Papa Francisco responde a pergunta: "Como poderia ter sido?”

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11 Janeiro 2016

Em 1963, o presidente John F. Kennedy foi assassinado, e os americanos desde então têm ponderado como teria sido. Quinze anos mais tarde, a Igreja Católica enfrentaria a mesma situação com o Papa João Paulo I, o “Papa sorriso” que exalava calor humano e simplicidade e que faleceu de ataque cardíaco em 28 de setembro de 1978, somente 33 dias depois que fora eleito.

Os americanos podem ainda estar incertos, mas os católicos de hoje basicamente contam com uma resposta: se João Paulo I tivesse vivido, ele poderia muito bem ter sido como o Papa Francisco está sendo.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 10-01-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Este pensamento ocorre em conexão com a divulgação de um novo livro com Francisco, o primeiro que ele publica como papa: “O nome de Deus é Misericórdia”, um diálogo sobre o Ano Santo da Misericórdia em 2016. Publicado simultaneamente em mais de 80 países, a obra é o fruto de uma conversa com o escritor e vaticanista italiano Andrea Tornielli. A data de publicação oficial é nesta quarta-feira (13 de jan.); exemplares foram disponibilizados a agências de notícias com antecedência.

O Vaticano marcará o lançamento do livro na terça-feira com um debate entre o seu secretário de Estado, o Cardeal Pietro Parolin, e o ator Roberto Benigni, do filme “A vida é bela”.

Não há grandes novidades em termos de notícia, mas dois pontos são de interesse.

Uma questão candente no catolicismo atual, que Francisco deverá abordar em um documento futuro com base nas conclusões do Sínodo dos Bispos recente, é se os católicos divorciados e recasados fora da Igreja devem ter condições de receber a Comunhão. (Atualmente, eles estão proibidos.)

No livro, Francisco conta a história de um homem que se casou com uma das sobrinhas do futuro papa antes que o seu casamento anterior fosse declarado nulo por um tribunal eclesiástico, e assim ele foi excluído do Sacramento. O papa falou que o marido ia à igreja todos os domingos e dizia ao padre: “Eu sei que o senhor não pode me absolver, mas eu pequei. Por favor, me dê uma bênção”.

O papa chama este homem de “religiosamente maduro”. Esta postura pode ser interpretada como um sinal de que Francisco está inclinado a defender a compreensão, mas não necessariamente a alterar a disciplina vigente.

Em um outro ponto, Francisco comenta sobre a sua famosa frase proferida em 2013: “Quem sou eu para julgar?”, referindo-se aos gays.

O pontífice diz que ele estava “parafraseando de cor o Catecismo da Igreja Católica”, ou seja, o compêndio oficial do ensino da Igreja.

“Você pode aconselhar [os gays] a rezar, demonstrar boa vontade, mostrar-lhes o caminho e acompanhá-lo ao longo dele”, diz, novamente dando a entender que apoia a compaixão e inclusão, mas não uma revisão da dotrina.

No todo, o livro oferece um tratado sobre a compreensão de Francisco a respeito da misericórdia.

“A Igreja não está no mundo para condenar, mas para permitir o encontro com o amor visceral que é a misericórdia de Deus”, afirma ele, admitindo sem rodeios que o catolicismo nem sempre conseguiu praticar isso.

“Quando se trata de conferir a graça, Cristo está presente”, declara, citando Santo Ambrósio, santo do século IV. “Quando se trata de exercitar como rigor, somente os ministros da Igreja estão presentes, mas Cristo está ausente”.

Francisco rejeita uma “adesão formal a regras e esquemas mentais”, insistindo que “a misericórdia é o primeiro atributo de Deus”.

Passando brevemente em revista o texto, é surpreendente que, embora Francisco cite os cinco outros papas desde a abertura do Concílio Vaticano II em meados da década de 1960 – São João XXIII, Beato Paulo VI, João Paulo I, São João Paulo II e Bento XVI –, aquele a quem ele mais faz alusão é João Paulo I.

Francisco cita o “Papa Luciani”, referindo-se ao seu nome de nascimento, cinco vezes. Isso fica particularmente notável visto que os outros quatro papas reinaram em uma média de treze anos e meio, enquanto que João Paulo I esteve no posto por pouco mais de um mês.

Apesar desta breve jornada – o décimo papado mais curto, e o mais breve desde o de Leão XI no século XVII –, em seus dias João Paulo I foi uma verdadeira sensação.

Ele foi exatamente como a maioria dos católicos rezam para que os seus líderes sejam: afável, apaixonado, genuinamente feliz em estar com as pessoas comuns, um homem de uma fé óbvia que não escondia o que pensava ou em que acreditava; foi um alguém que não se levava muito a sério.

Foi o pioneiro em simplificar o papado deixando de lado o “nós” real, declinando a coroação com a tiara papal e descontinuando o uso do sedia gestatoria, ou trono portátil.

Parece com alguém que conhecemos?

João Paulo I, em um dos seus pouquíssimos discursos públicos como papa, disse que Deus é tão misericordioso a ponto de ser “pai, mais ainda, é mãe”.

“Deus tem um tal amor terno por nós, até mais terno do que o amor que uma mamãe tem por seus filhos”, disse ele, citando o profeta Isaías. “Os filhos se por acaso estão doentes têm uma condição a mais para serem amados pela mãe e se nós estamos doentes de maldade, fora do caminho, temos um motivo a mais para sermos amados pelo Senhor”.

Estas frases facilmente poderiam ser ditas por Francisco, e na verdade por inúmeras vezes ele já as pronunciou em sua própria versão.

Isso não significa que Francisco não tenha coisas em comum com os demais predecessores – por exemplo, São João Paulo II criou uma Festa da Divina Misericórdia, ajudando a pavimentar o terreno para o Jubileu deste ano –, mas os laços com João Paulo I são marcantes, especialmente quando ele tende a ser o “papa esquecido” da era moderna.

Uma associação sediada nos EUA devotada a João Paulo I apresentou uma petição a Francisco buscando acelerar o processo de sua beatificação, passo-chave no caminho à santidade, durante este Ano da Misericórdia. O novo livro a ser lançado esta semana poderá ser um bom indicativo para se apostar que este objetivo vai ser alcançado.

***

Classificando os católicos que têm divergências com o Papa

Esta semana fui contatado por um repórter conhecido meu que trabalha para um sítio político na Bélgica; ele estava fazendo uma reportagem a respeito do Papa Francisco e estava tendo dificuldades em entender a popularidade pessoal do pontífice com os números que mostram uma queda na frequência à igreja, e também com os relatos de uma resistência católica interna que o papa estaria enfrentando.

A sua teoria girava em torno de uma distinção entre o que chamou de católicos “soft”, ou seja, aqueles às margens da Igreja, e católicos "deep" (profundos), quer dizer, as pessoas altamente comprometidas com a religião. O colega queria saber se eu concordava que este apelo que Francisco possui se faz mais presente entre os católicos “soft”, e que os problemas que enfrenta advém da relação com o grupo dos fiéis “profundos”.

A minha resposta foi que, como qualquer outro jeito de dividir as coisas, esta sua distinção captura parte da verdade, mas não toda.

É verdade que alguns daqueles a quem o repórter estava chamando de católicos “deep” ficam agitados quando o mundo aplaude o papa, pois temem que algo tenha se perdido ao longo do caminho.

Por outro lado, existem também muitos católicos “deep” – pessoas que vão à missa regularmente, que creem no que a Igreja ensina e que fazem um esforço sincero para praticar tais ensinamentos – que são fortemente a favor de Francisco. Um lugar onde se pode achá-los é em muitas das ordens religiosas, inclusive em sua própria comunidade jesuíta.

Se a distinção entre católicos “soft” e “deep” não explica muito bem a diversidade em questão, então o que explicaria?

Eu disse a ele que colocaria pelo menos outras cinco formas de analisar a vida católica na atualidade.

1) Há a taxonomia usual de progressistas, conservadores e moderados.

Grosso modo, defino um católico “progressista” como alguém que gostaria de ver o ensino católico mudar, por exemplo: a respeito de mulheres ordenadas ao sacerdócio ou da homossexualidade; defino um católico “conservador” como alguém que não só defende o ensino como também o expande e o faz valer com convicção; e defino um católico “moderado” como alguém que acolhe o ensino, mas que gostaria de ver uma maior compaixão e flexibilidade em sua implementação.

Dito desse modo, a base natural de Francisco está entre os moderados. Tanto na direita quanto na esquerda, alguns católicos se mostram cautelosos: os progressistas se preocupam que ele não está indo longe o suficiente, e os conservadores estão convencidos de que ele já foi longe demais.

2) Há a distinção psicológica entre tipos de personalidade inclinados a resistir à mudança, de qualquer espécie, e aqueles ávidos por ela, geralmente antes mesmo de saber do que se trata.

Em uma religião tão vinculada à tradição como o é o catolicismo, este é um aspecto bastante forte, pois os instintos quanto à mudança estão ligados a convicções teológicas e espirituais.

Para o bem ou para o mal, Francisco é um papa do tipo inovador, então ele nem sempre satisfaz aqueles que veem a mudança com medo.

3) Existe uma distinção entre o que se pode chamar de católicos “políticos” e católicos “apolíticos”.

Um católico político é alguém que acompanha os assuntos da Igreja, que lê, pensa e fala sobre o que o papa está fazendo e desenvolve as suas próprias opiniões – seja sobre se a Missa Latina deve ser mais usada em geral, por exemplo, seja se os fiéis divorciados e recasados no civil deveriam poder receber a Comunhão.

Um católico “apolítico” é alguém que não acompanha muito estes temas e não tem fortes opiniões sobre eles. Para estes fiéis, basta ir à igreja no domingo, orar um pouco e se sentir mais perto de Deus.

Isso não é a mesma coisa que um católico “soft”, porque estas pessoas são, normalmente, bastante comprometidas com a Igreja.

Os meus pais foram um perfeito exemplo desse tipo. Lembro de uma vez perguntar ao meu pai, alguém que ia praticamente todos os dias à missa, o que ele achava de João Paulo II, e a sua resposta foi: “Ele é o papa. Filho, o que você quer dizer ‘o que eu penso dele?’”.

O problema de Francisco, como o de qualquer papa, é sempre com o grupo dos fiéis políticos.

4) Existe o Ocidente e o resto do mundo – ou, para empregar o vocabulário de Francisco, a “periferia” e o “centro”.

Francisco é um homem da periferia, tanto em termos geográficos, na qualidade de primeiro papa vindo de um país em desenvolvimento, como em termos de valores e visão de mundo.

Consequentemente, o seu forte apelo sempre irá se encontrar aqui e, até certo ponto, os centros históricos da fé nem sempre o verão como exatamente o papa “deles”.

5) Existe a classificação pela classe social e econômica.

A ênfase incessante de Francisco na pobreza, não apenas como uma preocupação social, mas também como um valor espiritual, tem deixado alguns católicos de classe média e rica ambivalentes, perguntando-se se ele, o papa, enxerga alguma virtude neles e em seus estilos de vida.

Dito de forma direta: às vezes o papa os faz se sentirem culpados, o que sempre é uma sensação desagradável.

Um pouco desta culpa pode servir como um estímulo saudável para um exame de consciência, mas um pouco dela pode revelar um papa que não encontrou bem um jeito de alcançar as pessoas que conquistaram a prosperidade para si mesmas e suas famílias através do trabalho árduo, com integridade, e que não querem sentirem-se desprezadas por isso.

Em suma, disse ao meu colega que, se formos elencar categorias de católicos com quem Francisco pode ter problemas, existem pelo menos sete subconjuntos se sobrepondo: católicos “deep”, progressistas e conservadores, pessoas que sentem ansiedade diante das mudanças, tipos políticos, aqueles nos centros e os (relativamente) ricos.

A resposta de meu colega? “Isso é demais complicado”, segundo ele.

Bem-vindo ao meu mundo, caro amigo.

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