Rio Doce não morreu, mas será lento, caro e difícil recuperá-lo

Revista ihu on-line

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Mais Lidos

  • Mudanças climáticas: uma oportunidade para a teologia se libertar do passado. Artigo de Bruno Latour

    LER MAIS
  • O extermínio na hora do almoço. Artigo de Corrado Augias

    LER MAIS
  • Pedofilia, relatório sobre a diocese de Ratzinger: 497 vítimas. O Papa Emérito é acusado de negligência em 4 casos. Santa Sé: “Vergonha”

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


20 Novembro 2015

"Junto com o lodo deslanchou uma onda de desinformação alarmista, que pôs muita gente em pânico sem necessidade", afirma Marcelo Leite, em artigo publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, 20-11-2015.

Eis o artigo.

Não há como minimizar, desmerecer ou relativizar a tragédia ambiental com o derrame de lama da mineradora Samarco em Mariana (MG). Tampouco é o caso de fechar os olhos para a avalanche de desinformação que a acompanhou.

O impacto do desastre sobre a fauna local é gigantesco. Isso para não falar da perda de vidas humanas e de recursos naturais para centenas de milhares de pessoas.

Os 60 bilhões de litros de rejeitos misturados com água revestiram o fundo de longos trechos do rio Doce e seus afluentes. O aumento brutal da turbidez reduziu a zero a entrada de luz na coluna de água, que pode difundir-se por 4 metros ou 5 metros mesmo em rios barrentos.

Sufocaram nesse lodo escuro os organismos - algas, crustáceos, peixes - que tiveram o azar de viver nas imediações da catástrofe. A biota local, pode-se dizer, foi literalmente sepultada.

Recuperar a biodiversidade na área mais próxima do desastre será um trabalho lento, tecnicamente difícil e muito caro, é provável que na casa de bilhões de reais. Os proprietários da Samarco terão de arcar com essa despesa.

Há coisas que não têm preço, contudo. Alguns peixes só existem por ali, como o surubim-do-doce (Steindachneridion doceana), e podem até desaparecer para sempre, mas é difícil afirmar isso agora. No mais, a bacia do Doce conta com 71 espécies de peixes, das quais 11 já estavam ameaçadas de extinção.

O rio, afinal, já se achava sob enorme pressão antes de romper-se a barragem de Fundão. Como de hábito no Brasil, poucos são os municípios, entre os 228 banhados pelo Doce, com tratamento adequado de esgotos domésticos e industriais, que chegam in natura à água.

Há que levar em conta, porém, que o rio Doce tem 853 km de extensão. Os sedimentos mais pesados derramados pela Samarco tendem a depositar-se perto do local do desastre. Os detritos carreados pela água até o Espírito Santo são muito mais finos e têm como maior impacto o aumento da turbidez.

Só de afluentes principais o Doce tem 16, cujas vazões servem para diluir toda a poluição despejada desde as cabeceiras na serra da Mantiqueira. A interrupção do fornecimento de água não deverá durar mais que alguns dias ou semanas.

Quem duvidar da resiliência dos rios e de sua capacidade para a recuperação deveria considerar o exemplo do Tietê. Imundo e morto nas cercanias da capital paulista, ele corta 62 municípios e, depois de percorrer cerca de mil quilômetros, deságua em condições boas no rio Paraná.

Muito se tem falado na presença de metais pesados na lama derramada pela Samarco, mas até agora, salvo desinformação minha, isso não foi comprovado e medido.

Junto com o lodo deslanchou uma onda de desinformação alarmista, que pôs muita gente em pânico sem necessidade.

A responsabilidade por isso, é evidente, não cabe só a quem falou demais. Em primeiro lugar, a culpa recai sobre as empresas envolvidas e sobre os governos mineiro e federal, que falaram de menos e demoraram a agir para conter os efeitos materiais e simbólicos de uma das maiores catástrofes ambientais do Brasil.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Rio Doce não morreu, mas será lento, caro e difícil recuperá-lo - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV