa, outras histórias compõem a substância desse livro, que eu não hesito em definir como “evangélico”. Não tanto pelas frequentes citações (do Gênesis, Isaías, Jeremias, , Mateus, Paulo) e reminiscências bíblicas, como quando o bem é definido como “um vento que vem do outro”, e logo se pensa no sopro do Espírito do qual Jesus fala a Nicodemos – sopro que, porém, lá, não vem “de um outro”, mas de outro lugar.

O livro é “evangélico” principalmente pela tese que ele defende e que pode ser resumida em duas afirmações. A primeira é que o bem chega a nós através da “presença de um outro diante de nós. (...). De um outro vem o bem (...). Nasce em relação, o bem. E de relação se alimenta”.

Tudo isso é muito evangélico: cada um é uma bênção para o outro através de uma relação de amor. De acordo com o Evangelho, o bem que recebemos ou que fazemos está indissoluvelmente ligado ao próximo e à relação com ele.

A segunda afirmação é retomada pelos autores de Hannah Arendt, que não fala só da “banalidade do mal”, mas também da “profundidade do bem”, defendendo que “só o bem tem profundidade”. Esse também é um discurso evangélico, porque, ao ouvi-lo, não se pode deixar de pensar naquilo que o apóstolo Paulo diz quando fala das “profundidades (ou das “coisas profundas”) de Deus” (1Coríntios 2, 10). “Só o bom tem profundidade”, porque todas as coisas importantes têm profundidade. Se não o tivessem, não seriam importantes.

“Profundo é o mundo – canta Zaratustra –, profunda, a sua dor, mas mais profundo do que a dor é a sua alegria; cada alegria quer uma profunda, profunda Eternidade.” Profundo é o mistério da vida, profunda é a verdade, profunda é a alma humana: “Dos lugares profundos eu grito a ti, ó Eterno!” (Salmo 130, 1).

Quem sabe algo sobre essas profundidades sabe algo sobre Deus. A profundidade do bem é parente da profundeza de Deus. Por isso, a quem faz experiência, direta ou indireta, da profundidade do bem, Jesus hoje diria: “Você não está longe do reino de Deus” (Marcos 12, 34).

Em 1934, um pastor e teólogo da Igreja Reformada da França, Wilfred Monod (1867-1943), publicou três grandes volumes, de quase 1.000 páginas no total, intitulados “O problema do bem”. Em um sermão dele de 1921 com o mesmo título, Monod dirigiu aos seus ouvintes esta pergunta: “Admitamos que o Mal e o Bem sejam ambos inexplicáveis aqui na terra. Mas o fato é que o problema do mal nos aflige, enquanto o problema do bem nos consola. Então, por que permanecer hipnotizado pelo primeiro?”.

O valor do livro de Gabriella Caramore e Maurizio Ciampa é que ele nos ajuda a não ficar hipnotizados pelo mal, a crer na possibilidade do bem e a lutar com nós mesmos para vencer o mal com o bem.

  • G. Caramore; M. Ciampa. La vita non è il male. Cinque capitoli di riflessione sulle tracce del bene. Milão: Salani, 2016, 247 páginas.

Um trecho

A mãe que quebrou a corrente do ódio

Poucos dias antes da Libertação de 1945, “em um vilarejo da província de Parma, uma mãe salva do linchamento o jovem fascista que, poucos dias antes, tinha matado o seu filho, diante dos seus olhos abatidos que pediam piedade (...). Adalgisa, este era o nome da mulher, poderia se vingar e aplacar ao menos um pouco a ferida que ainda sangrava. Todos, ao redor dela, pediam uma justiça imediata: a execução do jovem fascista. Todos a esperavam, todos a reivindicavam (...). Mas Adalgisa optou por não multiplicar o ódio (...). Quebrando um silêncio duro, franzido, ela diria pouquíssimas palavras, uma única e escassa frase (...) que permaneceria bem gravada na memória dos presentes, como que esculpida. ‘Você tem uma mãe? Vai, volte para ela’, disse Adalgisa, dirigindo-se diretamente ao assassino (...). À mãe do assassino, Adalgisa não quer infligir a dor que ela sofreu (...). Nada de execução. A multidão deixa a praça decepcionada”.

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