Sudão do Sul. Uma intimidação e um aviso: o atentado contra o bispo Carlassare

Padre Christian Carlassare se recupera no hospital em Nairobi. (Foto: Vatican Media)

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28 Abril 2021

 

Novos detalhes esclarecem a dinâmica do atentado a monsenhor Christian Carlassare e seu estado de saúde. Enquanto surgem os primeiros rumores sobre o motivo.

A reportagem é de Filippo Ivardi Ganapini, publicada por Nigrizia, 26-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Com o passar das horas se esclarece a dinâmica do atentado ao padre Christian Carlassare, bispo de Rumbek. Contatada por telefone por Nigrizia, Rebecca Tosi, voluntária do CUAMM - encarregada do estoque do hospital de Rumbek e originária de Verona - que dormia no complexo a poucos metros do quarto do bispo, relata: "Esta manhã, trinta minutos depois da meia-noite, ouvimos alguns tiros, saltamos da cama e percebemos que eram endereçados ao padre Christian”.

Padre Christian Carlassare recupera-se em hospital. (Foto: Nigrizia | Reprodução)

Nesse ínterim, enquanto as autoridades locais silenciam, acaba de sair uma nota da Conferência Episcopal do Sudão do Sul que conta a história em detalhes e convida a população a rezar pela rápida recuperação do novo bispo. Nas entrelinhas, surge um detalhe: “Um padre que tem um quarto ao lado do bispo Christian saiu e perguntou aos homens armados o que queriam, mas recebeu tiros de advertência para se afastar. Os dois pediram ao padre Christian para sair e, diante de sua recusa, atiraram nele nas duas pernas e fugiram”.

Aquele sacerdote é o padre Andrea Osman, da diocese de Rumbek, que conta à rádio católica Network Morning News Service: “Ouvi bispo gritar e, ao ouvir os tiros, tentei bater à minha porta por dentro, para assustar as duas pessoas armadas, mas elas não pareciam nem um pouco intimidadas. Pelo contrário, foram para o quarto do bispo, bateram em sua porta e começaram a atirar até a derrubarem. Depois eles atiraram em suas pernas e fugiram. Acho que eles dispararam três balas, duas em uma perna e uma na outra. Quando eles me viram, me falaram para sair. Um deles atirou em mim duas balas, que acabaram na cadeira atrás de mim”.'

No que diz respeito à saúde do padre Christian, Enzo Pisani, um médico do CUAMM, tranquilizou-nos, dizendo ao Nigrizia: “Dois tiros de fuzil atravessaram suas panturrilhas. Não causaram fraturas, mas um sangramento significativo. O mais importante era, portanto, encontrar imediatamente sangue para ele; o que certamente não era fácil, porque ele tem um tipo de sangue H negativo. No entanto, a providência ajudou-nos e um voluntário CUAMM, com grupo O negativo, doou seu sangue. Nós tamponamos e enfaixamos o ferimento e o padre Christian se recuperou bem da anestesia.

Entramos em contato imediatamente com o CICV, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha que lida com transferências de feridos de guerra e enviaram um avião para buscá-lo. Agora ele está voando para Juba, onde há um hospital equipado para ferimentos por arma de fogo”.

Padre Christian Carlassare celebrando missa. (Foto: Nigrizia | Reprodução)

Questionada se nos últimos dias percebeu alguma coisa entre as pessoas em oposição ao padre Christian, Rebecca responde: “Nada sugeria um atentado desse tipo. Ontem depois da missa almoçamos com o bispo, que estava muito tranquilo, e com os voluntários do CUAMM.

Padre Christian Carlassare em almoço, antes do atentado. (Foto: Nigrizia | Reprodução)

O padre Christian está aqui sozinho há duas semanas, mas as pessoas o procuram, o cumprimentam, fazem festa. Ontem na missa havia muita gente entusiasmada com o novo pastor.

Mas alguns rumores circulam na cidade e o motivo do ataque, hipótese ainda a ser verificada, poderia ser justamente a recusa de alguns grupos dinka de um novo bispo, vindo de longe, em substituição ao coordenador diocesano que era autóctone que havia dirigido a diocese de Rumbek por nove anos depois da morte, em julho de 2011, de Monsenhor Cesare Mazzolari, missionário comboniano e verdadeiro "padre do povo".

Mapa do Sudão do Sul, com destaque em Rumbek. (Foto: Britannica)

Alguns fiéis Dinka esperavam, portanto, que a passagem do bastão fosse para alguém de sua etnia para herdar também o conjunto de estruturas e investimentos significativos em uma Diocese onde a presença de pessoal apostólico vindo de fora ainda é muito evidente, em comparação com uma pequena dezena de padres diocesanos.

“Este é um claro aviso e de uma intimidação para o padre Christian - declara uma fonte segura à revista Nigrizia que conhece bem a dinâmica local e que protegemos com o anonimato - por trás desse atentado há uma mensagem e um mandante, isso é muito claro! A mensagem clara que quiseram lhe transmitir é que alguém não o quer aqui e que ele não deve ser consagrado bispo no próximo dia 23 de maio, dia de Pentecostes. Um padre espiritano, entre os possíveis candidatos ao episcopado daquela diocese, recebeu anteriormente, e justamente por isso, ameaças de morte. Os Dinka são muito vingativos e a violência costuma ser um estilo de vida para alguns deles. Lamento muito pelo Padre Christian, mas esta é a realidade com a qual ele terá de lidar”.

 

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