Ler Rosa Luxemburgo hoje. Artigo de Claudio Magris

Escultura de Rosa Luxemburgo em Berlim | Foto: Wikimedia Commons

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

06 Mai 2021

 

"Ler e reler Rosa Luxemburgo é também uma vacina contra a atenuação da alegria de viver, da paixão, do entusiasmo. O Covid criou em muitos a sensação de que a História substancialmente acabou, que o arranjo atual, cada vez mais difundido e semelhante no mundo se tornou uma realidade global e definitiva, que nada pode se contrapor à ordem dos vencedores nas batalhas do Mercado e que não existe compaixão por todos os caídos, por todos os humilhados e ofendidos naquelas batalhas. No terceiro Natal passado naquela prisão, antecâmara da morte feroz que lhe seria infligida, Rosa Luxemburgo não conhece o desânimo, o medo, a depressão", escreve o escritor italiano Claudio Magris, ex-senador da Itália, ex-professor das universidade de Turim e de Trieste, e prêmio Príncipe de Astúrias de Letras de 2004, em artigo publicado por Corriere della Sera, 01-05-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Com certa idade, quem passou a vida lendo continua lendo, com a mesma paixão, mas também é levado a reler livros amados e a redescobrir, às vezes sob uma luz diferente. Não é apenas a nossa história pessoal que se projeta no espírito com que um livro é relido; também o tempo histórico em que vivemos, a nova realidade que nos rodeia modificam a nossa leitura, realçam certas páginas que se haviam se desbotado ou desbotam outras. Por exemplo, retomei, embora me lembrasse bem, a carta que Rosa Luxemburgo, em dezembro de 1917, escreve, da horrível prisão de Breslau onde está detida, para a esposa de Karl Liebknecht, líder junto com ela do movimento revolucionário Espartaquista alemão, esmagado com sangue naqueles anos em que terminava a Primeira Guerra Mundial, na Alemanha, na violência implacável de uma guerra civil, nos embates entre direita e esquerda. Rosa Luxemburgo morrerá dois anos depois junto com Liebknecht - assassinada com coronhadas pelo Corpo Franco do Exército Alemão, as formações militares-paramilitares da direita radical.

Daquela carta eu me lembrava intensamente, como todos os que a conhecem, da participação indelével na dor de todos os viventes, a força com que narra sobre aqueles búfalos que de sua cela Rosa vê chegando puxando os carros do exército, submetidos a violências brutais infligidas a eles por pura diversão, o prazer de bater e fazê-los sofrer, a infinita e exausta tristeza nos olhos do animal, seu suor manchado de sangue. Como todos os leitores daquelas páginas, fui marcado pela dor em relação a todos os seres vivos; do sofrimento do animal que, como escreveram outros grandes autores, lança uma sombra escura também sobre o Humanismo, sobre a primazia absoluta do ser humano, senhor da Criação, mas também senhor que abate e ama abater.

A leitura mais recente deteve-se sobretudo em outro aspecto da carta, na incrível capacidade de felicidade da autora mesmo em sua condição de angústia. Tudo o que ela está vivenciando e sofrendo e a consciência do que a espera não sufocam a felicidade, grandiosa palavra naquela situação; a alegria de poder ver, mesmo da sua cela, os campos, a luz das diferentes horas, as flores, a escuridão da noite "tão bela e macia como veludo", os sabugueiros, as folhas longas e delgadas, o farfalhar do vento, musical como os Lieder que ela tanto adora. É uma experiência forte ler Rosa Luxemburgo neste tempo de Covid que parece infinito e, além de tantos desastres, criou e cria em muitos um cansaço acidioso, muitas vezes enfraquece as relações e os vínculos, seca a alegria. Alguns escritores declararam que, nos dias de lockdown, aquele morno tempo livre amornava seu desejo de escrever e embotava seu desejo de viver. É claro que houve e há reações opostas e houve e há dificuldades muito maiores, pobreza e miséria que dificultam a sobrevivência básica de muitos e, para algumas categorias de trabalhadores, dificultam muito o esforço diário.

Ler e reler Rosa Luxemburgo é também uma vacina contra a atenuação da alegria de viver, da paixão, do entusiasmo. O Covid criou em muitos a sensação de que a História substancialmente acabou, que o arranjo atual, cada vez mais difundido e semelhante no mundo se tornou uma realidade global e definitiva, que nada pode se contrapor à ordem dos vencedores nas batalhas do Mercado e que não existe compaixão por todos os caídos, por todos os humilhados e ofendidos naquelas batalhas. No terceiro Natal passado naquela prisão, antecâmara da morte feroz que lhe seria infligida, Rosa Luxemburgo não conhece o desânimo, o medo, a depressão. “Caríssima- escreve à mulher de Liebknecht – seja apesar de tudo serena e feliz ... Destemidos e sorridentes, apesar de tudo ... seja corajosa, minha garota ... Tudo vai dar certo, nem sempre devemos temer o pior .. É meu terceiro Natal na prisão, mas não faça disso uma tragédia - meu coração pulsa com uma alegria interior inconcebível e desconhecida, como se eu estivesse caminhando em um campo florido ... e, no escuro, sorrio para a vida. Feliz Natal".

 

Leia mais