Três formas em que a abertura de Francisco a diaconisas pode mudar o catolicismo

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18 Mai 2016

Quando o Papa Francisco concordou, durante um bate-papo na semana passada com as religiosas em Roma, em explorar a ideia de ordenação feminina ao diaconato, ele desencadeou o que hoje se chama de uma típica tempestade midiática à moda Francisco.

A reportagem é de David Gibson, publicada por Religion News Service, 17-05-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Alguns conservadores saem por aí criticando a sua disposição em abrir debates polêmicos e a tomar medidas que eles consideram um caminho sem volta em direção à ordenação feminina ao sacerdócio, enquanto que alguns progressistas dançam por aí felizes com a disposição papal em propor debates controversos e dar passos em direção ao que consideram ser reformas necessárias para elevar o papel das mulheres na Igreja.

Um dia depois, em 13 de maio, o Vaticano entrou em cena para minimizar as especulações que estavam sendo feitas em torno do caso e reiterou que Francisco não havia dito que as mulheres seriam ordenadas diaconisas nem que isso levaria à ordenação delas ao sacerdócio. Ele simplesmente concordou em criar uma comissão para buscar melhores repostas àquela que tem sido uma questão duradoura e importante para os teólogos, pesquisadores e historiadores da Igreja.

Mas, independentemente do que advenha desta abertura potencialmente histórica – e os resultados podem variar grandemente, desde a manutenção do status quo a, de fato, ordenar mulheres como diaconisas –, a criação de uma tal comissão terá, no mínimo, outros três efeitos concretos que podem ser tão importantes quanto. São eles:

1.- Lançar-se-á uma exploração verdadeira da “teologia da mulher”

Por várias vezes o Papa Francisco pediu que as mulheres tenham mais funções na Igreja, e assim o fez de novo na última quinta-feira no encontro com as irmãs da União Internacional das Superioras Religiosas – UISG, grupo que reúne as líderes das ordens religiosas católicas femininas.

Ele também pediu uma “teologia mais profunda da mulher”, sem, no entanto, dar detalhes desta teologia ou sem indicar o que ela realmente significa, ou como poderia funcionar na prática.

Conforme tuitou o biógrafo papal e vaticanista Austen Ivereigh, uma tal comissão “rapidamente se transformaria num discernimento sobre o papel do gênero nos cargos de chefia na Igreja”.

De fato, independentemente do que o debate sobre as diaconisas trouxer de resultado, ele ajudará a esclarecer quais áreas exatamente estão abertas a elas e por quê.

A realidade é que, nas últimas décadas, houve um crescimento enorme da participação feminina no ministério e na vida da Igreja, um crescimento que veio de mãos dadas com a explosão do papel dos leigos. Mas muitos destes papéis – especialmente quando se trata de participação na liturgia – continuam contestados e, de forma alguma, são universalmente aceitos.

Realmente, há um forte movimento conservador contra o que alguns da direita católica condenam como uma Igreja “feminizada”. Um debate sobre diaconisas poderia resolver muitos destes impasses.

2.- Lançar-se-á uma teologia mais profunda do diaconato (e do ministério)

Uma outra área um pouco confusa que o debate sobre as diaconisas iria iluminar é a questão não resolvida do que exatamente é um diácono.

O papel do diácono foi criado, conforme relatado no Novo Testamento, pelos apóstolos para que eles pudessem implantar ministros dedicados especificamente a fazer obras de caridade. Assim os apóstolos ficariam livres para se focar unicamente na pregação.

Na tradição católica, o papel do diácono acabou sendo subsumido para dentro do sacerdócio e da hierarquia, até que o Concílio Vaticano II, na década de 1960, reviveu o diaconato como um ministério ordenado aberto a “homens maduros” acima dos 35 anos que poderiam estar casados.

Mas criar uma ordem ministerial depois de mais de mil anos, certamente suscitaria ambiguidades quanto não somente ao que eram as diaconisas no Novo Testamento e o que elas poderiam ser hoje, mas o que os próprios diáconos são e como eles se diferem, ou não, de outros clérigos ordenados, a saber: os padres e bispos.

Conforme escreveu no blog católico Aleteia o diácono William Ditewig, teólogo da Santa Clara University e importante especialista na área do diaconato: “Em última instância, esta é uma questão não apenas sobre as mulheres no diaconato, mas, sobretudo, uma questão sobre uma teologia do diaconato”.

O companheiro diácono de Ditewig e colega no sítio Aleteia, Greg Kandra, também observou que, poucos anos atrás, na busca por distinguir as ordens diaconais das ordens sacerdotais e episcopais, o Vaticano – e, em particular, o Cardeal Joseph Ratzinger, o tradicionalista doutrinal que mais tarde se tornaria o Papa Emérito Bento XVI – pode ter facilitado as coisas para que a Igreja decida ordenar diaconisas.

Isso porque uma emenda de 2009 no Direito Canônico deixou claro que os diáconos não equivalem, em absoluto, aos padres que agem “in persona Christi” (ou “no lugar de Jesus”) no desempenho de todos os sacramentos, e que os diáconos simplesmente “servem ao povo de Deus na diaconia da liturgia, da Palavra e da caridade”.

Um esclarecimento aqui aliviaria quaisquer preocupações sobre a ordenação feminina ao diaconato como sendo um passo na direção do sacerdócio bem como eliminaria a exigência de gênero em que os diáconos não têm de ser homens porque Jesus era um homem.

3.- Irá impulsionar a dinâmica papal do diálogo e discernimento

Se existe algo no Papa Francisco que leva à loucura os fiéis conservadores é que ele quer abrir espaços de diálogo entre os membros da Igreja ao invés de calar-lhes a boca com diretivas simples e francas.

“Ele nunca diz tudo o que tem em mente, ele simplesmente deixa para que os outros adivinhem”, registrou Sandro Magister, experiente vaticanista e crítico regular do papa, em artigo recente. “O papa permite que se traga à discussão tudo de novo. Assim, tudo se torna uma questão de opinião, numa Igreja em que todo mundo faz o que ele quer”.

Como escreveu o padre jesuíta Thomas Reesesobre o caso das diaconisas: “O mais significativo na resposta do Papa Francisco é a forma como mostra o quão ele está aberto ao debate de  ideias na Igreja e o quanto quer que o discernimento seja o processo pelo qual a Igreja toma decisões”.

“No passado, o establishment clerical discutia os assuntos da Igreja por detrás de portas fechadas de forma a ‘não confundir os fiéis’. Com Francisco, esse dia acabou”, escreveu Reese. “Claro está que ele odeia qualquer coisa que cheire a clericalismo”.

Por outro lado, Francisco pode ver o passo de ordenar mulheres ao diaconato como simplesmente uma forma de “clericalizá-las”. Porém, está claro também que ele está feliz em ter este debate, ainda que muitos não estejam.

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