Um problema: nossas liturgias

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Por: André | 31 Julho 2015

“Deverá passar ainda muita água por debaixo da ponte antes que a liturgia católica se torne compreensível, celebrativa, compartilhada, santificadora da vida. Estamos falando da grande tarefa de evangelizar o século XXI, do compromisso com a missão permanente, de falar uma linguagem de palavras e sinais compreensíveis para o mundo de hoje. Mas não se nota nenhuma mudança pela frente; pelo contrário, vê-se muitos retornos ao passado.”

A análise é de José Agustín Cabré e publicada por Religión Digital, 29-07-2015. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Boa parte dos católicos que vão às igrejas aos domingos é idosa. Podem recordar, portanto, a surpresa e o alívio que significou em sua experiência religiosa, há 50 anos, as mudanças introduzidas pelo Concílio Vaticano II na liturgia dos sacramentos e na missa: foram convidados a passarem de “assistentes” a “participantes” nos ritos e no culto. Passou-se do tempo em que se “ouvia missa” para o tempo em que se “celebra a missa”.

Com o passar do tempo, foi possível comprovar que essas reformas não foram tão completas como se esperava: os católicos continuam assistindo à missa como a um espetáculo onde eles são o público e os atores são outros: o padre, os acólitos, os ministros, os leitores, o coro... tudo distribuído em um espaço acomodado como um teatro: um público que olha a certa distância a atuação de alguns disfarçados que estão no palco.

Da Eucaristia, a grande ação de graças a Deus pelo dom da vida, mediante a experiência humana de Jesus de Nazaré, com sua vida, paixão, morte e ressurreição... resta, na realidade, bem pouco.

Uma linguagem desconhecida

Houve algumas mudanças, é verdade: passou-se do latim – que ninguém entendia – ao idioma de cada país. Mas não se mudou o nefasto sistema da leitura continuada da Bíblia. No afã de que o povo escute alguma vez toda a Bíblia, mantiveram-se na missa as leituras (Antigo e Novo Testamento, mais os Evangelhos), lendo, na sequência, do Gênesis ao Apocalipse e em um período de três anos; a ideia, se alguma vez foi boa, fracassou na prática. Com este sistema, o povo católico tem que escutar o que cabe ler nesse dia, seja qual for a experiência vital que esteja vivendo.

Ainda são poucos os pastores que abandonam esse sistema de preparação e se atrevem a buscar as leituras mais apropriadas para cada ocasião; isto exige tempo de preparação, bom critério de discernimento e capacidade de diálogo com as equipes de leigos. Também pode exigir integridade para dar explicações ao bispo que, necessariamente, defenderá o outro esquema imposto de Roma.

Mas não é a única mudança para que a missa seja realmente Eucaristia. Se, como diz a catequese, com mais poesia que segurança, se trata de uma comunidade a modo de família que celebra sua fé, alimenta sua esperança e vive a caridade, a missa deveria contar com um ambiente atraente e com sinais compreensíveis e didáticos.

Improvisações

Em um dos seus textos incisivos, mas verazes, o jornalista Raúl Gutiérrez, que se considera um cristão de base e de mentalidade ampla e pluralista, escreveu:

“A sensação que se tem com frequência ao sair de alguma missa dominical é a improvisação, como se o padre e os encarregados da cerimônia não estivessem muito convencidos da importância e da solenidade do ato.

Em poucas igrejas os fiéis são acolhidos na porta pelo padre ou por leigos que os saúdem e entreguem uma folha com os textos bíblicos que serão lidos na celebração. Como a maioria chega atrasada, é frequente que a missa inicie sem a presença de uma exígua participação, que terminará engrossando apenas durante a homilia. A improvisação da equipe encarregada da missa se percebe nos cochichos entre o dirigente e os leitores, e inclusive entre o celebrante e seus acólitos, atitudes que, somadas a deslocamentos nervosos e espalhafatosos deste pessoal em torno do altar e para a sacristia, distraem a comunidade.

Deixando de lado toda consideração ou exigência de caráter estético, cabe assinalar que a maioria dos coros maneja um estilístico repertório de músicas litúrgicas, o que explica que com frequência entoe algumas músicas que guardam pouca ou nenhuma relação com a festa que se celebra ou com o ensinamento básico do Evangelho desse domingo. Abandonar os coros, para chamá-los de alguma maneira piedosa, à boa vontade de Deus, demonstra pouca compreensão do significado da música como meio universal de comunicação, sobretudo no caso dos jovens.”

Uma liturgia que não convence

As anotações do jornalista são interessantes. Mas, lamentavelmente, deverá passar ainda muita água por debaixo da ponte antes que a liturgia católica se torne compreensível, celebrativa, compartilhada, santificadora da vida. Estamos falando da grande tarefa de evangelizar o século XXI, do compromisso com a missão permanente, de falar uma linguagem de palavras e sinais compreensíveis para o mundo de hoje. Mas não se nota nenhuma mudança pela frente; pelo contrário, vê-se muitos retornos ao passado: alguns chegam à paranóia de querer voltar ao latim, de colocar ainda mais penduricalhos nas vestimentas dos clérigos, de incorporar de modo permanente o incenso nas liturgias...

O mundo do século XXI olha para eles, ri-se e segue seu caminho buscando, quase desesperadamente, quem o acompanhe em sua caminhada pela vida. Os grandes valores do Reino de Deus, aqueles que nos humanizam, seguem sem ser descobertos, porque se quer colocar muitos trapos sobre ele.

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