O estilo do Papa Francisco mudou. Entrevista com Andrea Gagliarducci

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05 Junho 2015

Andrea Gagliarducci: "O estilo do Papa Francisco mudou e está mudando o estilo de muitos jornalistas que agora têm de lidar com dinâmicas midiáticas diferentes daquelas do passado".

A entrevista é de Luis Badilla, publicada pelo sítio Il Sismógrafo. A tradução é do Padre Ramiro

Eis a entrevista.

Estimulante nosso encontro com Andrea Gagliarducci, correspondente do Vaticano de "AciStampa" (1): imediato, direto e sincero. Nenhum preâmbulo. Perguntas e respostas rápidas. O objetivo é ambicioso: tocar vários temas de forma concisa, "no estilo do Papa Francisco" - diz A. Gagliarducci - que responde imediatamente à primeira pergunta sobre o início de sua carreira:

"Fui formalmente credenciado como vaticanista em 2008, para o jornal La Sicilia. Naquele momento começou minha aventura. Com 20 anos de idade tinha começado a trabalhar no escritório da Revista em Roma, ocupando-me de política. Logo interessou-me as questões de bioética, e outras como ética e moral. Em 2005, na véspera da morte de João Paulo II, frequentando as aulas na LUMSA, pude assistir, durante vários dias, o que acontecia nos arredores da Praça de São Pedro. Ao mesmo tempo, dava-me certo desgosto em ver como alguns jornalistas tratavam aquela realidade particular. Os relatos, frequentemente, eram demasiado propagandísticos. Diante disso perguntei ao meu editor-chefe se eu podia escrever sobre o que via debaixo da janela do Papa Wojtyla. Desde então comecei a lidar com questões do Vaticano, ainda que a partir de um evento específico, incomum e extraordinário: um povo imenso acompanhando seu pastor até a morte".

Andrea Gagliarducci conta as diferentes e numerosas fases da sua formação jornalística, em particular os obstáculos superados na LUMSA, no âmbito da preparação teológica de base. À nossa pergunta sobre o que diria a um jovem que deseja ocupar-se de informação religiosa e eclesial e, especialmente, do Vaticano, ele respondeu: "A primeira coisa seria um convite à leitura constante, cuidadosa e o mais atualizada possível. Quem se ocupa com o Vaticano, o Papa e a Igreja, é verdade que aborda temas específicos, mas também é verdade que, se você não tem tiver um background mínimo, sólido e o mais universal possível, até mesmo um bom patrimônio de cultura clássica e um bom nível teológico de base, vai encontrar dificuldades enormes. Esta dificuldade é difícil de superar, e para fazê-lo, exige enorme e consciente empenho pessoal, isto é, interesse, desejo e convicção. A técnica jornalística pode ser aprendida mais ou menos facilmente. Mas as lacunas ou deficiências na cultura de base são mais difíceis de esconder, e muitas vezes vêm à tona de modo clamoroso. Uma última coisa, então, diz respeito à capacidade de observação, igualmente fundamental. Quem observa e analisa bem já percorreu um bom pedaço do caminho".

Um bom vaticanista tem que ser necessariamente um bom católico?

"Não. Mas deve ser uma pessoa séria e respeitosa. Meu professor, Benny Lay, não era católico. Era um profissional extraordinário, tinha grande capacidade de relatar as coisas da Igreja. Aproveito para dizer que outra exigência do aspirante vaticanista é a capacidade de exercício de narrar, talvez não esquecendo nunca o exemplo de Benny. Ele conseguia contar a história da Igreja com respeito e integridade, mesmo não sendo católico, porque olhava a vida da Igreja com honestidade. Ele observava com certa imparcialidade, mas ao mesmo tempo com participação, e aplicava uma espécie de princípio irrenunciável: para contar bem é preciso antes compreender bem."

Na tua opinião, quanto mudou o campo das informações do Vaticano, em particular desde a renúncia de Bento XVI até aos dias de hoje?

"Você sabe, eu tenho pouca memória histórica para dar um juízo completo. Também eu segui e observei atentamente a evolução das informações sobre o Vaticano e o Papa nos últimos anos. Não sei se agora está melhor do que no passado ou não. Acho que existem diferentes níveis. Do ponto de vista institucional, com Papa Francisco, pode haver mais dificuldades, porque como se sabe, ele é muito menos institucional que seus antecessores, e isto provoca momentos de surpresa. E muitas vezes você se encontra despreparado. Do ponto de vista jornalísticos muda pouco para nós enquanto operadores. Nós, independentemente do modo e do estilo de comunicação, e obviamente cada Papa tem o seu, como acontece com qualquer pessoa, nós devemos sempre tentar compreender, sobretudo compreender bem, para depois relatar bem. Dito isto, reconheço que o estilo do Papa Francisco mudou e está mudando o estilo de muitos jornalistas que agora têm de lidar com dinâmicas midiáticas diferentes daquelas do passado. Acho que nesta questão, porém, há um ponto importante: independentemente do estilo de comunicação do Papa e da Santa Sé, o jornalista - especialmente o vaticanista - deve comportar-se de tal modo que sua credibilidade não diminua. Um bom jornalista é antes de tudo credível. Este é o seu patrimônio mais importante. Não se pode nunca perder de vista este horizonte".

"Dizer" o Papa Francisco é mais fácil?

"Depende do ponto de vista. Deixe-me explicar. É fácil narrar o Papa quando fala com pessoas porque é muito direto e se faz entender muito bem. Encontra-se logo uma forma de comunicar aos outros o que ele disse. Em vez disso, é mais difícil narrá-lo do ponto de vista dos conteúdos, porque, neste momento, é a parte mais escondida. Nos jornais, por exemplo, aparece muito o tema da reforma da Cúria, que não acredito de muito interesse para os leitores, para o grande público em geral, também porque sobre isto se informa preferentemente sobre questões técnicas, não fáceis de seguir. Esta informação não conta nada ‘do’ e ‘sobre’ o pontificado. Ela concentra-se em questões estruturais. Uma boa informação deveria ser antes capaz de dizer as razões que estão por trás de tudo isso. É isto que mais interessa aos leitores. Entender o porquê o Papa faz certas coisas, e como ele chegou a essas conclusões ou a essas decisões. Penso que há uma espécie de escala: primeiro, o relato da visão geral ou central, em seguida, as palavras do Papa, e, finalmente, a dinâmica estrutural.

Na tua opinião, existe ou não existe essa "visão central"?

"No caso do Papa, na minha opinião, existe. Devemos compreende-la, mas isso não é fácil. Certamente, o papa tem uma ideia precisa, e a desenvolve também com seu estilo de jesuíta, como fazia, por exemplo, o cardeal C.M. Martini. Suas palavras, muitas vezes, criam polêmica. Obviamente, o Papa tem sua ideia de Igreja e a desenvolve em pontos aparentemente desconexos, o que dificulta nosso trabalho. Do meu ponto de vista, não há uma ideia estrutural. Ele não parece interessado na funcionalidade da Igreja, talvez porque acredite que seja matéria para técnicos. Ele é um homem de governo, e nisso é forte, e sabe o que quer. O Papa está interessado principalmente no discurso pastoral e, portanto, muitas vezes, enfatiza a mensagem dirigida aos sacerdotes, pastores. Ele quer mudar a maneira de pensar e agir dos pastores, porque está convencido de que daqui, e somente a partir daqui, pode-se assumir novos caminhos, se a pastoral quiser dar respostas aos desafios atuais. De que modo ele quer realizar isso, eu realmente não sei".

A imprensa, na tua opinião, já está conseguindo ou não compreender este aspecto?

"Na minha opinião, ainda não. Frequentemente são atribuídos, às palavras e aos gestos do Papa, um significado de fundo que não estão lá. Fazemos interpretações exageradas, indo além do que o Papa disse ou quis dizer. Ele tem um estilo, coloca problemas, chama a atenção para questões pontuais, enfatiza interrogações... enfim, lança "provocações" no sentido nobre da palavra (ou seja, suscita uma reação, uma resposta ...) e, em seguida, remove o véu e insta a ver, pensar, refletir... Veja, o Papa Francisco, frequentemente, tem tocado em temas já abordados por Bento XVI e João Paulo II, e a imprensa faz um grande estardalhaço, como se fosse algo inédito. Este modo de comunicar-se não havia antes, no passado, quando estas questões eram tratadas pelos papas. Por quê? Porque o papa alemão, para fazer um exemplo recente, desenvolvia raciocínios complexos e articulados que nem sempre se conseguia transformar em linguagem jornalística. O problema da linguagem dos jornalistas para "dizerem" o magistério do Papa e da Igreja é um desafio permanente, que nem sempre se resolve bem. O Papa argentino é essencial e conciso. Vai direto ao ponto. Enquanto no caso de Bento XVI se preferia postergar, no caso de Francisco se faz até mesmo manchetes de primeira página. Poderia confrontar dezenas de tópicos: IOR, a corrupção, dever dos políticos e assim por diante. Circulam muitas narrativas que interpretam por excesso muitos fatos ou gestos. Quantas vezes lemos, no caso do Papa Francisco, coisas do tipo, "pela primeira vez o Papa ..." Mas não é assim. Frequentemente o Papa Francisco simplesmente renova tradições, palavras e gestos dos antecessores. Tem-se a impressão de que alguns jornalistas que se ocupam do Vaticano fazem a história da Igreja começar com o Papa Francisco.

Que tipo de relação há entre vaticanistas italianos e vaticanistas estrangeiros? Existem restrições?

"Há maneiras de informar diferentes, mas os jornalistas estrangeiros confiam muito nos italianos. De certa forma, o vaticanismo italiano ainda faz escola, embora nos últimos anos tem perdido terreno. Hoje, falta historicidade e visão de prospectiva. Além disso, deve-se levar em conta que os jornalistas estrangeiros são correspondente para toda a Itália e até mesmo o Mediterrâneo e, portanto, para eles, o Vaticano é apenas uma parte da área que devem cobrir. Vaticanistas estrangeiros estáveis e só para questões vaticanas é um fenômeno minoritário e recente. Obviamente existem diferenças, e estas estão ligadas à sensibilidade, ao estilo, à linguagem, em suma, à história e à cultura de cada país, o que me parece normal".

Como respondes àqueles que pensam que um certo modo de fazer informação vaticana parece obsoleto, ancorado às velhas categorias de leitura política, cordatas, conspirações, poderes em luta...?

"Neste caso, vejo dois problemas. O primeiro porque, por muitos anos, a grade da política, para ler e narrar os fatos ao grande público, era dominante, se não única. Acho que hoje já não é mais assim. Este modo de fazer informação vaticana está desaparecendo. Claro, para muitos operadores esta configuração ainda não mudou, mas estes são poucos. Por isso estamos, então, às vezes, diante de leituras e interpretações que fazem referência a grupos, cartéis e conspirações. No contexto de uma discussão ou de uma controvérsia interna na Igreja, entre reformistas e conservadores, era fácil cair e fazer uso dessas categorias e dessa linguagem. Depois, em segundo lugar, deve-se reconhecer que o jornalismo italiano é ainda um pouco provincial, carece de ótica e prospectiva internacional, e esse tipo de auto-referencialidade produz falhas."

(1) Andrea Gagliarducci trabalha para o ACI Group, no âmbito do qual é Vatican Analyst para a Catholic News Agency, e vaticanista para ACI Stampa. Entre os autores do site de informação religiosa korazym.org, gerencia o blog em língua inglesa Monday Vatican.

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