Um sobrevivente e uma testemunha evocam as vítimas do massacre de San Patricio

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Por: André | 04 Julho 2016

O padre Rodolfo Capalozza e o leigo Rolando Savino, integrantes da comunidade palotina, foram, há 40 anos, testemunhas diretas do massacre de San Patricio, e hoje reclamam justiça pelos cinco religiosos dessa ordem, martirizados por repressores da última ditadura argentina.

A reportagem é publicada por Télam, 02-07-2016. A tradução é de André Langer.

Capalozza e Savino conversaram com Télam na casa paroquial, onde foram assassinados os seus irmãos, e reviveram esses dias de horror, morte e silêncio.

No entanto, ambos evocaram com alegria os ensinamentos desses homens de fé, comprometidos com um Evangelho capaz de tornar possível a transformação da vida na terra.

“Nesse tempo, eu era seminarista. Estudava e me preparava para o sacerdócio. O que aconteceu comigo foi providencial. Nessa noite eu deveria estar em San Patricio, mas fiquei com os meus pais e me salvei”, apontou Capalozza.

Na noite anterior ao massacre de 4 de julho de 1976, Capalozza saiu para ver um filme junto com Salvador Barbeito e Emilio Barletti – os dois seminaristas que foram assassinados em San Patricio –, mas decidiu ir para a casa dos seus pais, com quem tinha previsto passar o dia.

“No comçeo, minha intenção era ir depois da missa que se celebraria em San Patricio, mas como era tarde, decidi ficar no centro e daí ir para a casa dos meus pais. Lembro que eles brincavam comigo e me diziam que eu tinha que “cortar o cordão umbilical”, recordou.

O religioso deu um caráter providencial a essa decisão e sentiu que, em função disso, teve que levar uma vida dedicada a honrar a memória de seus irmãos.

“Os dias posteriores à sua morte foram muito difíceis. Mas conseguimos seguir em frente. Lembro inclusive a paz com que os familiares das vítimas receberam a notícia. Nunca houve rancor. A mãe de Barletti me disse que preferia ser a mãe de uma pessoa assassinada do que ter dado à luz um assassino”, destacou.

Esse é o sentimento que guia o pedido de justiça que impulsiona, hoje, a congregação palotina, que decidiu apresentar-se como querelante na causa de lesa humanidade pelo massacre instruído pelo juiz federal Sergio Torres.

“A comunidade quer justiça, é o que reclamamos há anos. Não pedimos vingança nem carregamos rancor. Temos, como cristãos, a necessidade de conhecer a verdade, para libertar-nos e reencontrar-nos na fé”, observou o padre.

A comunidade palotina tem sua sede na Irlanda; está presente em mais de 50 países e tem mais de 2.400 membros, entre religiosos e leigos.

Na Argentina, a ordem tem igrejas e escolas na Capital Federal, Castelar, Mercedes, San Antonio de Areco e Córdoba.

Na casa paroquial, que 40 anos atrás transformou-se em cenário de uma chacina, conserva-se o tapete sobre o qual foram alinhados e depois executados os padres Alfredo Leaden, Pedro Dufau e Alfredo José Kelly, e os seminaristas Barbeito Doval e Emilio Barletti.

Na casa paroquial de San Patricio, decorada com mapas e quadros da verde Irlanda, Savino reconstrói essa manhã de domingo enlutada, na qual encontrou os corpos metralhados dos cinco religiosos.

“Cheguei pouco antes das 8h, para tocar o órgão na missa. Eu tinha 16 anos e fazia três anos que tinha assumido esta tarefa. Bati várias vezes na porta, mas os padres não atenderam. Pensei que tivessem perdido a hora. Quando consegui, com a ajuda de uma senhora, entrar, nos deparamos com os corpos e o sangue. Foi algo terrível”, descreveu.

Savino contou que foi até a Delegacia de Polícia 37, comunicou o que tinha visto e minutos depois vários policiais chegaram a San Patricio.

“No começo, não queriam entrar. Até que os convenci e, uma vez dentro, um deles começou a gritar: ‘Tomaram a casa, tomaram a casa’. Depois começou a chegar gente da congregação, os vizinhos e o Exército”, destacou.

E com emoção, Savino, que ainda toca órgão nas missas da igreja de San Patrício, enfatizou: “Deste dia em diante, procuro seguir os ensinamentos desses irmãos que me deixaram tantas coisas. Que viveram do jeito que morreram: juntos”.

Capalozza e Savino saem da casa paroquial junto com os funcionários da Télam; a ideia é que tirem uma foto em frente a um mural situado na Rua Padres Palotinos, a poucas quadras de San Patricio.

Enquanto caminham pelos caminhos de Belgrano, a evocação do martírio de seus irmãos parecia acompanhá-los em cada passo que davam.

“Alguns ainda dizem que foram mortos por engano, que, na realidade, estavam atrás de padres passionistas que eram irlandeses. Todos sabemos que não; os militares sabiam quem eram e o que faziam e pensavam. Por isso, os fuzilaram”, garantiu Savino.

E Capalozza precisou: “Eles nos ensinaram a viver em comunidade. Por isso, desta vez, como todos os 4 de julho, vamos estar todos juntos. Para recordá-los e pedir justiça”.

Nota da IHU On-Line: Veja abaixo o vídeo em espanhol.

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