Inspirado na filosofia africana de Mogobe Ramose e pela história do Quilombo Mesquita, em Cidade Ocidental, Goiás, pesquisador defende que a pluridiversidade das comunidades quilombolas revela uma forma de existência fundada na ancestralidade, na reciprocidade e na multiplicidade das cosmopercepções.
Os quilombos costumam ser compreendidos a partir da resistência histórica à escravidão e da luta permanente pela garantia de seus territórios. No entanto, essa leitura, embora fundamental, revela apenas parte da complexidade dessas comunidades. Na entrevista a seguir, Manoel Barbosa Neres, docente na Universidade de Brasília (UnB), propõe um deslocamento decisivo: compreender a experiência quilombola a partir da pluridiversidade, ou, em seus próprios termos, da pluriversalidade do ser. Inspirada pelo pensamento de Mogobe Ramose, essa perspectiva rompe com visões homogêneas da existência e afirma uma realidade constituída por múltiplas formas de vida, temporalidades, saberes e cosmopercepções que coexistem sem se reduzirem umas às outras.
Na entrevista concedida por Neres ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail, essa concepção atravessa temas como ancestralidade, territorialidade, educação, religiosidade, memória e organização política, revelando que a identidade quilombola não se sustenta apenas na reivindicação de direitos, mas em uma forma singular de habitar o mundo. O território deixa de ser compreendido como mera propriedade para constituir-se em espaço de encontro entre gerações, de continuidade da vida e de relações de reciprocidade entre seres humanos, natureza e ancestralidade. Nessa chave, as comunidades quilombolas oferecem uma crítica às concepções universalizantes da modernidade e apresentam um horizonte ético e político em que justiça social, cuidado coletivo e pertencimento emergem da pluralidade das existências, apontando para outras possibilidades de organização da vida comum. O protagonismo feminino nas lideranças é rememorado através da história do Quilombo Mesquita, localizado em Cidade Ocidental desde o século XVIII, no entorno do Distrito Federal, que originou uma das obras de Neres, que também recupera a construção de Brasília por centenas de quilombolas.
Manoel Barbosa Neres é graduado em Filosofia e Teologia pelo Seminário Nossa Senhora de Fátima (SMAB), em Brasília. É mestre em Ética Teológica pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo, mestre em Educação pela Universidade Católica de Brasília (UCB) e doutor em Filosofia pela Universidade de Brasília (UnB) com a tese A pluriversalidade do ser a partir do pensamento de Mogobe Ramose e sua ressonância em uma comunidade quilombola. É autor de Quilombo Mesquita: história, cultura e resistência (Gráfica Conquista, 2016).
Manoel Barbosa Neres | Foto: Arquivo Pessoa
IHU – A partir de sua obra Quilombo Mesquita: história, cultura e resistência [1], como as comunidades quilombolas articulam memória ancestral e resistência política na defesa de seus territórios?
Manoel Barbosa Neres – Os/as quilombolas, à medida que atualizam a sua consciência histórico-sociopolítica, percebem que sua luta atual é deverasmente semelhante à de seus ancestrais. Dadas as devidas diferenças, os desafios relacionados ao território, à identidade, à cultura, às políticas públicas e à igualdade de direitos não diferenciam muito dos enfrentados pelos antepassados. Sendo assim, a consciência do pertencimento não vem só pelas heranças territoriais, culturais ou genéticas, mas também pelo espírito de luta.
IHU – De que modo a territorialidade quilombola ultrapassa a dimensão jurídica da terra e envolve experiências simbólicas, espirituais e comunitárias?
Manoel Barbosa Neres – A compreensão quilombola da vida é expressivamente plural, sendo que as relações são construídas nos múltiplos contextos de espaço, tempo, dimensões, gerações, religiões. A terra não é apenas um conjunto de elementos químicos, mas também o espaço de encontro ancestral, do passado, presente e futuro; o encontro do ser humano com a Mãe Terra, de onde provém o sustento e a qualidade de vida; a concretização territorial no qual se realizam os ciclos da natureza, possibilitando a existência de um calendário natural de preparo, plantio, colheita e celebrações (gratidão à divindade pela fartura, valorização do descanso e entretenimento, da comensalidade, da amizade e da parentalidade). O território é também lugar e dimensão de encontro e permanência intergeracional, e com isso a valorização dos lugares "sagrados", como os cemitérios.
IHU – Como a identidade quilombola é construída e transmitida entre as novas gerações diante dos processos contemporâneos de urbanização e globalização cultural?
Manoel Barbosa Neres – A identidade quilombola no Quilombo Mesquita, por exemplo, constrói-se e consolida-se tanto por meio da educação tradicional e popular, como também por meio das histórias contadas, pelas manifestações culturais e religiosas, pelo compartilhamento das receitas culinárias, técnicas de produção, também por áudios e escritos e, até mesmo, pelas discussões e ações políticas.
IHU – Em que medida o reconhecimento estatal dos territórios quilombolas ainda encontra obstáculos estruturais ligados ao racismo histórico brasileiro?
Manoel Barbosa Neres – Considerando que o racismo consiste em uma pretensa prerrogativa humana na qual um segmento étnico-racial julga-se superior a um outro, esse malefício social impacta diretamente as ações (omissões) dos entes de Estado nos três níveis da Federação. As ações de certificação, desintrusão e titulação ainda dependem muito da força de vontade do governo "da vez". Os grupos políticos, quase sempre ligados a grupos econômicos, muitas vezes dificultam a realização dos processos por morosidade ou até por perseguições explícitas a lideranças, autoridades e instituições.
IHU – Qual é o papel das mulheres quilombolas na preservação da memória coletiva, das práticas culturais e das formas comunitárias de organização?
Manoel Barbosa Neres – A maioria das lideranças quilombolas é constituída por mulheres. Mais uma, no caso do Quilombo Mesquita, a oralidade credita a fundação da comunidade a três senhoras, das quais a maioria dos/as quilombolas é descendente. Entre essas poderiam estar Maria Pereira Dutra, Maria da Abadia e Martinha Pereira Braga ou ainda, Maria do Nascimento. Além dessas, outras mulheres tiveram papéis importantes na comunidade, como parteiras, por exemplo. A centenária Dona Joana, ainda viva, não apenas auxiliou os partos de dezenas de pessoas, como também realizou os partos de seus próprios filhos e filhas.
Também na atualidade, as mulheres ocupam lugares de destaque na liderança do Quilombo, principalmente na liderança da Associação, na defesa do Território, na luta política, realização de projetos e outros mais. Este registro histórico não é muito diferente em outros quilombos, inclusive no famoso Quilombo dos Palmares, onde se destacam as presenças de Dandara e Acotirene.
Merece destaque também a presença feminina na Coordenação Nacional de Comunidades Quilombolas (Conaq), constituindo-se extensa maioria, onde faz parte a pesquisadora, professora, militante, doutora Givânia Maria da Silva. Ela tem se destacado, entre outras coisas, na pesquisa sobre a histórica participação feminina na liderança dos quilombos.
IHU – Como educação, religiosidade e tradição oral contribuem para a manutenção da autonomia cultural das comunidades quilombolas?
Manoel Barbosa Neres – Em geral esses três elementos são articulados conjuntamente. A educação tradicional consiste em um ponto de atenção e cobrança das lideranças e demais membros das comunidades. Mas atenção semelhante é dada à educação popular, realizada por meio das histórias contadas, das práticas compartilhadas das técnicas de produção, da arte e cultura, da culinária, da medicina popular e das diversas manifestações religiosas.
Em forma geral, as lideranças quilombolas foram proativas no tocante à questão educacional. Justifica isso o fato de demandarem sempre as autoridades públicas solicitando contratação de docentes, construção de escolas e até disponibilizando suas residências para atividades educativas. A preocupação com a formação docente foi também uma das principais preocupações, o que acabou gerando resultados importantes na cultura comunitária. Ilustra bem isso o caso da família Assis Pereira, da qual, das quatro filhas mulheres, três são professoras e uma outra, administradora.
Para além disso, as atividades culturais e as atividades religiosas são espaços de transmissão de conhecimentos (educação popular), ilustrando bem isso a prática das histórias contadas, do ensino-aprendizagem dos cantos e das danças, da transmissão dos conhecimentos culinários (comidas de folia), das trocas de conhecimentos da agricultura familiar (métodos de poda do marmela, controle de pragas, processamento e guarda de sementes e outros mais).
Essas práticas educativas, culturais e religiosas contribuem para a transmissão da história comunitária, da consolidação identitária, fortalece o comprometimento com a defesa territorial, chancela as lideranças e faz surgir maneiras próprias de organização e governança. Além disso, incide na obtenção de certa autonomia e empoderamento comunitário.
IHU – Em que consiste o conceito de "pluriversalidade do ser" a partir do pensamento de Mogobe Ramose e quais suas ressonâncias em uma comunidade quilombola?
Manoel Barbosa Neres – Pluriversalidade do ser, a partir do pensamento de Mogobe Ramose [2], significa a diversa articulação, conexão que existe entre os seres. Pluriversalidade representa a maneira plural, na qual as coisas são constituídas, sendo que todos os seres existentes são constantemente coparticipantes, sofrem e oferecem influências ao mesmo tempo e todo tempo (são passivos, ativos, criativos e reativos). Esta eterna conexão é o fundamento da própria existência (compreendendo surgimento, conservação e perpetuação) e, daí vem o termo ubuntu. As ressonâncias em uma comunidade quilombola relacionam-se com ancestralidade, territorialidade e (a)temporalidade.
IHU – Em um contexto de disputas identitárias e crises democráticas, o que as experiências quilombolas podem ensinar sobre comunidade, pertencimento e justiça social no Brasil contemporâneo?
Manoel Barbosa Neres – Apesar de não serem de um planeta diferente das demais, as comunidades quilombolas inspiram um modelo de organização social caracterizado pela valorização da pluriversalidade (articulação das múltiplas compreensões da vida ou cosmopercepções). "Pluriversalidade" tem acentuação semântica diferente de "universalidade". Enquanto o segundo termo constrói o conceito a partir do "uno" e do "verso", o primeiro termo já parte da consideração múltipla da realidade. Por isso, a compreensão da existência não se limita à imposição de um conceito local, característico de uma potência política internacional.
A pluriversalidade do ser dialoga com as múltiplas faces ou cosmopercepções dos mundos, interage com as contradições, busca as aproximações em vista do equilíbrio cósmico. Assim sendo, as formas de ser das comunidades quilombolas (elas também são diversas) expressam profundo equilíbrio nas relações ancestrais (intergeracionais); nas relações cosmológicas (os seres devem uns aos outros a sua existência, permanência e qualidade de vida); na justiça social (as formas de produção são compartilhadas por meio da educação tradicional e popular); e assim também nas dimensões territoriais e relação com a terra (não somos nós que possuímos a terra, mas ela que nos gera, possui, acolhe, nutre e desintegra).
IHU – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?
Manoel Barbosa Neres – Ultimamente discutimos esta temática em contexto trilógico (trilogia): ubuntu, quilombismo e bem-viver. São cosmopercepções de origens diferentes, mas que são profundamente aproximadas em contexto de significados. Tendo este tripé por referência, estamos discutindo as perspectivas de um socioestado societista.
[1] Quilombo Mesquita: o Quilombo Mesquita, localizado no município de Cidade Ocidental (GO), no Entorno do Distrito Federal, é uma das comunidades quilombolas mais antigas da região Centro-Oeste do Brasil. Sua origem remonta ao século XVIII, durante o ciclo da mineração em Goiás, quando africanos escravizados e seus descendentes estabeleceram formas de ocupação e resistência no território. A tradição oral da comunidade, posteriormente corroborada por estudos históricos, identifica a consolidação do povoado a partir da permanência de três mulheres negras libertas, Leonor, Damiana e Sebastiana, que receberam terras de José Pereira de Mesquita, das quais descendem grande parte das famílias atuais. Ao longo de mais de dois séculos, a comunidade preservou práticas agrícolas, religiosas e culturais próprias, destacando-se o cultivo do marmelo e a produção artesanal de marmelada, elementos constitutivos de sua identidade coletiva. Reconhecida oficialmente como comunidade remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares e atualmente em processo de regularização fundiária pelo Incra, Mesquita também desempenhou papel importante no abastecimento alimentar durante a construção de Brasília, fornecendo produtos agrícolas aos trabalhadores da nova capital.
[2] Mogobe Bernard Ramose (África do Sul, 1947): filósofo sul-africano, considerado um dos principais expoentes contemporâneos da filosofia africana e um dos mais importantes formuladores da filosofia ubuntu. Exilado durante o regime do apartheid, obteve os títulos de mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Londres e de doutor em Filosofia pela Université Catholique de Louvain, na Bélgica. Lecionou e desenvolveu pesquisas em instituições como a University of South Africa (UNISA), a Universidade do Zimbábue, a Universidade de Venda, a Tilburg University (Países Baixos) e a Addis Abeba University (Etiópia), dedicando-se sobretudo à filosofia africana, filosofia do direito, ética, filosofia política e relações internacionais. Sua obra procura demonstrar que o ubuntu constitui uma tradição filosófica própria, articulando ontologia, epistemologia e ética a partir da primazia da comunidade, da interdependência entre os seres e da crítica à colonialidade do saber. Entre suas publicações mais influentes destacam-se: African Philosophy through Ubuntu (1999), considerada sua obra fundamental; o capítulo "The Philosophy of Ubuntu and Ubuntu as a Philosophy" (2003); o artigo "I Doubt, Therefore African Philosophy Exists" (2003); o ensaio "Ecology through Ubuntu" (2009); e "Transcending Cosmopolitanism" (2012), nos quais desenvolve uma crítica ao universalismo eurocêntrico e afirma a filosofia africana como interlocutora indispensável do pensamento contemporâneo.