Análise heterodoxa do volume de gastos das eleições municipais do Vale dos Sinos, 2012

  • Segunda, 27 de Agosto de 2012

“Na medida em que as relações políticas vão sendo atravessadas por espaços de tipo institucionais, naturaliza-se a democracia representativa e a ação negociada como a forma viável de se tentar alcançar alguma maneira de recompensa ou demandar ações concretas”, afirma o cientista político Bruno Lima Rocha, ao analisar os gastos das eleições municipais do Vale do Sinos.

Bruno Lima Rocha tem doutorado e mestrado em ciência política pela UFRGS, é graduado em jornalismo pela UFRJ, docente de comunicação social da Unisinos e vice-líder do Grupo de Pesquisa CEPOS, fundado por Valério Brittos e César Bolaño.

Eis a análise

Eleições e estratégias de poder


O volume de gastos eleitorais, dentro do espaço geográfico localizado no Conselho Regional de Desenvolvimento (COREDE), da Região conhecida como Vale dos Sinos implica em uma série de reflexões. Como de costume, vou me ater não à interpretação dos dados, mas a uma análise de tipo heterodoxa, tomando os números apenas como referência para reflexão.

Começamos pelo próprio montante. Sabe-se que para o Rio Grande do Sul, o eixo do Vale dos Sinos é uma das áreas estratégicas para as intenções de projetos de poder em nível estadual. Para quem se recorde, a eleição municipal de 2008 trouxe uma série de vitórias em municípios importantes, tais como Canoas, São Leopoldo e Novo Hamburgo, onde a legenda do atual governador Tarso Genro obteve o Poder Executivo local, assegurando uma relevante vantagem depois verificada no primeiro turno para o Piratini, em 2010.

Assim, em se tomando o exemplo anterior como válido, o montante destes gastos é relacional ao que está em jogo. Tanto no que diz respeito da capacidade de realizações, ainda mais em se tratando de municípios-chave da Região (como os já citados acima), como também em tornar o prefeito e seu bloco de alianças municipal como um trunfo possível para entrar em negociação para com os futuros candidatos ao Piratini. Dentre estes incluímos, obviamente, o atual governador, “naturalmente” já candidato a reeleição.

A disputa pelo Executivo

Dentre o volume de gastos para a campanha Executiva, destaca-se o de Canoas. Este município que culturalmente é mais metropolitano do que Vale dos Sinos, tem papel central na composição de forças do estado como um todo, e da Região Metropolitana em particular. Canoas é uma cidade-pólo de si mesma, além de poder definir uma campanha política estadual. Esta é uma interpretação válida para atestar os R$ 10.720.000,00 gastos entre seis candidatos para a prefeitura.

Já os outros dois municípios que haviam sido destacados, São Leopoldo e Novo Hamburgo, trazem um dado surpreendente. A cidade capilé tem três candidatos para o Executivo e que juntos gastarão R$ 4.400.000,00. Já NH tem os mesmos três candidatos e gastos de R$ 2.750.000,00; o que implica necessariamente uma disputa menos acirrada e, obviamente, uma condição em Novo Hamburgo de menor fragmentação dentro do atual bloco de governo. Chama a atenção como é desproporcional o volume de gastos das eleições majoritárias canoenses em relação a todos os demais municípios da Região.


Legislativo e a disputa pelos recursos

Concluindo a análise heterodoxa, parte-se para a disputa pelos legislativos municipais. No caso, trata-se de típica corrida para o botim possível (pork barrel, segundo o jargão da ciência política estadunidense). Isto porque é inversamente proporcional a quantidade de candidatos a vereador, baseando-se em cultura política de tipo paroquiana e em base de sociabilidade tipo grupos primários, diante das grandes causas e mobilizações que já atravessaram as pautas e demandas da Região. Na medida em que as relações políticas vão sendo atravessadas por espaços de tipo institucionais, naturaliza-se a democracia representativa e a ação negociada como a forma viável de se tentar alcançar alguma maneira de recompensa ou demandar ações concretas.

A proporção desigual nas candidaturas, onde Canoas tem o maior volume de candidatos (equivalente ao volume de gastos sobre representados), equivale ao tamanho da disputa por recursos dentro da própria Região. Mas, ainda que em menor volume, o conjunto dos municípios tem uma grande quantidade de candidaturas a vereança, totalmente desproporcional a intensidade de lutas locais ou embates de movimentos populares.

Um tecido social gregário e ainda muito vinculado a uma cultura teuto-brasileira (com ênfase a partir de São Leopoldo, no sentido inverso da proximidade com a capital), com forte vida associativa, é marcado pela ideologia difusa de “progresso e desenvolvimento”. A soma deste comportamento político com a adesão institucional faz com que a vereança seja uma meta alcançável, reforçada como projeto de poder local, na medida em que as realizações passam por projetos e contrapartidas junto aos municípios e pouca ou nenhuma destas realizações são atravessadas por conquistas diretas.



Nota: Botim possível é a apropriação de gastos do governo para projetos localizados garantidos unicamente ou principalmente, para trazer dinheiro para um distrito representante. O uso originado em Inglês Americano. Em campanhas eleitorais, o termo é usado de forma pejorativa para atacar adversários. Os estudiosos, no entanto, usá-lo como um termo técnico sobre o controle legislativo de dotações locais