“O traço religioso é uma constante em Grande Sertão: Veredas. A peregrinação de Riobaldo pelo sertão pode ser lida como um 'roteiro de Deus nas serras dos Gerais' (GSV, 223). Mesmo com a presença sombria do Demo por toda parte, e também no fundo da alma, o que prepondera em Riobaldo é a vitalidade de Deus, das rezas fortes, e do anseio pelo céu, mesmo sabendo que o caminho que leva para essa beleza é demorado (GSV, 23)”, escreve Faustino Teixeira, teólogo, professor emérito da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e colaborador do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Nesse ano de 2026 o livro Grande Sertão: Veredas (GSV) completa 70 anos. Foi em 16 de julho de 1956 que o romance saiu publicado, com 594 páginas, pela editora José Olympio. Na capa e contracapa a presença pujante do artista Poty, que se tornou um clássico. A segunda edição saiu em agosto de 1958, pela mesma editora, trazendo agora a rubrica “texto definitivo”. Em 2019 saiu pela Companhia das Letras uma bela edição, de número 22, e alguns dos exemplares vieram com um lindo bordado na capa. Foi com essa edição que pude trabalhar nos últimos anos nos diversos cursos, conferências e lives que ministrei sobre o tema.
Duas biografias foram escritas sobre Guimarães Rosa. A primeira, que não veio publicada, é de autoria de Gustavo de Castro, e tem como título: João Guimarães Rosa (1938-1967): biografia do infinito. É uma volumosa biografia, com 772 páginas, tendo sido concluída em 2020. A segunda biografia, que saiu em maio de 2026, é igualmente volumosa, com 736 páginas, de autoria de Leonencio Nossa. Ela tem como título: João Guimarães Rosa: biografia.
Estamos, sem dúvida, diante de uma das mais importantes realizações da literatura brasileira no século XX, com significativa irradiação mundial, já com várias traduções, seja para o alemão, seja para o italiano, francês e inglês. Vale destacar a riqueza das traduções alemã e italiana. A primeira, a cargo de Curt Meyer-Clason (1964), e a segunda, realizada por Eduardo Bizzarri (2007). Estão em curso duas novas traduções: uma inglesa (Alison Entrekin) e outra alemã (Bertold Zylly). A primeira já chega ao mercado em 2026 e a segunda em 2027.
Como mostrou com razão Walnice Galvão, “Guimarães Rosa é único na literatura brasileira: foi em sua pena que nossa língua literária alcançou seu mais alto patamar” [1]. O romancista conseguiu com sua obra tocar o “centro da língua”, recorrendo com grande criatividade e ousadia à mais ampla 'utilização das virtualidades' da narrativa portuguesa [2]. Antonio Candido define o livro de Rosa como uma “extraordinária obra prima”. Para ele há ali “de tudo para quem souber ler, e nela tudo é forte, belo, impecavelmente realizado” [3]. Trata-se, segundo Candido, de um livro que não se reduz à sua matriz regional, mas avança para temas que têm um significado metafísico, abordando quesitos fundamentais que expressam os “grandes lugares comuns, sem os quais a arte não sobrevive: dor, júbilo, ódio, amor, morte” [4]. Em verdade, o sertão ali traduz a realidade do mundo, e o jagunço, a realidade do humano. A escritora Clarice Lispector, ao ler o livro de Rosa, sublinhou que encontrou nele uma “reconciliação com tudo”, favorecendo um enriquecimento novidadeiro [5].
Em rico diálogo com Gunter Lorenz, Guimarães Rosa sublinha que em razão de sua raiz sertaneja sempre privilegiou a narrativa de estórias. É algo que está no sangue. Reconhece que mesmo em seus romances o que se dá, em verdade, são “contos nos quais se unem a ficção poética e a realidade”. A seu ver, seus livros são aventuras, e ao escrever descobre “sempre um novo pedaço de infinito”, pois é nele que vive [6].
Aqui nessa minha reflexão não pretendo fazer um apanhado geral da obra de Rosa, mas me ater, de forma breve, às questões que marcaram a minha leitura de Grande Sertão: Veredas. Eu as resumiria em cinco: (a) Riobaldo e a visão da ambiguidade que habita o ser humano; (b) A presença amorosa na relação de Riobaldo com Diadorim; (c) A presença das mulheres na vida de Riobaldo; (d) A abertura ao mundo vegetal e animal; (e) Riobaldo e a presença do religioso.
Com base na chave metafísica para a compreensão da obra, podemos reconhecer a presença de uma ambiguidade certeira em Grande Sertão: Veredas [7]. O humano vem localizado num mundo, que traduz a realidade de um “sertão” que invade e conforma o pensamento, e que tem uma densidade singular, sem indicação moral precisa: “não é malino nem caridoso (...), ele tira ou dá, ou agrada ou amarga” (GSV, 373). O sertão “está em toda parte” (GSV, 13), igualmente “dentro da gente” (GSV, 224). O livro apresenta uma gama de ambiguidades, como mostrou Antonio Candido, envolvendo os planos da geografia, dos tipos sociais e da dinâmica afetiva. Uma ambiguidade que é também metafísica, que situa o personagem Riobaldo entre o bem e o mal, entre o Deus e o Demo. São diversos planos de ambiguidade e que denotam “um deslizamento entre os polos, uma fusão de contrários, uma dialética extremamente viva, - que nos suspende entre o ser e o não ser para sugerir formas mais ricas de integração do ser” [8].
Riobaldo transcorre sua jornada tomado por uma questão decisiva: existe ou não o Demo? Para o narrador, o diabo “vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos” (GSV, 15). Sua presença se faz certeira por toda parte: nos homens, nas mulheres, nas crianças; mas igualmente “nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento” (GSV, 15).
Os conflitos por que passa Riobaldo no plano subjetivo são, em verdade, conflitos universais pelos quais passa todo ser humano. Não há quem não tenha essa ambiguidade dentro de si. Faz parte do drama de estar situado no mundo, da busca do sentido da vida. O caminho é sempre resvaloso, mas há que encontrar o rumo certo. Como diz Riobaldo, “o espírito da gente é cavalo que escolhe estrada: quando ruma para a tristeza e morte, não vai vendo o que é bonito e bom” (GSV, 138). A regra ali, na vida dos jagunços era pontual: “Ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa” (GSV, 355).
Ao longo do romance vemos um embate constante entre a “vozinha do bem” e o “vapor do mal” [9], duas expressões utilizadas pelo narrador para traduzir essa dualidade presente no mundo interior. A “vozinha do bem” é uma “vozinha forte demais”, e ela dá avisos. Ela provém de um recanto modulado por “miúdos remansos, aonde o demônio não consegue espaço de entrar” (GSV, 338). Riobaldo, em precisos momentos, foi salvo por essa “vozinha”, mediante a intervenção precisa de Diadorim (GSV, 355).
Como contraponto, há igualmente a sombria presença do “vapor do mal”. A certo momento de sua narrativa, Riobaldo sublinha que “tudo sai é mesmo de escuros buracos, tirante o que vem do céu” (GSV, 426). Vemos o tempo todo Riobaldo driblando o risco de ser dominado pelo Demo, amparado por uma vozinha interior que o advertia: “Tu vigia, Riobaldo, não deixa o diabo te por sela” (GSV, 352). Para evitar a presença maligna que sempre o rondava, buscava com afinco “o esperto socorro, para tentear com o Sujo em suas próprias portas” (GSV, 352). Essa ambiguidade do mundo interior era apenas a expressão do que Riobaldo disse certa vez: “Natureza da gente não cabe em nenhuma certeza” (GSV, 300).
As ruindades, como diz Riobaldo, estão sempre por perto, irradiando o vapor do mal. Como o demo “está misturado em tudo”, ele se manifesta nas proximidades, e atua justamente nos intervalos, como mostrou com razão Walnice Galvão: “O Diabo ganha pequenas paradas, rápidas e logo concluídas dentro do grande fluir de tudo o que existe e que é Deus; mas nessas pequenas paradas pode se danar o homem” [10]. O trabalho do Demo é justamente interromper esse fluir. O que mais nos espanta é que o Demo está bem perto de nós, como indicou Riobaldo: “Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos” (GSV, 16).
Junto à neblina envolvente do mal, temos também a presença ativa do ódio, que segundo Tatarana “não carece de razão” (GSV, 284). Sem mais nem menos, vindo não sei de onde, pode ocorrer das mãos da gente um ato “sem o pensamento ter tempo” (GSV, 368). É algo sério, que aguça o pensamento e a preocupação. O ser humano é, assim, um “bicho” estranho que pode ser tomado, sem mais, por uma raiva intrometida que vem de rincões profundos e sombrios, que como um “bicho subterrâneo” emerge provocando estragos e mesmo crimes hediondos. Riobaldo reconhece que “viver perto das pessoas é sempre dificultoso, na face dos olhos (GSV, 131).
Dos traços mais encantadores do romance de Guimarães Rosa temos a relação de proximidade entre Riobaldo e Diadorim. Foi no processo dessa relação que Riobaldo descobriu a força da coragem. Ali nas proximidade do Rio São Francisco foi que ele ouviu a palavra decisiva do menino Reinaldo: “Carece de ter coragem” (GSV, 82). Tudo transcorreu num processo bonito e delicado, desde que o Menino uniu sua mão com a de Riobaldo, provocando um encanto único (GSV, 82). Era “uma mão branca, com os dedos dela delicados” (GSV, 82). Foi o menino que ajudou Riobaldo a descer o barranco e entrar na canoa de peroba, ali no de-Janeiro, que era um rio de águas claras.
Foi junto ao rio que Riobaldo ouviu o Menino dizer que ele era diferente dos outros (GSV, 84). Reinaldo – que depois se revelará como Diadorim -, era filho do grande chefe jagunço, Joca Ramiro, e fora educado desde menino para ser homem. A partir daquele primeiro encontro, no porto do de-Janeiro, uma amizade bonita nasceu, dando frutos imarcessíveis. A amizade para Riobaldo era coisa séria, não apenas um “ajuste de um dar serviço ao outro”, mas a experiência viva de uma interlocução criadora, tecida por ternura e carinho, de um “prazer de estar próximo”, de forma gratuita, sem pensar em reciprocidade (GSV, 133-134).
Riobaldo não se esqueceu jamais daquele menino, e depois de muitos anos o reencontrou como jagunço na Fazenda do São Gregório. O impacto de ver o amigo entrando na soleira da porta foi esplêndido: “Soflagrante, conheci. O moço, tão variado e vistoso, era, pois sabe o senhor quem, mas quem, mesmo? Era o Menino!” (GSV, 104). Sua vontade foi de ir logo ao encontro dele, mas falhou na coragem. Narrando para o interlocutor da cidade essa experiência de reencontro com o Menino, Riobaldo reconhece que o seu coração bateu diferente. O que se percebia ali era algo novidadeiro. Riobaldo reconhece que algo diverso sucedia: “Quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota depois” (GSV, 105). Certamente, era algo que não podia provir do Demo. Foi um amor que ficou gravado. O itinerário de Riobaldo tinha mesmo que esbarrar com tal sucedido: “Pensar na pessoa que se ama, é como querer ficar á beira d´água, esperando que o riacho, alguma hora, pousoso esbarre de correr” (GSV, 260).
Era, porém, um amor que não podia desabrochar por inteiro, e isso provocava angústia em Riobaldo, que tentou tratar dessa questão com seu interlocutor: “Agora, que o senhor ouviu, perguntas faço. Por que foi que eu precisei de encontrar aquele Menino?” (GSV, 84). E como poderia viver um amor com um jagunço? Tudo isso embaralhava a sua cabeça e provocava perplexidades. Estava diante de um dilema onde se misturavam camaradagem viril e desejo ardente. Se, por um lado, vinha movido por vontade de “beijar aquele perfume no pescoço”; por outro, recuava assegurado pela têmpera de jagunço. Uma grande dúvida o perseguia: “Mas, dois guerreiros, como é, como iam poder se gostar, mesmo em singela conversação – por detrás de tantos brios e armas?” (GSV, 413).
Mas, sem dúvida, Riobaldo foi tomado de encanto por Diadorim, nome revelado para ele, por Reinaldo, numa tapera situada nas Lagoas do córrego Mucambo. E o revelou como um segredo bem particular, para uso na intimidade (GSV, 117). Foi um dia especial na vida do jagunço, um dia marcado por singular pertença. Da mão de Diadorim recebia agora certezas. De seus olhos, igualmente, “quase tristes de grandeza”, provinham o fervor de uma alma, que era “uma cortesia de bondade” (GSV, 283). Riobaldo assinala que abraçou diadorim “como as asas de todos os pássaros” (GSV, 36).
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Sem dúvida, Riobaldo veio tomado pela força daqueles olhos verdes, que lembravam a cor dos buritis. Eram olhos “dum verde dos outros verdes, como o de nenhum pasto (GSV, 355). Um olhar de doçura e encanto, de afeto vivo e irradiante. Vai se dando conta, a cada dia de convivência, que o seu sentir era incandescente: “Uma amizade somente, rei-real, exata de forte, mesmo mais do que amizade”, tecida por simpatia única (GSV, 413). Chegou a sonhar com Diadorim passando por debaixo de um arco-iris (GSV, 43). Seria o passo de realização. Esse amor veio também partilhado por Diadorim, que era “de todo quilate: ele não tartameava mais, de ciúme nem de medo” (GSV, 346).
Quando, já ao final do livro, Riobaldo se depara com Diadorim, sem vida, em cima de uma mesa, foi tomado por grande sufoco e ainda buscou uma maior aproximação, mas estremeceu, baixando os olhos. Recordou que estava mesmo diante de seu amor. Quando a mulher de Hermógenes recolheu a toalha que a cobria, Riobaldo exclamou: “Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca, adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata” (GSV, 429). Diante de Diadorim guerreira, todos ali choraram, e juntos a enterraram no cemitério do Paredão. Depois disso, Riobaldo larga para sempre a jagunçagem.
A presença feminina é um dos aspectos vitais na trajetória de Riobaldo Tatarana. São inúmeras as personagens femininas que se encontram no caminho do jagunço. Toda a jornada de Riobaldo pelo sertão veio modelada pelas cores do amor. Como ele mesmo diz: “a flor do amor tem muitos nomes” (GSV, 141). Esse é um tema que foi desenvolvido com riqueza por autores como Benedito Nunes, Luiz Roncari e Adair de Aguiar Neitzel.
Em seu livro, O dorso do tigre, Benedito Nunes aborda o tema do amor na obra de Guimarães Rosa, e indica a sua posição privilegiada [11]. Por sua vez, Roncari vai debruçar-se sobre os três grande amores de Riobaldo: Diadorim, Otacília e Nhorinhá [12]. Merece destaque o livro de Adair de Aguiar Neitzel sobre o tema, acrescentando outros nomes femininos importantes na vida de Riobaldo [13].
Em sua experiência, Riobaldo experimenta espécies diversificadas de amor. Como aponta Roncari, “a vida da sexualidade era para ele um campo aberto, sem muitos limites: os namoros passageiros, o onanismo, a relação com prostitutas e até o estupro. O que ele fazia era demarcar uma fronteira muito nítida” entre os amores presentes [14].
Há, primeiramente, o amor voluptuoso, que esbanja sensualidade, que ocorre com Nhorinhá, Maria da Luz, Hortência, Rosa´uarda e Miosotis. A experiência amorosa com Nhorinhá nasceu de um abraço caloroso, que foi crescendo na memória de Riobaldo. O que se deu com ela foi um prazer sensível, “no cetim do pelo”, que foi se transformando em forte paixão. Ela era prostituta, filha da vidente Ana Duzuza [15], de “boca cheirosa” e “bafo de menino-pequeno” (GSV, 141). Seu amor ficou guardado na memória, um “gosto bom ficado em meus olhos e minha boca”, que só cresceu com o tempo, aumentando “de ser mais linda” (GSV, 77).
Dentre os amores da adolescência podem ser lembradas Rosa´uarda e Miosotis. Foi com a primeira que Riobaldo teve a sua iniciação sexual. Com a segunda, teve também um namoro juvenil. Mas, na ocasião, gostava mesmo era de Rosa´uarda, a “sempre formosa” (GSV, 94 e 129). Mais tarde, já como jagunço, Riobaldo viveu outras experiências amorosas, como todos os outros seus companheiros. O contato com elas era para todos algo essencial (GSV, 128 e 375). Teve o caso com a filha de Manoel Inácio (Malinácio), com quem dormiu numa noite em que o marido estava ausente (GSV, 103).
Como todo jagunço, Riobaldo carecia de “delícias de mulher”, de “divertimento de alívio” (GSV, 229), isso para “belezar horas de vida” (GSV, 376). Ele encontrou essa alegria também entre as ninfas do verde alecrim, a Maria da Luz e a Hortência (GSV, 376-377). Eram duas mulheres bem aquinhoadas, com vida regularizada. As duas eram “donas de uma energia libidinosa”, com “energia positiva necessária a Riobaldo” [16]; ambas portadoras da “matéria prima necessária para a regeneração de Riobaldo, o sopro vital” [17] . Com elas ficou o sentinela Felizberto, que tinha acompanhado Riobaldo, mas cuja vida estava ameaçada pela presença de uma bala alojada na cabeça. E como asseverou Riobaldo, “podia ter um remédio de fim de vida melhor?” (GSV, 379).
Ao lado do amor voluptuoso, havia também o amor enlevado na vida de Riobaldo. Era aquele vivenciado com Otacília, da Fazenda Santa Catarina, “lá naquele lugar para mim melhor, mais longe neste mundo” (GSV, 351). Um amor protegido de inocência e mistério, um porto seguro. Era distinta, “risonha e descritiva de bonita”, uma moça “fina de recanto”, mansa, “branca e delicada”, que assinalava o céu com seus lindos olhos (GSV, 142-143). Era como um dos “largos remansos do Urucuia”. Foi com ela que encontrou o rumo definitivo na vida, com quem ficou depois da morte de Diadorim. Com ela partilhou um “amor que veio de Deus” (GSV, 106). Otacília tinha o dom da paciência, e aguardou, sem pressa, a definição do amado (GSV, 146). Sabia, com certeza, que era apenas de Riobaldo que haveria de gostar.
Sobre Diadorim, já se falou anteriormente, mas ela era como uma “neblina” para Riobaldo, uma figura “insondável” e enigmática, portadora de mistérios. Segundo Benedito Nunes, Diadorim presentificava uma “paixão equívoca, vizinha do estado de confusão e encantamento” [18]. Por todo o tempo ela se protegeu do “assédio” de Riobaldo, acentuando uma presença de amor, como em modo de parentesco. Dizia que gostava dele “só como amigo” (GSV, 212). Recusava os convites de maior aproximação, sobretudo em âmbito eroticamente significativo. Como mostrou Kathrin Rosenfield, “Diadorim nunca manifesta um amor feminino ou sensual que visaria no amigo um corpo sexuado, mas articula apenas saudades de parentesco” [19].
Por fim, a presença das mulheres rezadeiras, ou seja, as figuras femininas que se firmavam em sua vida como “especialistas em artes mágicas” [20]. Eram mulheres de reza forte, de devoção intensa, que exerciam para Riobaldo um papel de dossel protetor. Tinha a Maria Leôncia, cujas rezas eram reconhecidas como portadoras de virtude de poder; e também Izina Calanga, que rezava “com grandes meremerências”. Riobaldo acercava-se delas com grande fervor. Queria, em verdade, um “punhado dessas” defendendo-o em Deus e reunidas em sua volta (GSV, 19). Assim como as rezadeiras, a presença viva das nossas senhoras sertanejas, entre as quais Nossa Senhora da Abadia. Dizia que essa “santa”, sim, tinha um poder singular. Ela valia para ele como “um mar sem fim” (GSV, 219).
Em sintonia com uma sensibilidade cada vez mais manifesta a respeito do mundo animal e vegetal, podemos situar a presença de Guimarães Rosa como singular. Ele é um dos autores nacionais importantes no campo da zooliteratura, como apontou Maria Esther Maciel em sua obra Animalidades [21]. Revela-se igualmente sensível ao campo da florestania. Trata-se de uma virada importante na literatura, que instaura uma reflexão crítica sobre a centralidade do humano. Como indicou Evando Nascimento, há uma necessidade premente “de repensarmos nosso modo de interação com esses viventes, bem como com os animais e as coisas ou matérias do reino dito mineral. Ou seja, há que se inventar novas formas de relação com o mundo” [22].
Um exemplo importante em Guimarães Rosa podemos encontrar no conto “Conversa de Bois”, presente no livro Sagarana. Na conversa realizada entre os bois-de-carro, há uma crítica explicita aos humanos. Um deles exclama:
“O homem é um bicho esmoechado, que não devia haver. Nem convém espiar muito para o homem. É o único vulto que faz ficar zonzo, de se olhar muito. É comprido demais, para cima, e não cabe todo de uma vez, dentro dos olhos da gente” [23].
No seu diálogo com Gunter Lorenz, Rosa mencionou o seu amor para com as vacas e cavalos. Sublinhou que são “seres maravilhosos”, e acrescentou que aqueles que lidam com eles são brindados por grande aprendizado, não só para si, mas também para o entendimento com os outros [24]. Como diz Riobaldo, “cheiro de boi sempre alegria faz” (GSV, 211). Não há quem não se recorde, na leitura de Grande Sertão: Veredas, do tremendo episódio da morte dos cavalos (GSV, 245-247). O que ocorreu ali, com os cavalos indefesos, foi de uma violência impar, que como expressou Riobaldo, “rasgou” a alma de todos.
Na obra Grande Sertão: Veredas temos uma bonito aprendizado seja do mundo animal como vegetal. Na verdade, Rosa nos convida, com a sua narrativa para uma visão ampliada. Riobaldo expressa bem essa ideia quando diz: “a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente – o que produz os ventos” (GSV, 225-226). Acompanhando a narrativa de Rosa, somos surpreendidos com o singular lugar de Diadorim na ampliação do olhar de Riobaldo tanto para o mundo vegetal como animal. Logo no início da obra, quando se dá o encontro entre o Menino e Riobaldo, tomamos ciência da grande sensibilidade presente na visão de Diadorim.
Aquele mesmo menino que dá as mãos a Riobaldo para ajudá-lo a descer o barranco, é o menino que apresenta para o amigo a beleza das flores no mato da beira, quando do encontro na canoa (GSV, 80). Foi ele que, maravilhado, tocou a sensibilidade de Riobaldo para perceber as lindas flores que beiravam o rio. E o mesmo com respeito aos inumeráveis animais presentes no sertão. Diz a propósito Riobaldo, “aquela visão dos pássaros, aquele assunto de Deus, Diadorim eram quem tinha me ensinado” (GSV, 140). Diz também que foi Diadorim quem provocou nele uma mudança importante, deixando o seu rastro “para sempre em todas essas quisquilhas da natureza” (GSV, 28). Nos vários momentos de caminhada comum, Diadorim foi apontando a beleza das plantas e flores; bem como a diversidade dos animais, como o xenxém, o nhambú, as garças, o bem-te-vi, o jaburú, o pato verde, o saci-do-brejo, a gangorrinha e o “môm das vacas” etc. (GSV, 27).
Dentre os distintos animais, Diadorim aponta para um em especial: o Manoelzinho-da-crôa. Dizia que era preciso olhar para ele “com um todo carinho” (GSV, 108). Era, sem dúvida, o passarinho mais bonito, com uma graça especial: “o passarinho lindo de mais amor” (GSV, 421). Dentre suas características estava a parceria. Ele, com suas perninhas vermelhas, andava sempre em par com sua companheira. Os dois sempre juntos, catando suas coisinhas e dando “beijos de biquinquim” (GSV, 108). Para Riobaldo aquilo era mesmo novidade. Sua prática até então era só mesmo a de caçar. Ele dizia: “Até aquela ocasião, eu nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando, por prazer de enfeite, a vida mera deles pássaros (...). Aquilo era para se pegar a espingarda e caçar” (GSV, 108). Diadorim provocou uma mudança nesse olhar. O Manoelzinho-da-crôa era diferente do Macuco, que prezava a vida solitária. Diadorim via no companheirismo daqueles lindos pássaros, a expressão bonita do que podia acontecer entre ele e Riobaldo: “´Riobaldo... Reinaldo` - de repente ele deixou isto em dizer - ´Dão par, os nomes de nós dois`” (GSV, 108).
Na narrativa de Riobaldo é viva a presença da natureza, com todos os seus detalhes e maravilhas: os riachinhos, as veredas com os buritis, os rios pequenos e grandes, como o Urucuia e o São Francisco. No verde dos buritizais, Riobaldo identificava a presença de Diadorim: “Diadorim, oh, ah, meus buritizais levados de verde” (GSV, 428); “Namorei uma palmeira na quadra do entardecer” (GSV, 430). E também a força dos ventos, que se manifesta em momentos precisos e delicados, como na ocasião do pacto: “Redemunho: o senhor sabe – a briga de ventos. Quando um esbarra com outro, e se enrolam, o doido espetáculo” (GSV, 179). [25].
O traço religioso é uma constante em Grande Sertão: Veredas. A peregrinação de Riobaldo pelo sertão pode ser lida como um “roteiro de Deus nas serras dos Gerais” (GSV, 223). Mesmo com a presença sombria do Demo por toda parte, e também no fundo da alma, o que prepondera em Riobaldo é a vitalidade de Deus, das rezas fortes, e do anseio pelo céu, mesmo sabendo que o caminho que leva para essa beleza é demorado (GSV, 23).
Riobaldo sabe muito bem que “Deus é paciência” e que “o contrário é o diabo” (GSV, 20). Mesmo sendo o caminho resvaloso, a paciência é o roteiro mais seguro: “Até as pedras do fundo, uma dá na outra, vão se arredondinhando lisas, que o riachinho rola” (GSV, 20).
Aprumado por mestre Quelemém, Riobaldo vive envolvido e acolhido pela diversidade religiosa. Tinha consciência de que a reza “é que sara da loucura” (GSV, 19), e as rezas o amparavam por todos os lados. Um destaque para a presença vigorosa das Nossas Senhoras Sertanejas e de seu perfume duradouro. É com elas que ele se agarrava. Sabia que o perfume delas exalado irradiava com vitalidade, dando “saldos para uma vida inteira” (GSV, 338). Deus era para Riobaldo um milagre que rompia a escuridão. Sua ação era eficaz, fazendo tudo “na lei do mansinho”: ele “ataca bonito, se divertindo, se economiza” (GSV, 24).
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[1] Walnice Nogueira Galvão. Guimarães Rosa. São Paulo: Publifolha, 2000, p. 9.
[2] Willi Bolle. Grande sertão.br. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2004, p. 400 e 442.
[3] Antonio Candido. Tese e antítese. Ensaios. 2 ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1971, p. 121.
[4] Ibidem, p. 122.
[5] João Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas. 22 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 440 (carta a Fernando Sabino, em 11/12/1956).
[6] Gunter Lorenz. Diálogo com Guimarães Rosa. In: ____. Ficção completa. Volume 1. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009, p. XXXVII e XLI.
[7] A obra Grande Sertão: Veredas, virá sempre siglada com GSV, seguida do número da página da edição de número 22.
[8] Antonio Candido. Tese e antítese, p. 135.
[9] GSV, 338 e 354.
[10] Walnice Nogueira Galvão. As formas do falso. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 1986, p. 130.
[11] Benedito Nunes. Do dorso do tigre. São Paulo: Perspectiva, 1969, p. 143.
[12] Luiz Roncari. O Brasil de Rosa. São Paulo: Unesp/Fapesp, 2004, p. 199s.
[13] Adair de Aguiar Neitzel. Mulheres roseanas. Percursos pelo Grande Sertão. Veredas. Itajaí: Univale Editora, 2004.
[14] Luiz Roncari. O Brasil de Rosa, p. 205.
[15] GSV, 31.
[16] Adair de Aguiar Neitzel. Mulheres roseanas, p. 71.
[17] Ibidem, p. 73.
[18] Benedito Nunes. Do dorso do tigre, p. 144.
[19] Kathrin H. Rosenfield. Os descaminhos do Demo. Tradição e ruptura em Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro/São Paulo: Imago/Edusp, 1993, p. 97.
[20] Adair de Aguiar Neitzel. Mulheres roseanas, p. 103.
[21] Maria Esther Maciel. Animalidades. Zooliteratura e os limites do humano. São Paulo: Instante, 2023, p. 105.
[22] Evando Nascimento. O pensamento vegetal. A literatura e as plantas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2021, p. 16.
[23] João Guimarães Rosa. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001 (65ª impressão), p. 331.
[24] Gunter Lorenz. Diálogo com Guimarães Rosa, p. XXXVI (G.Rosa. Ficção Completa, v. 1).
[25] Sobre esses traços da natureza no GSV ver: Manoel Cavalcanti Proença. Trilhas no Grande Sertão. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1958, p. 34-35, 48, 53-55.