Peregrinos da esperança em tempos de desesperança. Artigo de Francisco de Aquino Júnior

Foto: Vatican Media

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

22 Janeiro 2025

"Há momentos na história mais favoráveis à esperança, marcados por uma atmosfera de esperança: abertura, sonho, busca, ousadia, criatividade, alegria etc. E há momentos na história menos favoráveis e até hostis à esperança, marcados por uma atmosfera de desesperança: depressão, medo, angústia, tristeza, desespero etc. Se a esperança mobiliza, pondo a caminho e abrindo caminho; a desesperança imobiliza, paralisando e sufocando os sonhos e as buscas", escreve Francisco de Aquino Júnior, presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte, no Ceará; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

Eis o artigo.

É muito significativo o tema do ano jubilar convocado pelo Papa Francisco para esse ano: Peregrinos da esperança. Primeiro, pela ousadia de falar de esperança em tempos de desesperança. Segundo, por falar da esperança em termos de caminho, de busca, de peregrinação. A esperança é certamente um dom (obra do Espírito em nós), mas um dom que só se acolhe e só se torna fecundo na doação de si (obra nossa no Espírito). É um dom-tarefa, algo que recebemos para realizar. Por isso mesmo, sempre nos surpreende (como dom), mas sempre nos mobiliza e compromete (como tarefa).

Há momentos na história mais favoráveis à esperança, marcados por uma atmosfera de esperança: abertura, sonho, busca, ousadia, criatividade, alegria etc. E há momentos na história menos favoráveis e até hostis à esperança, marcados por uma atmosfera de desesperança: depressão, medo, angústia, tristeza, desespero etc. Se a esperança mobiliza, pondo a caminho e abrindo caminho; a desesperança imobiliza, paralisando e sufocando os sonhos e as buscas.

Vivemos numa atmosfera de desesperança que é resultado de um conjunto de fatores que provoca sofrimento, desespero e morte. Pensemos, por exemplo, na população em situação de rua – privada de quase tudo na vida; nas famílias que sobrevivem basicamente de programas sociais; nas mulheres violentadas; nos idosos abandonados, violentados e explorados; nas pessoas enfermas que sofrem e morrem em filas e corredores de hospitais; na população encarcerada que vive em situação desumana e não raramente é torturada; nas vítimas do tráfico, das milícias e das facções; nas áreas atingidas por catástrofes/crimes ambientais, especialmente as áreas de risco; no povo negro que sofre com o racismo nas profissões, no salário, nas piadas, na violência policial; na população lgbtqiap+, vítima de preconceito, exclusão e assassinato; nos altos índices de depressão etc. Poderíamos ir longe com essa ladainha de lamentações...

Isso provoca um clima generalizado de insegurança e medo. O filósofo coreano Byung-Chul Han fala de uma “pandemia do medo”, de um “regime do medo”. E o medo difunde uma “atmosfera depressiva” nas pessoas e na sociedade. A dimensão dos problemas acaba criando uma sensação de impotência, como se não houvesse saída possível: “não tem jeito”, “não adianta” etc. Essa sensação de impotência sufoca os sonhos, produz resignação e desmobiliza a criatividade das pessoas e da sociedade: para que perder tempo e gastar energia com o que parece impossível realizar? E acaba criando um ambiente propício para o autoritarismo e diferentes formas de dominação: 1) seja nas relações cotidianas entre as pessoas; 2) seja das milícias, máfias e facções que dominam tantos territórios em nosso país e constituem um verdadeiro Estado paralelo; 3) seja de grupos, partidos e governos de extrema direita que difundem preconceito, intolerância e ódio, que manipulam o sentimento religioso do povo e que atentam até contra as instituições do Estado de Direito.

Num contexto como esse é muito significativo falar de esperança, anunciar esperança, mobilizar esperança. É uma forma de esperançar o mundo. Não com uma esperança ingênua e passiva, mas com uma esperança lúcida e ativa. A esperança não é um otimismo ingênuo, como se no final tudo “vai dar certo”. Tampouco é pura espera, como se em nada dependesse de nós. Nem é fruto de sucessos, como se fosse impossível brotar e frutificar em meio aos fracassos e as tragédias da vida. A esperança tem raízes mais profundas: brota da condição espiritual do ser humano, enquanto um ser que tem que se fazer a si mesmo com as possibilidades disponíveis em cada situação e contexto; brota, em última instância, do Espírito de Deus que age em nós e através de nós faz novas todas as coisas. Por isso mesmo, quando menos se espera e de onde menos se espera, brota a esperança como força e movimento que ergue e põe a caminho, refazendo a vida e reconstruindo a sociedade: brota no meio de guerras e catástrofes socioambientais, nas favelas e periferias, nas ruas e nos lixões, nos leitos e nos presídios, nos corpos violentados, nas aldeias e nos quilombos, nas ocupações e até nos massacres...

Sejamos, pois, “peregrinos da esperança” nesses tempos de desesperança. Esperancemos o mundo com aquela Esperança que não decepciona: “o amor de Deus que foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado” (Rm 5,5).

Leia mais