Cardeal Obando, novo “prócer nacional” da Nicarágua

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Por: Jonas | 07 Março 2016

Na manhã deste dia 2 de março, a Assembleia Nacional da Nicarágua (unicameral, e dominada pelo partido de governo) aprovou nomear o arcebispo emérito de Manágua, Cardeal Miguel Obando y Bravo (na foto, à esquerda de Daniel Ortega), “prócer nacional da paz e reconciliação”.

 
Fonte: http://goo.gl/FGjOZn  

A reportagem é de Israel González Espinoza, publicada por Religión Digital, 03-03-2016. A tradução é do Cepat.

O voto majoritário da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN, esquerda no poder desde 2007) mais o de dois deputados aliados completaram os 65 votos que nomearam Obando y Bravo “prócer nacional” deste país centro-americano, ratificando a iniciativa de lei que foi enviada em inícios de fevereiro pelo presidente Daniel Ortega.

Segundo a lei aprovada hoje pelo Legislativo, Obando y Bravo será incluído entre os próceres da Nicarágua, um mérito que compartilhará, a partir de agora, com os líderes independentistas senhor Miguel de Larreynaga e o sacerdote indígena Tomás Ruiz.

A iniciativa do Executivo nicaraguense em nomear o arcebispo emérito Obando y Bravo não caiu bem para a oposição política que vê na nomeação “um presente” ao prelado, outrora detrator do sandinismo e agora aliado do governo de Ortega.

No dia de hoje, foi notória a ausência dos deputados de oposição no hemiciclo parlamentar onde se discutia a nomeação de Obando y Bravo como prócer. Os meios e comunicação aliados a FSLN chamaram de “mesquinha” a atitude dos opositores ao governo.

Durante a discussão da iniciativa de lei, 35 deputados tomaram a palavra, a maioria do partido situacionista, elogiando o trabalho de Miguel Obando y Bravo como mediador político entre os anos 1970 e 1990, assim como seu trabalho pastoral e de ensinamento.

“Acredito que nomeá-lo prócer em vida é mais que justo e correto”, disse o deputado sandinista Jacinto Suárez. “Nós que estamos presentes neste hemiciclo, alegramo-nos porque é um dia do dever cumprido com a história”, disse o deputado Edwin Castro, chefe da bancada situacionista no Parlamento.

Dias atrás, o arcebispo emérito Miguel Obando y Bravo qualificou como um gesto de “bondade” a iniciativa de lei que o nomeia prócer nacional. “É uma gentileza do senhor presidente me propor ser prócer da paz. Agradeço sua demonstração de fineza e que estejamos unidos na oração, que é importante”, expressou o prelado, que recentemente completou 90 anos.

Apesar das críticas da oposição e da rapidez com a qual se aprovou o projeto de lei que declara Obando y Bravo “prócer” da história nacional, a medida foi apoiada pela Conferência Episcopal da Nicarágua (CEN), na pessoa do bispo de León, Bosco Vivas Robelo, e pela Coordenação Evangélica, que é presidida pelo pastor Miguel Ángel Casco.

Quem é Miguel Obando y Bravo?

Nasceu em 1926, no seio de uma família humilde, no povoado de La Libertad, departamento de Chontales (centro da Nicarágua). Ordenou-se sacerdote salesiano em 1958. Foi eleito bispo auxiliar de Matagalpa, em 1968, e foi nomeado arcebispo metropolitano de Manágua, em 1970, por Paulo VI.

Em 1985, João Paulo II o elevou ao cardinalato, sendo o primeiro prelado centro-americano a receber a dignidade cardinalícia. Em 2005, aposentou-se como arcebispo, sendo sucedido pelo Cardeal Leopoldo Brenes Solórzano, atual arcebispo de Manágua.

De profissão físico-matemático, Obando y Bravo é conhecido na Nicarágua pelo seu trabalho mediador em diversos acontecimentos políticos que ocorreram durante seu governo episcopal. Nos anos 1970, em dois momentos, foi mediador entre a guerrilha sandinista e o governo do ditador Anastasio Somoza Debayle, quando lançou duros golpes aos aparatos burocráticos do regime.

Nos anos seguintes, liderou a oposição à Revolução Popular Sandinista (1979-1990) e à Igreja comprometida com os pobres, denominada também como “Igreja popular” pela hierarquia católica daqueles anos, que era composta por sacerdotes, religiosas e leigos comprometidos com o processo revolucionário.

Entre 1988 e 1990, foi garantidor dos acordos de paz entre o governo da FSLN e a contrarrevolução, em Sapoá, que culminou com a celebração das primeiras eleições democráticas e a pacificação do país.

Desde o retorno do socialista Daniel Ortega ao poder, em 2007, foi um aliado próximo do mandatário e de sua esposa Rosario Murillo, que o nomeou coordenador do Conselho de Reconciliação Nacional. Atualmente, seu papel é criticado na Igreja e oposição porque estes grupos consideram que o governo utiliza sua figura religiosa para fins políticos.

Além disso, Obando y Bravo preside o conselho diretivo da Universidade Católica de Manágua (UNICA) e é dono de uma modesta emissora de perfil católica que possui cobertura nacional.