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23 Julho 2015

Orango Quango

Há uma semana, estava indo com amigos à praça Syntagma para participar dos protestos durante a votação do primeiro pacote do novo memorando; hoje, estarei acompanhando os protestos e a votação do segundo pacote desde a temperatura mais amena (pois é) do Rio de Janeiro.

Inevitável deixar Atenas com um certo gosto de fim de feira: quando eu cheguei, o metrô era de graça, e quando eu fui embora ele não era mais. O aumento do imposto sobre consumo também entrava em vigor na segunda, bem como — curiosa coincidência — a volta dos bancos ao funcionamento normal. “Maldita normalidade”, como disse Hibai Arbide Aza ( http://ctxt.es/es/20150715/politica/1939/Grecia-vuelve-a-la-%28maldita%29-normalidad-Grecia-Europa-crisis-Syriza-Tsipras.htm#.Va1PJ2be2l0.twitter ). É difícil ver os primeiros efeitos do novo memorandum sem ter a impressão de que aquela breve pausa de cinco meses para respirar e ter esperança veio e já se foi, como essa música que gravei três garotos magros tocando no metrô em troca de dinheiro.

(Esta postagem atrasou tanto, entre outras coisas, porque eu queria compartilhar a gravação de audio, mas o único jeito de o FB me deixar fazer isso era.. fazendo um video! Fiz esta porcaria aí embaixo só para isso.)

Passou mesmo? Pode ser que, tal como a conhecemos neste breve intervalo, sim. Mas todas as conversas que tive em Atenas, com gregos, não-gregos e até membros do Syriza, convergem num ponto: ainda não ouvimos o fim dessa história.

A história não acabou por causa daquilo que se tem dito desde que este inferno começou há cinco anos: a única solução para o caso grego é parar de fingir que uma economia em recessão pode ter doses cavalares de políticas contracionistas impostas sobre ela e voltar a crescer; parar de fingir que cada novo pacote de "apoio" é sobre outra coisa que não a recapitalização dos bancos, e que o dinheiro não entra por um lado e sai imediatamente pelo outro, enquanto se exige contrapartidas cada vez mais irreais do estado e, em última análise, da população grega; parar de fingir que isto é outra coisa que não, em pleno mundo desenvolvido, em plena Europa, em pleno século XXI, um povo sendo extorquido pela banca internacional até chegar a indicadores absurdos como um aumento de 43% da mortalidade infantil ( http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736%2813%2962291-6/abstract ), 35% no número de suicídios ( http://www.keeptalkinggreece.com/2015/06/25/study-austerity-in-greece-led-to-tragic-increase-of-35-in-suicides-in-just-two-years/ ) e 21% da população abaixo da linha de pobreza ( http://www.ansamed.info/ansamed/en/news/nations/greece/2012/04/06/visualizza_new.html_162378646.html ); simplesmente parar de fingir que existe outra saída que não uma moratória e a eliminação de uma dívida impagável.

Não acabou porque o que aconteceu no fim de semana retrasado é muito grave e marca uma ruptura subjetiva importante para boa parte da população europeia. A União Europeia era a promessa de que nunca mais haveria guerras entre os países europeus, a realização de um imaginário da Europa como força civilizatória e progressista no mundo. O que se viu foi um governo democraticamente eleito de um país europeu ser tratado com a mesma truculência que este mesmo projeto "civilizatório" normalmente exportou para fora de suas fronteiras e sujeitado a uma situação neocolonial. Para bastante gente, not least espanhóis, portugueses, irlandeses, italianos e todo mundo mais que sabe que a coisa pode ser com eles amanhã, isto tem um peso enorme, como indicou o sucesso do #ThisIsACoup.

Isto gera medo, é claro, o que era evidentemente o objetivo; mas também gera raiva, um afeto capaz de superar o medo, e provoca questões até bem pouco impensáveis. Já se ouve vozes dentro do establishment (como o FMI) dizerem abertamente que a situação grega é' insustentável; o racha entre Merkel e Schäuble cresce, e o ministro da economia alemão insiste que a opção de um Grexit segue na mesa. O desgaste entre França e Alemanha, e para a diplomacia alemã em geral, é alto, e há um risco de que a extrema direita se beneficie. Mais e mais pessoas nas ruas se perguntam se não tornou-se necessário desmantelar a união monetária e promover uma repactuação das instituições europeias tão forte e profunda que poderia por em risco a manutenção da própria UE.

Não acabou, portanto, porque este acordo pode muito bem demonstrar-se inimplementável já no curto prazo, e porque o equilíbrio de forças está em fluxo, na Europa como um todo, dentro dos diferentes países, e evidentemente também na Grécia, também dentro no Syriza. Como reagirão os gregos? Aceitarão a inevitabilidade da capitulação, o fim do sonho do fim da austeridade? Ou, quando os efeitos de uma rodada ainda mais draconiana começarem a ser sentidos, veremos um novo ciclo de lutas? O que uma nova mobilização e reorganização social significará para a esquerda parlamentar? O balanço de forças mudará dentro do Syriza também?

Embora tenha reservas a alguns pontos levantados nesta segunda por Stathis Kouvelakis ( https://www.jacobinmag.com/2015/07/greece-debt-euro-grexit-kouvelakis/ ), concordo com o que está subentendido aí: a grande, decisiva incógnita no momento é qual será posição de Tsipras e da liderança do partido. Assumir a execução dessa paz cartaginense como sua nova missão, a ser executada a todo custo, implica inevitavelmente seguir governando com Nova Democracia, To Potami e Pasok e um racha com a Plataforma de Esquerda -- o que seria o fim definitivo desta breve experiência, e provavelmente o fim da perspectiva de um governo de esquerda anti-austeridade nos próximos anos, bem como um baque para o Podemos e outros novos partidos em outras partes.

Muito melhor seria se mantivesse uma porta aberta discretamente aberta para um Grexit, desenvolvendo uma espécie de jogo duplo onde a resistência à implementação do acordo servisse para preparar o terreno ou de uma ruptura ou de uma renegociação, o que permitiria ao partido sobreviver na medida em que negociasse esta tensão interna.

Isto, porém, bem possivelmente não é mais que o meu desejo falando. Em todo caso, a votação de logo mais, cujo resultado deve ser semelhante àquela da semana passada, pode nos dar novas indicações.

Ricardo Timm de Souza

"O conceito de “crise” de fato tem se tornado o mote da política moderna e tem sido por muito tempo parte da normalidade em qualquer segmento da vida social. A palavra expressa duas raízes semânticas: a médica, que se refere ao curso de uma doença, e a teológica, que remete ao Juízo Final. Ambos significados, no entanto, sofreram uma transformação hoje, que os desprovê de sua relação com o tempo. “Crise” na medicina antiga remetia a um julgamento, ao momento decisivo em que o médico percebia se o doente sobreviveria ou não. A concepção atual de crise, por outro lado, se refere a um estado duradouro. Assim, essa incerteza é estendida ao futuro, ao infinito. É exatamente o mesmo com o sentido teológico: o Juízo Final era inseparável do fim dos tempos. Hoje, no entanto, o juízo é divorciado da ideia de resolução e repetidamente adiado. Então o prospecto de uma decisão é cada vez menor, e um processo interminável de decisão jamais se conclui." - Giorgio Agamben

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