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11 Fevereiro 2016

"Não é preciso ser um sobrevivente para buscar trabalhar pela segurança das crianças, para ajudar a pôr um fim ao horror da violência infantil e para transformar a Igreja. Achei que os participantes da Comissão são indivíduos sinceros que estão contribuindo, a partir da área de conhecimento deles, para o desenvolvimento de novas políticas. Estas pessoas estão trabalhando em vistas à implementação, em todo o mundo, das melhores práticas relacionadas à tutela, à formação na área dos abusos sexuais e à justiça aos sobreviventes. As políticas pensadas são, em seguida, recomendadas ao papa. Elas não são peões cúmplices em um exercício de Relações Públicas, como dito, e sim boas pessoas que têm a segurança das crianças em seus corações", esvreve Marie Collins, sobrevivente de abusos sexuais cometidos pelo clero e integrante da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores, do Papa Francisco, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 09-02-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Na qualidade de sobrevivente de abuso clerical infantil, passei muitos anos em silêncio, depois muitos anos falando abertamente para expor a forma como a Igreja Católica vinha protegendo e abandonando os menores aos abusadores em seu seio. A ira que sentia com a relutância continuada por muitos líderes eclesiásticos em denunciar os perpetradores, em cooperar com as autoridades civis, em tratar os sobreviventes com justiça foi sufocante.

Então vieram a decisão do Papa Francisco, em 2013, de criar uma Comissão Pontifícia para a Tutela dos Menores e a minha própria nomeação para este órgão. Essa Comissão estava sendo colocada a trabalhar no sentido de conceber uma mudança política e estrutural que pudesse ser recomendada ao papa para melhorar a tutela, ou proteção, dos menores no futuro além de certificar que todos os líderes católicos implementassem estas políticas.

Tive de me decidir se havia alguma esperança de que esta Comissão, por meio de sua assessoria ao papa, faria acontecer alguma mudança permanente dentro da Igreja universal ou se iria ser uma perda de tempo, apenas um exercício de Relações Públicas. No fim, decidi que, se houvesse alguma esperança de proteção das crianças no futuro melhor da que tivemos no passado, então eu deveria participar.

Não é preciso ser um sobrevivente para buscar trabalhar pela segurança das crianças, para ajudar a pôr um fim ao horror da violência infantil e para transformar a Igreja. Achei que os participantes da Comissão são indivíduos sinceros que estão contribuindo, a partir da área de conhecimento deles, para o desenvolvimento de novas políticas. 

Estas pessoas estão trabalhando em vistas à implementação, em todo o mundo, das melhores práticas relacionadas à tutela, à formação na área dos abusos sexuais e à justiça aos sobreviventes. As políticas pensadas são, em seguida, recomendadas ao papa. Elas não são peões cúmplices em um exercício de Relações Públicas, como dito, e sim boas pessoas que têm a segurança das crianças em seus corações.

Perguntaram-me sobre a discussão e votação da Comissão feita sábado passado (6 de jan.) em nossa sessão plenária. Por que o silêncio e por que eu não fui embora? Tenho lutado por transparência na Igreja e, nesse caso, devemos ser transparentes também.

Irei, portanto, agora explicar alguns pontos. Falo aqui em meu próprio nome, e não como representante da Comissão.

A discussão de sábado surgiu por causa de uma diferença na compreensão da missão e dos poderes da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores. Se um membro não pode se comprometer em trabalhar no desenvolvimento de políticas – o que, sem dúvida, é laborioso, tedioso e demorado – enquanto os demais membros estão profundamente comprometidos, surge um impasse.

Qualquer expectativa de que a Comissão pode atacar ou exigir coisas do papa, ou inserir-se em casos particulares, ignora o a finalidade em busca da qual o grupo trabalha. Compreendo a frustração, a emoção e a raiva em torno do que ainda está acontecendo e de como deveria ser. Mas tais situações não podem ser resolvidas pela Comissão.

Foi informado pela Reuters após uma coletiva de imprensa no sábado que Juan Carlos Cruz, um corajoso sobrevivente chileno que tem lutado por justiça, disse que a “Comissão é uma desgraça, pensam que a violência e o abuso infantil é algo que já passou”.

Isso não é verdade. É pelo mesmo motivo que estas coisas NÃO deixaram de existir que os membros da Comissão estão trabalhando duro para mudá-las.

A votação não foi pensada de antemão; não teve nada a ver com algum departamento do Vaticano. A questão foi levantada na reunião por um dos participantes leigos. A votação somente se seguiu depois de uma discussão que durou quase duas horas.

Eu obviamente não posso citar, de forma direta, o que foi dito sem romper com a confidencialidade dos participantes, mas os tópicos cobertos incluem: a dificuldade em compartilhar visões francas de forma aberta nos encontros, se o que é dito vai, sem seguida, aparecer na imprensa, ou será compartilhado com outros de fora da Comissão; a dificuldade em se trabalhar para o papa ao mesmo tempo atacando-o publicamente; a preocupação dos membros que trabalham na criação de políticas – assuntos sensíveis dependentes de um desenvolvimento – que podem ser tornadas públicas ou compartilhadas prematuramente com pessoas de fora da Comissão.

É esse o contexto em que se abordou que nem sempre se poder dizer na imprensa exatamente aquilo que se quer. Não que aquilo que poderia ser dito fosse contrário à Igreja, mas porque pode quebrar a confiança dos demais participantes e o trabalho deles.

A questão principal foi se havia uma disposição de se engajar, ou não, no trabalho de produção de políticas feito pela Comissão. Quando Peter [Saunders] não pôde se comprometer nem informar um prazo durante o qual poderia refletir sobre o assunto, um membro leigo da Comissão propôs uma votação.

A proposta, até onde vai a minha memória, era que ele tirasse uma licença para decidir como poderia contribuir para a Comissão. Não foi um voto de desconfiança. Todos os presentes exceto eu mesma votaram pela proposta.

Eu me abstive, mas entendi por que os meus colegas votaram da forma como fizeram. Fiquei muito triste, bem como muitos outros da Comissão, pelo fato de que havíamos chegado a um impasse tão difícil.

Foi somente aqui que os membros da Comissão ficaram sabendo, por Peter Saunders, que Juan Carlos Cruz estava em Roma. Ninguém fazia ideia que ele estava viajando para cá, pelo que parece com a crença de que iria se reunir com a Comissão.

Os participantes decidiram emitir um comunicado de imprensa sobre a licença como um ato de transparência. Se não tivéssemos agido assim, poderiam dizer que estávamos encobrindo o caso. Desconheço por quais meios ele foi enviado à imprensa, mas foi escrito pela Comissão, e não por alguma outra entidade do Vaticano.

Venho trabalhando na Comissão desde a nossa primeira reunião, em maio de 2014. Este trabalho não vem sendo fácil. Tenho minhas preocupações com o que está acontecendo na Cúria Romana em relação ao que desenvolvemos.

Conforme já disse, tenho toda a confiança na Comissão e em seus participantes. Não tenho a mesma confiança naqueles cuja tarefa é a de trabalhar conosco dentro do Vaticano e implementar as nossas propostas quando aprovadas pelo papa.

Fico sentida quando vejo alguém criticando a Comissão, pois aí se está escolhendo o alvo errado. Há muitas pessoas de boa vontade na Cúria, mas infelizmente ainda existem aqueles, em níveis hierárquicos altos, que se preocupam mais com os seus próprios feudos e com as ameaças de mudança do que com o que fazem com o trabalho que a Comissão está tentando propor para proteger as crianças.

Se a Comissão sai prejudicada internamente, são essas que acabam sendo as beneficiárias – não os sobreviventes ou as crianças do futuro.

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