Charamsa: “Não podemos continuar odiando a comunidade homossexual, porque assim odiamos a nossa própria humanidade”

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Por: André | 06 Outubro 2015

O morto na frente e a gritaria atrás; assim são sempre os acontecimentos inesperados e provocadores, como o do padre polonês Krysztof Olaf Charamsa, que, sob o céu resplandecente e desafiante da Cidade Eterna, declarou ser homossexual em uma entrevista coletiva concedida no Restaurante Al 59.

 
Fonte: http://bit.ly/1hnOWJk  

A reportagem é de Diego Meza e publicada por Religión Digital, 04-10-2015. A tradução é de André Langer.

O clérigo recordou Fellini no início da sua intervenção: “É preciso tomar a vida e enfrentá-la com todo o coração e uma salutar razão; por isso, estou aqui”. Não foi fácil. De fato, foi possível perceber que pulsou em vários ritmos em suas declarações: jovial e atento à sua chegada, pensativo e ansioso no começo da sua declaração, contundente ao fazer suas demandas, diáfano e sereno ao expor suas inquietações, nostálgico, alternando paixão, medo e ternura do princípio ao fim.

Para quem busca pescar em rio agitado, o professor da Gregoriana e do Ateneu manifestou desde a abertura seu grande amor pela Igreja: “Quero dizer à minha Igreja, à minha comunidade, que a amo, à Igreja a que dei a minha vida, que devemos começar a dialogar com o homem deste tempo. Nenhuma família pode ser excluída, especialmente de uma comunidade que guarda em seu coração a mensagem da salvação”.

Conhecedor do crucial momento que vive a Igreja, ele pediu para dialogar com serenidade, seriedade e calma especialmente sobre temas de polarização, ideologização e que ainda suscitam medo: “Necessitamos de um diálogo benévolo, não dialogamos o suficiente. A Igreja tem que dar uma palavra boa a quem se sente discriminado, deve optar pelo bem comum, não apenas pelo bem de uns poucos”.

Não enrolou, nem em relação à sua própria confissão, com os perigos que o sacodem, nem em relação às experiências de outros de seus irmãos. “Dedico-o a muitos e fantásticos padres homossexuais que não podem ou não têm as forças para saírem do armário; que sejam felizes, porque são ótimos ministros, porque se libertaram de toda homofobia. Dedico-o à minha família que amo simplesmente, que não sofram a mentalidade homofóbica coletiva que deverão enfrentar”.

O Pe. Charamsa, que se emocionou em vários momentos do seu discurso, disse: “Denuncio a exasperada e paranoica homofobia do nosso ambiente. Atitude irracional, injusta, incapaz de estudar a realidade, matizada pelo doutrinarismo que não é compatível com o Evangelho. Não podemos odiar a comunidade homossexual, porque ao fazê-lo estaremos odiando a nossa própria humanidade. Denuncio o desesperado e paranoico ódio dos meus irmãos”, e com a sinceridade de quem sabe na realidade o que está acontecendo, disse: “Sou um pobre membro desta comunidade, um pobre padre. Devo pedir perdão pela discriminação da comunidade homossexual, à fantástica comunidade homossexual pela estigmatização, marginalização, porque na Igreja não são assistidos, são excluídos. Peço misericórdia a Deus por este pecado. Abram os olhos às angústias dos homossexuais, à decisão de amor, tenham um mínimo de respeito”.

Feita às vésperas do Sínodo, esta declaração, no meu modo de ver as coisas, não é ofensa mal intencionada, tampouco uma demonstração de imprudência, mas uma expressão real do que acontece com os bons filhos que esperam a ação evangélica da Igreja que amam, e seu atraso em confessá-lo, como sugerira um jornalista, nascido do medo suscitado pelo ambiente inspirado pela norma e pelo castigo.

No manifesto que integra vários pontos, o segundo secretário da Comissão Teológica Internacional exige: abandono da mentalidade e linguagem de ódio, discriminação e perseguição a toda a comunidade homossexual, a possibilidade de um trato civil igualitário perante o casamento, a revisão do Catecismo da Igreja católica nos números que expõem sua posição sobre a homossexualidade, a revogação de vários documentos que consideram o homossexual incapaz de receber as ordens sagradas, assim como a serena reflexão imparcial, interdisciplinar sobre este tema, livre da ideologização do lobby gay da Igreja. Revisão dos textos bíblicos evitando qualquer fundamentalismo, um diálogo ecumênico com os evangélicos e anglicanos e abrir os olhos para atender melhor os cristãos homossexuais que podem e devem ser respeitados em sua natureza e orientação como saudáveis, beatos e santos.

Oxalá, este canto libertador que ressoou em Roma não receba como resposta: “Vão cantar para Gardel”. Embora, como o próprio padre asseverou, “estou preparado para receber a vontade de Deus, não a resposta do Vaticano”.

Esperamos nestes tempos de primavera eclesial que estas pessoas e outras histórias que interpelam e buscam libertar e redimir a Igreja e o mundo não acabem sendo cravadas barbaramente em um suplício por aqueles que juraram dar a vida para descer do madeiro os crucificados. Que este canto redentor não termine crucificado. Basta daqueles que buscam pregar a moral de cuecas.

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