Império dos acionistas mina os fundamentos da sociedade livre

Moedas. | Foto: Freepik

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

04 Setembro 2019

"Os controladores da riqueza em sua forma mais líquida rejeitam a possibilidade de vertê-la em criação de riqueza nova", escreve Luiz Gonzaga Belluzzo, economista e professor, em artigo publicado por CartaCapital, 03-09-2019. 

Eis o artigo.

Em meio às turbulências do capitalismo global, a Boston Review ofereceu aos leitores recordações de 1962. Conta a revista que, nesse ano da graça, Milton Friedman publicou o livro Capitalism and Freedom. Nele, o economista libertário sustentou ardorosamente a excelência dos mercados livres e disparou contra a intervenção governamental.

O livro também foi crucial para a defesa da primazia dos acionistas: as corporações não devem ter outro propósito, senão maximizar os lucros para seus acionistas. “Poucas tendências”, Friedman escreveu, “poderiam minar tão completamente os fundamentos de nossa sociedade livre quanto a aceitação da responsabilidade social pelos gestores corporativos, cujas obrigações devem se restringir a ganhar dinheiro para seus acionistas.”

A revista The Economist, um dos santuários do liberalismo econômico, anuncia na capa de sua edição de 24 de agosto: O Big Business está começando a aceitar responsabilidades sociais mais amplas. Subtítulo: Perseguir o valor do acionista já não é suficiente, parece.

Na visão dos mercadistas radicais, diz a revista, a perseguição sistemática do valor dos acionistas iria, por si só, entregar ao público bens e serviços de qualidade, otimizar o emprego e criar maior riqueza – riqueza destinada à eficiente alocação de recursos. Uma visão de mundo que, em sua simplicidade reconfortante, aliviava o lombo das corporações das responsabilidades sociais.

Não mais, argumentou Larry Fink na American Business Roundtable. Presidente do BlackRock, um gigante da gestão de ativos, Fink tem apoiado a ideia de que as corporações devem perseguir um propósito social, além dos lucros.

O despertar social dos gestores da finança deita raízes nas metamorfoses ocorridas nas formas de acumulação da riqueza espargidas pelo mundo capitalista na posteridade dos anos 80 do século XX. Deixada a seus instintos pelas políticas pró-mercado, a Economia Monetária da Produção assumiu a forma de Economia da Produção Monetária, ao mesmo tempo verdadeira e ilusória. Verdadeira para os que se entregam à acumulação de Dinheiro e ilusória para os fâmulos desesperados que precisam da moeda para consumir e sobreviver.

“Somente como exceção pode o trabalhador, com força de vontade, força física e perseverança, avareza etc., transformar sua moeda em Dinheiro, exceção de sua classe e das condições gerais de sua existência” (Karl Marx, Grundrisse). Se, por suas condições gerais de existência, o conjunto dos trabalhadores não pode transformar sua moeda em Dinheiro, sem o Dinheiro empenhado em pagar seus salários e rendimentos, os trabalhadores não conseguem moeda para adquirir os meios de vida.

A Economia da Produção Monetária ameaça os gestores do Dinheiro. A saúde dos bancos e das demais instituições financeiras periclita diante da perenidade da valorização dos estoques de ativos e da queda correspondente dos rendimentos do capital fictício. A experiência da crise de 2007/2008 mostra que as injeções de liquidez destinadas a impedir o colapso financeiro e a paralisia dos mercados interbancários contiveram a derrocada dos preços dos ativos, mas não conseguiram reanimar a economia. Nas horas vagas, e nas outras também, as empresas entregaram-se à bulha da recompra das próprias ações e mandaram bala na distribuição de dividendos com a grana abastecida pelos bancos centrais.

As bolsas de valores e os rendimentos nanicos dos bônus do Tesouro fumegam os vapores que sopram às alturas os preços dos ativos. Não são desprezíveis os riscos embutidos no comportamento dos mercados financeiros pós-crise, empurrados para outra bolha nas bolsas e nos preços elevados (e rendimentos baixos) dos bônus privados e públicos.

Após o Quantitative Easing, a liquidez assegurada pelos bancos centrais permanece represada na posse dos controladores da riqueza velha, o rastro financeiro da riqueza já acumulada. Os controladores da riqueza em sua forma mais líquida rejeitam a possibilidade de vertê-la em criação de riqueza nova, com medo de perdê-la nas armadilhas da capacidade sobrante e do desemprego disfarçado nas ocupações precárias “premiadas” com rendimentos cadentes.

Em artigo publicado na The Brookings Institution, em parceria com Łukasz Rachel, Lawrence Summers manifesta suas perplexidades com a estagnação secular, anomalia denunciada pelas taxas de juro reais muito baixas: “Acreditamos que as tendências às baixas taxas de juro são mais bem compreendidas em termos de mudanças nas relações entre poupança e investimento ou, de modo equivalente, em termos das alterações nas formas de posse da riqueza almejada pelos consumidores e no desejo de acumulação de capital pelos produtores”. A faina da acumulação de Dinheiro bloqueia a circulação da Moeda.

Leia mais