O sentido "econômico" do Jubileu bíblico. Artigo de Fabrice Hadjadj

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11 Mai 2017

“Quem, hoje, ainda conserva um sentido econômico do Jubileu? Os economistas não sabem que a economia tem uma relação com tudo isso. E os cristãos evaporam em um jubileu abstrato.”

A opinião é do filósofo francês Fabrice Hadjadj, diretor do Instituto Philanthropos (Associação Francesa de Estudos Antropológicos), em artigo publicado por Avvenire, 07-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A grande instituição econômica de Israel é o Jubileu, sábado dos sábados e perdão dos perdões, já que ele acontece uma vez a cada sete vezes sete anos, no Yom Kippur. Na época, fazia-se tocar uma trombeta feita com o chifre de um carneiro, jobel em hebraico (onde a “tragédia” é o “canto do bode” sacrificado no culto dionisíaco, o jubileu é a “voz do carneiro”, que toma o lugar de Isaac no sacrifício de Abraão).

Lendo o Levítico, o católico romântico conserva apenas o versículo 18 do capítulo 19, aquele que contém a frase “amarás o próximo como a ti mesmo”. O amor sempre, mas que, tão isolado, separado das raízes e das ramificações dos outros versículos, flutua na ausência de gravidade. Jubilar se reduz a uma emoção individual, a um orgasmo permitido também às virgens, sem nenhuma relação com a economia – que ideia bizarra!

Porém, basta ler o texto que conclui o livro dos Levitas para se dar conta de que a trombeta soaria a alegria em vão se não rompesse as correntes da escravidão e não impedisse especialmente aos filhos de Israel de se tornarem novos Faraós: “Farás soar a trombeta no dia dez do sétimo mês. No dia do Grande Perdão fareis soar a trombeta por todo o país. Declarareis santo o quinquagésimo ano e proclamareis a libertação para todos os habitantes do país. Será para vós um jubileu. Cada um de vós poderá retornar à sua propriedade e voltar para sua família. O quinquagésimo ano será para vós um ano de jubileu: não semeareis, nem colhereis o que a terra produzir espontaneamente, nem fareis a colheita da videira não podada. Porque é o ano de jubileu, sagrado para vós. Mas podereis comer o que produzirem os campos não cultivados. Neste ano de jubileu cada um poderá retornar à sua propriedade. Se venderes a teu concidadão ou dele comprares alguma terra,que ninguém explore aquele que é seu irmão” (Lv 25: 9-14; trad. Bíblia da CNBB).

Do que fala exatamente essa passagem? Durante 49 anos, foram levadas a termos inúmeras trocas, dependendo dos casos do tempo e das escolhas das pessoas. Um fez uma má colheita, enquanto o outro colheu em abundância. Um desperdiçou a sua herança, enquanto o outro a poupou ou a fez render. O rico teve que extinguir a dívida do pobre, e este, não podendo honrar os vencimentos do seu crédito, foi contratado como diarista. “Que ele viva com você como assalariado ou hóspede. Trabalhará com você até o ano do jubileu, e então ele e seus filhos ficarão livres para voltar à própria família e recuperar a propriedade paterna” (Lv 25, 40-41; trad. Bíblia da CNBB).

No 50º ano, os contadores são colocados de volta no zero, cada família volta para a sua propriedade, reencontra o seu oikos. Essa perspectiva coloca um limite a todas as transações efetuadas nos anos anteriores. O empresário sabe que as suas aquisições em excesso, mesmo que feitas de modo legítimo e merecido, como recompensa de um afiado senso de negócios, não poderão superar uma determinada duração, cerca de uma geração e meia, que corresponde, grosso modo, à sua esperança de vida e delimita, portanto, o excedente ao seu mérito individual: “Cada um em Israel retornará à sua herança e à sua família, se tiver sido alienado pessoalmente. Essa lei abrange o tempo, porque não só o machado cai a cada 50 anos, mas também se calculam as vendas a partir do último Jubileu, e isso significa que a sombra (aos olhos do avarento) ou, melhor, a luz do Jubileu, dada viva e vibrante, dura pelos 49 anos por vir”.

Em “A contra-epopeia do deserto. Ensaio sobre o Êxodo, o Levítico e o Deuteronômio”, o excelente exegeta Jacques Cazeaux apresenta essa reintegração jubilar como uma verdadeira “revolução social e política”, onde a palavra “revolução”, por uma vez, assume plenamente o seu duplo sentido de acontecimento e de retorno: “A supressão dos latifúndios ou, mais simplesmente, a impossibilidade de fazer perdurar as grandes propriedades sabota na raiz as veleidades de um clã ou de uma tribo, e, com maior razão, de um rei”.

Essa supressão, no entanto, é benéfica para o próprio grande proprietário: “O que se pode fazer com um milhão de acres?, pergunta-se um personagem de ‘Furor’. Anda-se por aí em um carro blindado. Torna-se um tipo gordo e mole, com pequenos olhos maus e uma boca semelhante ao buraco de um ânus. E se tem medo de morrer [...] Se alguém precisa de um milhão de acres para se sentir rico, deve ser porque se sente terrivelmente pobre dentro...”.

Uma propriedade grande demais, que supera a escala do nosso cuidado atento, nós a possuímos menos do que ela nos possui: a sua realidade dá lugar aos inúmeros cálculos que invadem a nossa cabeça. O Jubileu nos alivia desse peso. Delimita um campo à nossa medida, ao da nossa família, onde podemos agir realmente como “senhores”.

Dessa lei, insuportável para a hegemonia do mercado liberal, é preciso fornecer uma explicação e notar uma exceção. A explicação é que toda aquisição se fundamenta em um dom original, seja da coisa adquirida, seja do próprio comprador, tendo sido uma e outro criados pelo Eterno: ““As terras não se venderão a título definitivo, porque a terra é minha, e vós sois forasteiros e meus inquilinos” (Lv 25, 23; trad. Bíblia da CNBB).

Paradoxalmente, só está verdadeiramente na sua casa própria aquele que reconhece que é somente um hóspede na terra que Deus lhe dá. Nesse reconhecimento, ele acolhe a sua herança como uma providência e se recorda de que, sem a mão forte e o braço estendido do Senhor, estaria ainda no país da escravidão, labutando pelas cidades-depósito de Pitom e Ramsés.

Assim, sabendo que deve a sua situação a uma graça, a pessoa não busca se arrogar daquilo que pertence à outra família, e cuja acumulação seria também a sua própria alienação. Ao contrário, tendo recebido sem mérito, restitui sem retorno, liberta-se do excedente, deixa aos catadores o restolho da sua colheita e as bordas do seu campo: “Quando fizerdes a colheita em vossa terra, não ceifarás até o limite extremo do campo, nem ajuntarás as espigas que restam para catar. Deixarás isto para o pobre e o estrangeiro. Eu sou o Senhor vosso Deus” (Lv 23, 22; trad. Bíblia da CNBB).

A exceção diz respeito às cidades. As casas urbanas – pelo menos aquelas que originalmente não pertencem aos Levitas – escapam da lei do Jubileu. O primeiro proprietário dispõe de um direito de resgate, mas, se não tiver os meios, não recupera automaticamente o seu bem. A cidade é o lugar próprio do comércio, enquanto o campo é o da agricultura.

Ora, trata-se de garantir, acima de tudo, não o apartamento, nem o edifício, nem o World Trade Center, que têm o seu valor secundário e relativo, mas sim o oikos, a casa com o seu pedaço de terra que permite assegurar a subsistência da família. Mas quem, hoje, ainda conserva esse sentido econômico do Jubileu? Os economistas não sabem que a economia tem uma relação com tudo isso. E os cristãos evaporam em um jubileu abstrato.

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