Interesses particulares descolados de apreciação profunda e respeitosa transformaram a cidade em um canteiro de obras que muitas vezes desconsideram o impacto ambiental e social, priorizando apenas o luxo e o lucro. História da cidade está se perdendo
O boom imobiliário vivenciado pela cidade de Torres, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, onde há cerca de 70 novos prédios em construção, é um fenômeno que antecede o contexto da pandemia de Covid-19 e da enchente de 2024. A qualidade de vida buscada na chamada “mais bela praia do RS” corre o risco de se perder justamente pelo “ataque da construção civil sobre Torres”, bem como em todo o Litoral Norte, com aumento populacional que gera problemas de saneamento como “esgoto fluindo a céu aberto em diversos pontos da cidade, mesmo nas praias; ausência de coleta e destinação adequada do lixo urbano; adensamento desconfortável na orla e na circulação viária”, além de uma marginalização visível, adverte a ambientalista Lara Lutzenberger em entrevista concedida por WhatsApp ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Segundo ela, os parques naturais da Guarita e Itapeva “carecem de um olhar e cuidados generosos para o seu melhor manejo e fruição”, destacando que há problemas como o descuido com praças como a Pinheiro Machado, agressões à arborização e o abandono do antigo prédio da Prefeitura Municipal. Alterar o plano diretor municipal está sendo cogitado, cuja “motivação que se manifesta é a de soterrar Torres em prédios vultosos e luxuosos para o enriquecimento rápido de construtoras e imobiliárias conchavadas com o poder público”.
Recentemente, uma ação da Justiça acatou o pedido do Ministério Público Estadual e determinou a suspensão das licenças e alvarás que viabilizariam a construção de um empreendimento e outros de porte semelhante previstos, e em parte até já construídos, nas zonas 24 e 25, que são os dois bairros atrás do Parque da Guarita. Essas novas obras, cada vez mais altas, volumosas e densas se caracterizam por um luxo ostensivo com afã de lucro ilimitado, sem preocupação com o impacto ambiental e social. “Negócios e lucros são bem-vindos, desde que se orientem pelo bem comum, que honrem o passado sobre o qual se estruturam e que efetivamente tragam benefícios coletivos”, pontua a ambientalista. Para ela, ainda é “tempo de reorientar o destino de Torres honrando a sua história, beleza paisagística, riqueza cultural e fazendo dela um exemplo de cidade brasileira onde a qualidade de vida é o vetor principal de desenvolvimento”.
Lara Lutzenberger, ambientalista, denuncia conchavos de imobiliárias e poder público torrense (Foto: Arquivo Pessoal)
Lara Lutzenberger é presidente desde 2002 da ONG Fundação Gaia – Legado Lutzenberger, sediada no Rincão Gaia em área rural de Rio Pardo/RS. Filha do ambientalista gaúcho José Lutzenberger, falecido em maio de 2002, Lara dá continuidade à causa em muitas frentes, como no manejo restaurativo ecológico do Rincão Gaia e em atuações específicas como a ligada à proteção ambiental no Litoral Norte do RS. Licenciada em Biologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, de novembro de 1989 a fevereiro de 1990 realizou estágio na entidade ambientalista Bund für Umwelt und Naturschutz Deutschland e.V, em Radolfzell, na Alemanha, no setor de projetos em florestas tropicais.
IHU – A prefeitura de Torres cogita alterar o plano diretor municipal. Quais as motivações para essa mudança e quais seus possíveis impactos e desdobramentos?
Lara Lutzenberger – O plano diretor regulamenta toda a ocupação espacial territorial, seja habitacional, seja comercial, industrial ou pública, com todas as implicações que isso traz consigo na mobilidade e no acesso aos bens e serviços, no saneamento e no conforto térmico da cidade. Já faz algumas décadas, mas especialmente nas últimas gestões de Torres, que é gritante o foco exacerbado na promoção da construção civil de prédios cada vez mais luxuosos e numerosos, mais largos e mais altos, ou seja, em maior número e maior tamanho.
A motivação para rever o plano diretor deveria ser a de qualificá-lo, levando em conta o compromisso que deveria haver por parte da gestão de aprimorar a cidade. Isso implicaria em preservar a sua identidade e vocação praiana; seu modo de vida descomplicado, confortável e arejado; seu contexto ambiental destacado pelos morros, pelas praias recortadas, pelos parques da Guarita e de Itapeva, pela Lagoa do Violão e pelo Rio Mampituba com suas margens naturais e comunidades pesqueiras; suas construções históricas e também por valorizar e manter apreciável de cima de seus morros a inserção da cidade no contexto paisagístico amplo que se estende magnificamente do mar até a Serra Geral, do nascer ao pôr do sol.
Mas a motivação que se manifesta é a de soterrar Torres em prédios vultosos e luxuosos para o enriquecimento rápido de construtoras e imobiliárias conchavadas com o poder público. A cidade agoniza sob um adensamento impressionante, que desconsidera descaradamente os aspectos elencados acima. Parecem acreditar que o luxo pelo luxo supera todo o resto e pode até substituir o que fez Torres ser uma cidade atraente em primeira mão. Desconsideram que, ao contrário, se a cidade perde em série os seus encantos originais, restam os prédios como triste testemunho de um processo destrutivo.
IHU – Dois grandes hotéis da cidade foram vendidos e serão demolidos em breve. O que se sabe sobre as construções que os substituirão?
Lara Lutzenberger – Que eu tenha conhecimento, há um hotel, o Guarita Park, que fica nos fundos do Parque da Guarita – José Lutzenberger, que arrisca ser encerrado e demolido para dar lugar a duas torres residenciais de 14 andares cada. Nesse momento há uma ação da Justiça, acatando pedido do Ministério Público Estadual e determinando a suspensão das licenças e alvarás que viabilizariam esse empreendimento e outros de porte semelhante previstos, e em parte até já construídos, nas zonas 24 e 25, que são os dois bairros atrás da Guarita.
IHU – No caso do empreendimento que se cogita construir no entorno do Geoparque da Guarita, quais são as implicações ecológicas e ressalvas ambientais que têm sido feitas?
Lara Lutzenberger – A edificação de grandes prédios nas zonas 24 e 25, além de ampliar ainda mais o forte adensamento urbano de Torres, se encontra na interface entre o Parque da Guarita e o da Itapeva, que deveriam desde sempre formar um único ambiente preservado e não construído. Já foi um erro permitir a construção de casas e prédios baixos lá. Agora resta restringir a altura dessas construções, que se escalarem às alturas impactarão fortemente a apreciação visual, compreensão e respeito pela grande paisagem natural que gerou e integra as formações da Guarita, minguando com a sua grandeza e comprometendo um tanto mais a preservação ambiental e paisagística dessa região, uma das mais lindas e espetaculares do RS.
Ademais, pela proximidade com os parques e pelo terreno originalmente arenoso e alagadiço, típico de depressões interdunares, é necessária atenção especial com a drenagem e o saneamento de ambos os bairros, assim como sombreamentos indesejados sobre a área da Guarita.
IHU – Poderia recuperar a gênese da criação do geoparque estadual José Lutzenberger e a sua importância, além das peculiaridades que possui?
Lara Lutzenberger – O arquiteto Burle Marx foi originalmente contratado para projetar o parque com a sua equipe. Entretanto, na sequência, projeto se mostrou muito oneroso de ser executado por conter muitos elementos de engenharia civil. Nesse contexto, decidiu-se, em comum acordo com o próprio Burle Marx, entregar esse desafio ao meu pai, José Lutzenberger, que entre 1972 e 1979 o transformou em um dos mais belos cartões postais do estado gaúcho e do litoral brasileiro.
Lutzenberger imprimiu uma marca própria em seus projetos paisagísticos, sempre orientando-se primeiramente por valorizar organicamente as paisagens e cenários naturais, reforçando e destacando os seus traços e flora característicos. Mesmo os passeios e as trilhas eram delineados considerando os rastros que a circulação espontânea de pessoas e animais deixavam no espaço. Com isso, seus projetos tinham custos de implantação e manutenção menores do que os tradicionais. A Guarita conseguiu se manter bastante bem nessas décadas que se sucederam aos trabalhos de Lutzenberger e sob um descaso crônico na sua manutenção, muito graças a essa concepção ecológica.
O reconhecimento pela Unesco da Guarita como geossítio do Geoparque Mundial Caminhos dos Cânions do Sul se deve especialmente ao seu patrimônio geológico, que vincula os morros e a própria torre da Guarita ao mesmo processo de formação dos Aparados da Serra e seus cânions, configurando nesse conjunto uma paisagem excepcional e um museu a céu aberto da deriva continental que formatou a África e a América do Sul.
IHU – O dia 22-02-2026 ficou marcado pela mobilização ambiental a favor da conservação das paisagens e do ecossistema do Parque da Guarita, contra a presença das “torres de concreto”. Como avaliam o engajamento da comunidade nessa pauta e qual foi a repercussão do evento? Como o poder público e construtoras reagiram?
Lara Lutzenberger – Essa mobilização é a mais recente de muitas outras que houve nos últimos anos, seja na forma de palestras, seja na forma de artigos nos meios de comunicação, entrevistas, ações junto ao Ministério Público, passeatas, esculturas na areia e mesmo abraços na Guarita. É um movimento que veio ganhando corpo ao longo dos anos como reação ao avanço desmesurado das torres de concreto. O grupo de militantes é integrado por moradores da comunidade de Torres, por veranistas e proprietários de imóveis locais.
A repercussão deste último evento foi novamente significativa e logo em seguida houve o anúncio da ação judicial, que já vinha em processo de amadurecimento e creio ter sido reforçada derradeiramente pelo evento. Por parte das construtoras e do poder público, houve o anúncio da retomada do Guarita Park Hotel por mais um ano, mesmo tendo sido divulgado o seu encerramento pouco antes dos últimos movimentos judiciais.
IHU – Quais são os próximos passos em relação a essa obra?
Lara Lutzenberger – A obra dos dois prédios a substituir o Guarita Park Hotel, assim como quaisquer outras de maior vulto previstos para as zonas 24 e 25 de Torres, está suspensa pelo processo judicial em curso. A expectativa é a de que ambas as zonas tenham o seu regramento construtivo revisto para a reversão definitiva da permissão de construções maiores de três ou quatro andares.
IHU – Nessa mesma lógica, prédios e casas antigos têm cedido espaço para projetos imobiliários novos. Como se pode ler o cenário dos mais de 70 novos prédios em construção em Torres e o que isso projeta e representa em termos de futuro?
Lara Lutzenberger – A destruição ou o abandono estratégico de construções antigas de valor histórico e arquitetônico, ou mesmo de casas simplesmente agradáveis com amplos jardins, escala aceleradamente. Isto dá lugar a prédios e mais prédios que modificam completamente as características originais da cidade.
IHU – Quais as características dessas novas construções e em que se diferenciam daquelas que já existiam na cidade?
Lara Lutzenberger – As novas construções são muito mais volumosas, densas, altas, e em boa parte de um luxo ostensivo. As casas variavam de estilo de bairro para bairro. A Praia Grande, a Prainha e a da Cal tinham estilos marcadamente diferentes e restavam também até recentemente uns quantos casarios de madeira, típicos da época em que Torres passou a ser local de veraneio. Destes casarios restam talvez duas ou três unidades ainda. As casas e os prédios menores que prevaleciam até a década de 1980 tombam dia a dia e soterram a história da cidade.
IHU – Há uma conexão entre o boom das construções em Torres com o deslocamento das pessoas para a praia em função da pandemia de Covid-19 e a enchente de 2024? Em que medida esse afluxo de pessoas e obras problematiza sistemas de esgoto e drenagem pluvial, além de outras questões?
Lara Lutzenberger – O ataque da construção civil sobre Torres, assim como em todo litoral norte do RS, antecede a pandemia e a enchente, que apenas deram um reforço no processo, na medida em que as possibilidades de trabalho virtual também facilitam esse movimento. O número crescente de aposentados também estimula a migração para lugares com maior qualidade de vida. A ironia é que, do jeito que vem ocorrendo essa ocupação, arrisca-se perder justamente a qualidade de vida buscada e remanescente.
IHU – Pode elucidar a importância do Movimento Unificado em Defesa do Litoral Norte e do Movimento Onda Verde – MOV?
Lara Lutzenberger – O MOV é a união potente de diversos atores e instituições que já vinham individualmente engajados em diferentes lutas pela preservação do Litoral Norte gaúcho. Congregando todos com suas múltiplas competências e esforços, o movimento adquire corpo e estofo para enfrentar o que for preciso. O Onda Verde é uma ONG de Torres com militância reconhecida e que bem integra também o MOV.
IHU – Em que aspectos o modelo econômico desenvolvimentista que brota do capitalismo ajuda a entender a dinâmica imobiliária em Torres?
Lara Lutzenberger – No aspecto da busca incessante e indecente por mais e ilimitado lucro, independentemente do seu impacto ambiental e social. Usam-se de todos os tipos de maquiagem marqueteira e subterfúgios legais para prosseguir em seu afã de prosperar economicamente, sem considerar o rastro de destruição em parte irremediável, que deixam para enfrentarmos quando provavelmente já seja tarde demais. Negócios e lucros são bem-vindos, desde que se orientem pelo bem comum, que honrem o passado sobre o qual se estruturam, que efetivamente tragam benefícios coletivos.
IHU – Que tipo de arquitetura, relação com a cidade e a natureza estão surgindo com esse boom imobiliário? Qual considera ser um modelo equilibrado e saudável de moradia?
Lara Lutzenberger – Vejo projetos modernos, elegantes e leves, inclusive com muito verde, especialmente representados pelos de menor porte. Outros já são de uma extravagância monumental, que considero absolutamente inadequada para os tempos atuais de tanta disparidade social, limitações ambientais e até mesmo para o perfil de uma cidade como Torres, que foi impulsionada por veranistas em busca de um ambiente convivial e tranquilo.
A cidade de Torres e a sua natureza estão sendo assaltadas, negligenciadas e transmutadas por interesses particulares descolados da apreciação profunda e respeitosa do que fez (e ainda faz, mesmo que num estágio já mais precário) ela ser um lugar de valor especial.
Há problemas crescentes de saneamento, com esgoto fluindo a céu aberto em diversos pontos da cidade, mesmo nas praias; ausência de coleta e destinação adequada do lixo urbano; adensamento desconfortável na orla e na circulação viária; marginalização visível; os parques naturais da Guarita e Itapeva carecem de um olhar e cuidados generosos para o seu melhor manejo e fruição; há praças descuidadas como a Pinheiro Machado situada em posição nobre, especialmente sob o ponto de vista turístico; a arborização é agredida; o antigo prédio da prefeitura e seu precioso museu histórico foram abandonados...
Entendo que um modelo equilibrado e saudável de moradia contempla o que respondi na primeira pergunta desta entrevista. O próprio setor construtivo pode prosperar bem e manter muitos empregos, reorientando os seus esforços para a recuperação de prédios antigos, qualificação do mobiliário e estruturas urbanas e priorização das locações no lugar das vendas.
IHU – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?
Lara Lutzenberger – Sim. Eu acrescento que acredito ainda estarmos em tempo de reorientar o destino de Torres honrando a sua história, beleza paisagística, riqueza cultural e fazendo dela um exemplo de cidade brasileira onde a qualidade de vida é o vetor principal de desenvolvimento.