“A reforma pode ter sucesso”. Entrevista com Panicos Demetriades

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Por: André | 14 Julho 2015

Traidor ou pragmático? Capitulação ou realismo? A proposta que o governo do primeiro ministro grego Alexis Tsipras apresentou à Eurozona é quase igual àquela que o mesmo convidou para rechaçar no referendo do dia 05 de julho que terminou com 61% dos gregos votando contra a austeridade. Agora, como um moderno Sísifo, Tsipras acaba de propor o mesmo pesado ajuste para evitar uma saída grega do euro para o que, como disse o mesmo, “não temos um mandato da população”.

Muitos meios de comunicação europeus, extremamente críticos com sua liderança, pareciam regozijar-se com esta mudança de posição que chamaram de “capitulação”, mas outros são da opinião de que a proposta estará acompanhada de uma reestruturação da dívida, de um empréstimo especial para pagá-la nos próximos três anos e a aparente promessa do presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker de um pacote de estímulo. Em todo o caso, as concessões gregas não significam que o terceiro resgate seja um fato nem que se reabram os bancos e se elimine o corralito [restrição de saques] que está em vigor desde o dia 29 de junho.

O economista grecocipriota da Universidade de Leicester e ex-presidente do Banco Central do Chipre durante o corralito cipriota de 2012, Panicos Demetriades conversou com o Página/12 sobre o panorama que se abre para a Grécia a partir desta proposta.

A entrevista é de Marcelo Justo e publicada por Página/12, 11-07-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

A proposta do governo de Tsipras desconcertou quase todo o mundo porque é quase igual àquela proposta que ele mesmo convocou para rechaçar no referendo do início do mês. Serve para que a Grécia saia da crise?

Por si só não. Terá que contar com um alívio da dívida e um pacote de estímulo. Mas há reformas na proposta que são importantes, como a reforma do sistema de impostos ou a desregulamentação trabalhista. O grande problema é que todos os acordos anteriores provocaram uma terrível recessão, porque calcularam muito mal o impacto do ajuste, razão pela qual as pessoas perderam a confiança neste tipo de acordo. Nisto o FMI tem uma responsabilidade de 100%, porque calculou mal o impacto que a austeridade teria sobre a produção e o emprego. Creio que se agora se combinar o alívio da dívida, o estímulo e a reforma, pode ter sucesso. Não será fácil, mas é possível.

Um problema é que o alívio da dívida não figura na proposta.

Não, mas há um consenso generalizado de que é necessário. Angela Merkel disse que não haveria uma clássica redução da dívida. A palavra chave aqui é “clássica”. Os alemães dizem que não é possível legalmente que o governo elimine 30% da dívida. Mas a verdade é que há um outro tipo de redução que, sim, é possível. Se reprogramarmos os prazos da dívida ou se digo que durante 20 anos a taxa de juros da dívida é 0%, estou conseguindo a mesma coisa. É o que quer o governo do Zyriza.

E você pensa que a oferta estará definitivamente sobre a mesa.

Hoje o ex-ministro de economia Yanis Varoufakis disse algo em grego que me chamou a atenção: “Melhor garantir-se colocando esta oferta por escrito”. Ou seja, ele dá a entender que a oferta existe. Este é o plano. Um modo de aliviar a austeridade e uma pequena vitória para Tsipras, que justificaria o referendo e a atual oferta que, como você disse, é quase igual àquela proposta que o eleitorado grego rechaçou no referendo. A isto se poderiam somar os 35 bilhões de euros que Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, prometeu à Grécia. Ambas as coisas mitigariam muito o efeito recessivo.

Mesmo assim muitos falam em capitulação ou traição.

Em nível doméstico, Tsipras mostrou muita habilidade esta semana porque conseguiu um acordo com os partidos que defenderam o “Sim” no referendo. Dessa maneira, mesmo se alguns membros do Syriza forem contra o acordo, terá maioria no Parlamento. Isto o converte mais em um líder de toda a Grécia. Quanto à capitulação, Tsipras pode dizer que agora o alívio da dívida está sobre a mesa, ao passo que antes não estava. Porque não aceitou a oferta anterior e convocou um referendo? Não sei. O referendo nunca me pareceu uma boa ideia, mas imagino que precisava demonstrar que tinha um mandato. Pode-se dizer que é um demagogo ou que é um líder de extraordinário talento. Ouvindo-o falar em grego, não há dúvida de que tem grande carisma e oratória. Com esta crise veremos a solidez que há por trás da oratória.

Isto também requer a aprovação de outros Parlamentos.

Tudo depende do que a Alemanha vai fazer. Se o parlamento alemão o aprovar, o resto também o fará. Os setores duros da Alemanha vieram a público fazer declarações, mas não porque realmente acreditem que podem ganhar, senão para ficarem melhor situados politicamente. Não creio que haja surpresas. A questão é que a Alemanha o aprove.

Você viveu uma crise similar quando estava à frente do Banco Central do Chipre.

O caso do Chipre tem semelhanças superficiais, mas era diferente. No Chipre, o governo queria colocar um imposto sobre os depósitos nos bancos e por isso teve que fazer um corralito para que não houvesse uma fuga de dinheiro, mas o problema não era de liquidez. Na Grécia, o problema é a dívida pública e a exposição dos bancos gregos a esta dívida. De modo que não bastará simplesmente ter um acordo e, em seguida, normalizar a situação bancária. O que se vai poder fazer é avançar rumo a uma normalização. Mas, para isso, necessita-se de um aumento dos empréstimos de emergência, o chamado ELA, do Banco Central Europeu. Enquanto isso, terão necessidade de manter os controles do capital.

Um exemplo destes controles que permanecerão por muito tempo é a possibilidade de sacar dinheiro no exterior, que deverá estar proibido, salvo para casos comerciais. Isto cria um problema burocrático. No Chipre, isso aconteceu conosco. Todos os giros de dinheiro tinham que ser solicitados para determinar se eram genuínos. Em muito pouco tempo tínhamos cerca de duas mil solicitações. Algumas eram genuínas, outras duvidosas. Mas a crescente quantidade nos obrigou a delegar lentamente o trabalho aos bancos. Ao perder o controle, inevitavelmente, há mais vazamentos no sistema. A realidade é que isto pode converter-se em um pesadelo em nível organizativo. Os controles deste tipo não podem durar muito tempo.

Se houver uma solução para esta crise, o euro estará a salvo?

Se houver uma solução para esta crise será um grande passo para frente. Uma saída da Grécia seria muito grave para toda a Eurozona, porque imediatamente os mercados buscariam o próximo candidato da lista. Mas, além disso, a Eurozona esteve muito concentrada nesta crise. Caso começar a ser solucionada, poderão concentrar-se sobre outros pontos que são necessários para avançar, como a maior integração da Eurozona, sem a qual o euro não poderá ter sucesso.

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