Trump não foi o único a se decepcionar com a viagem do Papa ao México

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24 Fevereiro 2016

Sob quase qualquer critério, a recente viagem do Papa Francisco ao México, que começou com uma breve parada em Cuba para encontrar o Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, foi um sucesso. Um grande público compareceu em todos os lugares visitados e a visita rendeu uma extensa cobertura, especialmente com a desavença do pontífice com Donald Trump ao final.

Certamente se você fosse um imigrante ilegal no lado norte-americano da fronteira, um detento, ou trabalhador, ou uma vítima da violência ligada às drogas, ou um indígena no México, você teria razões especiais para ficar feliz com a presença do Papa, já que ele fez questão de atingir estes grupos.

A reportagem é de John L. Allen Jr, publicado por Crux, 22-02-2016. A tradução é de Luisa Somavilla.

Por outro lado, qualquer viagem papal é por definição um exercício de escolha, em que sempre há pessoas que ficam de fora – grupos que, por inúmeras razões, sentem-se negligenciados, ou não ouvidos, ou decepcionados por o que quer que o Papa tenha dito ou feito.

A vasta discussão trazida pelo Papa em suas observações sobre Trump significou, até certo ponto, que a análise após a viagem para o México se perdeu. Em retrospecto, fica claro que há pelo menos três outros eleitorados, para além de candidatos à presidência dos Estados Unidos que são anti-imigração, que defendem terem sido ignorados ou prejudicados:

• A minoria protestante do México

• Vítimas de abuso sexual clerical

Ucranianos greco-católicos


Protestantes

Como um pastor latino-americano, Francisco certamente sabe que a transição da América Latina no final do século XX de um continente quase integralmente católico para um mercado espiritual competitivo, com uma proliferação da atuação evangélica e pentecostal, possivelmente a mais importante transformação religiosa da era.

Pode-se pensar que o primeiro Papa latino-americano da história se sentiria impelido a alcançar esse crescente novo mundo cristão, e ele já fez bastante em prol disso, incluindo uma visita a uma congregação pentecostal na Itália dirigida por um velho amigo da Argentina para entregar um pedido de desculpas por maus tratos aos pentecostais por parte dos católicos no passado.

É curioso, portanto, que enquanto estava no país, Francisco não encontrou ou até mesmo fez referência à minoria protestante do México, agora em torno de 10 por cento da população.

Reconhecidamente, ele deve ter sentido que como sua viagem começou com uma abertura ecumênica histórica através da primeira reunião de cúpula entre um papa e um Patriarca de Moscou da história, não havia necessidade.

Entretanto, qualquer um que conheça o cenário cristão percebe que a Igreja Ortodoxa Russa e os evangélicos e pentecostais latino-americanos são grupos muito diferentes, e a relação com cada um deve ser correspondentemente diferente.

Estes evangélicos ficaram especialmente decepcionados em 15 de fevereiro, quando o Papa viajou para Chiapas para celebrar suas culturas indígenas, mas não mencionou sua considerável minoria protestante. Foi uma omissão significativa, já que naquele mesmo dia uma igreja protestante em Chiapas havia sido incendiada, meramente a mais recente em uma sequência de ataques violentos a protestantes geralmente conduzidos por católicos tradicionalistas, ou até, algumas vezes, sincretistas.

Particularmente com um papa que falou várias vezes sobre como a perseguição anticristã está criando um “ecumenismo de sangue”, os evangélicos estavam esperando que ele fizesse questão de denunciar essa perseguição advinda de membros de seu próprio rebanho.

Vítimas de abusos

Durante o papado do Papa Bento XVI, tornou-se padrão nas viagens papais que quando o Papa visitasse um país que havia sido fortemente atingido por escândalos de abuso clerical, ele encontraria as vítimas. Isso era visto não somente como um importante gesto de sensibilidade, mas também como uma maneira de encorajar os bispos locais a fazerem o mesmo.

Nessa questão, o México certamente se enquadra. É o lugar onde nasceram os Legionários de Cristo, uma ordem religiosa criada em 1959 cujo fundador, o falecido Marcial Maciel Degollado, foi considerado culpado de várias formas de abuso sexual e má conduta pelo Vaticano em 2006 e sentenciado a uma vida de “oração e penitência”.

No final de dezembro, um arcebispo mexicano declarou que uma reunião com as vítimas e suas famílias estava sendo planejada, mas esse evento acabou nunca acontecendo.

Tal reunião teria vindo em boa hora para Francisco. Nas últimas semanas, o Vaticano enfrentou controvérsias sobre sua resposta a escândalos ligados a abusos em três frentes diferentes:

• Foi concedida uma licença a uma vítima para se ausentar da própria comissão anti-abuso do papa após ele ter criticado Francisco publicamente por nomear um bispo no Chile conhecido como um aliado de um dos mais notórios padres que cometeram abusos naquele país.

• Um curso para novos bispos no Vaticano foi alvo de críticas por convidar um monsenhor francês que disse aos bispos que eles não têm nenhuma obrigação de reportar acusações de abuso à polícia e por deixar de mencionar os extensos esforços da Igreja em várias partes do mundo para desenvolver programas de ponta em prevenção de abusos.

• O principal responsável pelas finanças do papa, o cardeal George Pell, está enfrentando uma nova série de acusações na Austrália relacionadas a uma sindicância em andamento realizada por uma Comissão Real no tratamento de casos de abuso pela Igreja.

Sejam quais forem os motivos de Francisco para não se encontrar com as vítimas no México, esse fato se acrescentará às questões que já estão sendo levantadas sobre onde o Vaticano, e o próprio Papa, se posicionam atualmente em termos do comprometimento necessário para virar essa página.

Católicos ucranianos

Com uma legião de cinco milhões de fiéis, a Igreja Greco-Católica na Ucrânia é a maior das 22 igrejas asiáticas em comunhão com Roma e, honestamente, tem boas razões para ser cautelosa em relação à Igreja Ortodoxa Russa.

Durante a era soviética, suas paróquias e outras propriedades foram confiscadas e repassadas à Igreja Ortodoxa, e após a queda do muro de Berlim, a Igreja Ortodoxa Russa não tem olhado de maneira gentil para o que é inegavelmente um renascimento do greco-catolicismo na Ucrânia.

Os dirigentes da Ortodoxa acusam os católicos rotineiramente de tentar converter seus fiéis, apesar de os católicos terem apenas recuperado pessoas que haviam sido seus fiéis por séculos. Os ortodoxos também ressentem as críticas dos greco-católicos a respeito da invasão de Putin à Ucrânia oriental.

Antes da reunião de Francisco com o Patriarca Kirill em 12 de fevereiro, muitos católicos ucranianos estavam preocupados que Moscou a exploraria para fins de propaganda, que é exatamente o que muitos pensam que aconteceu. Não somente eles acreditam que Kirill teve passe livre para seu papel como capelão das ambições imperiais de Putin, mas também pensam que a declaração conjunta assinada em Havana enfraquece sua posição em pontos centrais.

À luz disso, os Greco-católicos comemoraram a conferência de imprensa concedida por Francisco no avião em seu retorno para Roma. Apesar de a cobertura norte-americana ter sido dominada pelas observações do Papa a respeito de Trump, assim como sobre controle de natalidade no contexto do Zika vírus, Francisco também respondeu a uma questão sobre a Ucrânia.

Não somente o Papa defendeu o arcebispo Sviatoslav Shevchuk, chefe da Igreja greco-católica, que criticou os rumos do encontro de cúpulo de Havana, somos um “filho da Igreja”, mas o pontífice também declarou que a declaração conjunta é “debatível”.

Francisco disse que é “compreensível” que muitos fiéis na Ucrânia sintam-se feridos e traídos por Roma, pois eles ainda vivem em um contexto de guerra.

Assim, muitos ucranianos sentiram que seis dias após perceberem-se abandonados pelo Papa, ele fez um grande esforço para reparar o dano. Fica a pergunta se, e quando, ele encontrará maneiras de fazer o mesmo pelos protestantes e vítimas de abuso.

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