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Por: André | 06 Outubro 2015

De acordo com vários intelectuais de esquerda e de direita, a França encontra-se em uma irrecuperável ladeira abaixo, porque a cultura francesa está em uma fase moribunda ou porque a imigração esvazia os fundamentos da identidade nacional.

A reportagem é de Eduardo Febbro e publicada por Página/12, 04-10-2015. A tradução é de André Langer.

A nova corrente do pensamento francês é um hino à depressão, um ato de flagelação pública cujo chicote é o pessimismo, a tristeza e a repetida ideia de que a França está à beira do abismo. Vários intelectuais, de esquerda e de direita, converteram-se nos porta-vozes recorrentes de uma convicção segundo a qual seu país encontra-se em uma irrecuperável ladeira abaixo, que a cultura francesa está em uma fase moribunda ou que a imigração esvazia os fundamentos da identidade nacional.

Os vizinhos europeus da França conhecem a mesma crise, assimilam os mesmos fluxos migratórios, mas em nenhum deles seus intelectuais fizeram desta configuração uma teoria do ocaso. O filósofo e ensaísta Michel Onfray, o polemista Eric Zemmour, o escritor Michel Houellebecq, o filósofo Régis Debray ou o ensaísta Alain Finkielkraut são os apóstolos desta corrente que irriga a sociedade com uma filosofia que consagra toda a sua energia para diagnosticar a morte da cultura. Sudhir Hazareesinght, professor em Oxford e autor de um excelente ensaio sobre estes temas, Esse país que adora as ideais (Ce pays qui aime les idées), qualifica-o de “movimento quase filosófico de pessimismo e queda na França”.

Não cabe perguntar: o que está acontecendo com a França? Com a França acontece o que está acontecendo com o mundo. A pergunta é: o que acontece com os intelectuais, muitas vezes oriundos da esquerda, cujas teses cruzam as águas da extrema direita? A resposta progressista também não aparece em nenhum lado, a “pensée de gauche” esfumaçou-se da cena e estes pensadores passam a invadir todo o espectro dos meios de comunicação com seus desencantos e sua dialética do fracasso.

Michel Onfray, Eric Zemmour, Michel Houellebecq, Régis Debray ou Alain Finkielkraut – estes cinco pensadores têm, além disso, a cara do que vendem: os três primeiros são de um pedantismo autoritário que dá medo, os dois últimos, de uma tristeza desértica. Estes neopessimistas obtêm sucessos editoriais assombrosos.

O livro de Eric Zemmour, Le suicide français (O suicídio francês), superou os 500 mil exemplares vendidos. Homófobo, sexista, anti-estrangeiros, O suicídio francês (o título já gela o sangue) retrata uma França em irrecuperável declínio, ferida no mais profundo da sua identidade pelo multiculturalismo, pelos homossexuais, pelas mulheres, pelos estrangeiros e pela permanência das conquistas que certa esquerda hoje espectral soube começar a partir dos anos 1960. De acordo com este polemista, a França morre sob o peso da liberdade dos costumes, pelo retrocesso da “família, da nação, do trabalho, do Estado, da escola”. Zemmour promove uma sociedade colonial e branca.

Nas vitrines do horror aparece também Michel Houellebecq e seu livro Submissão (600 mil exemplares vendidos). O romance foi celebrado como uma obra literária, mas é, na realidade, um panfleto entediante, uma infusão racista e sem fôlego, triste como seu autor, que narra uma França governada por um islâmico, Mohammed Ben Abbes, candidato do Partido Irmandade Muçulmana. Nesse romance cheio de bocejos e obsessões de um idoso medroso, a Universidade de Sorbonne passou a ser um centro de estudos islâmicos onde as paredes exibem versos do Corão.

O mesmo nacionalismo xenófobo e a obsessão pelo fim da cultura francesa ou sua contaminação atravessam a obra do filósofo Alain Finkielkraut. Os debates que gera são um prolongamento do seu livro A identidade infeliz. A palavra “identidade” substituiu o conceito de República e a defesa do “autóctone” o princípio do universalismo. A França, em sua prosa, está se desvanecendo por culpa do esvaziamento cultural e da imigração. A globalização e a esquerda são, assim, os responsáveis pela contaminação. Dali previne também a sanha contra as heranças da esquerda e suas inclinações à diversidade cultural e ao direito das minorias. Esses defensores da diversidade são chamados de “islamoesquerdistas”.

O extenuante e inesgotável Régis Debray volta a brilhar nas primeiras páginas dos semanários com um arrazoado no qual (semanário Le Point, de direita) o intelectual “destrói a esquerda”. Há muito que essa esquerda viaja na ambulância, mas a moda vibra com os arrazoados envenenados, o silêncio dos atacados e as tramas mórbidas sobre a substituição da essência francesa pelos semelhantes oriundos de outras culturas e religiões. O professor Sudhir Hazareesinght (Esse país que adora as ideias) qualifica esta corrente de neoconservadores de “nacionalismo étnico”. O outro e a esquerda foram sentados no tribunal do presente.

O caso do filósofo Michel Onfray é ainda mais alarmante. Passou da extrema esquerda a abraçar os ideais daquilo que na França se chama de “soberanistas”, isto é, a ideia política que antepõe a soberania a qualquer outra instância (neste caso as europeias). Também converteu-se em um paladino contra a Europa e a esquerda, que ele acusa de ter abandonado o povo francês para consagrar-se aos imigrados. Embora Onfray se defina como um “soberanista de esquerda”, acontece que o soberanismo é um dos motores da extrema direita da Frente Nacional.

Em meados de setembro, o matutino Libération acusou Onfray de “fazer o jogo” da ultradireita, de ativar a ofensiva “não contra a direita, mas contra a esquerda”. A trama de seu pensamento é mais culta, mais sutil, mas similar: assim, por exemplo, questionou a foto do menino (Aylan) encontrado afogado em uma praia da Turquia. A imagem, segundo ele, teria servido para manipular a opinião pública e sensibilizá-la diante do drama dos refugiados. Algo parecido repetiu a Frente Nacional.

Seu nacionalismo étnico é desvendado quando afirma (entrevista ao jornal conservador Le Figaro): “O povo francês é desprezado desde que Miterrand (ex-presidente socialista francês, 1981-1995) converteu o socialismo na Europa liberal. Esse povo, meu povo, foi esquecido em proveito de pequenos povos de substituição” (ou seja, palestinos, homossexuais, indocumentados). Onfray, na realidade, desenvolve as mesmas obsessões que os outros autores. A França, ou seja, o centro, está sendo substituída por uma cultura marginal (estrangeiros, homossexuais, etc.). A impureza que carcome a nobreza e a torna decadente.

“Declinistas” (a França está se afundando), “diferencialistas” (nós antes que os invasores), “substitucionistas” (a cultura francesa está sendo substituída): estas são as três bandeiras de uma filosofia empapada de saudade de um Jurassic Park compartilhado pela extrema direita. Os ataques do Libération contra Michel Onfray suscitaram uma reação de um egocentrismo muito parisiense: no próximo dia 20 de outubro, a “esquerda” se reúne na sala da Mutualité de Paris (emblema dos comícios socialistas) para apoiar o ofendido filósofo.

A Frente Nacional não deixa escapar o benefício da convergência entre ela e esta esquerda soberanista e entristecida. Acontece que, precisamente, esses intelectuais supermidiáticos promovem melhor que ninguém suas ideias. Em vista do comício do próximo dia 20 de outubro, seu tesoureiro, Bertrand Dutheil de La Rochère, publicou uma tribuna no portal da Frente Nacional convidando os intelectuais de esquerda para entabularem um diálogo. A Frente Nacional vê claras pontes entre estes turvos moralistas da identidade e o umbigo e seus ideais.

O dirigente frentista convoca para um “diálogo sem concessão” toda essa esquerda que “denuncia a traição dos partidos que ainda se dizem de esquerda. Esses partidos que escolheram a globalização ultraliberal em nome da Europa. Esses partidos que confundem o internacionalismo com as migrações em massa que pesam sobre os nossos salários e desmantelam a proteção social”.

Em suma, o mundo contra a França. O grande, sutil e universal espírito rebelde da Europa está enfeitiçado por um partido excludente e uma corte de plumíferos tristes e etno-obsessivos, neuróticos da identidade e chatos como um tango desafinado.

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