A renúncia do bispo Robert Finn: o resto da história

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07 Mai 2015

"Eu fui uma testemunha técnica em alguns dos processos civis. No final de alguns dos meus relatórios na seção de opiniões técnicas, escrevia: “A diocese continua a revitimizar as vítimas e a perseguir suas famílias emplacando um processo jurídico prolongado”. Os advogados de defesa nunca me desafiaram nesta minha disposição aparentemente infinita. E era verdade. Esconder-se por detrás do abuso do sistema jurídico parecia uma forma segura de se espancar as vítimas sem ser culpabilizado, mas isto não funcionou", escreve Thomas P. Doyle. em artigo publicado por National Catholic Reporter, 05-05-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Thomas P. Doyle, frade dominicano, é canonista e defensor das vítimas abusadas por sacerdotes católicos. É coautor do livro publicado em 2006 sob o título Sex, Priests and Secret Codes: The Catholic Church’s 2,000-Year Paper Trail of Sexual Abuse.

Eis o artigo.

O anúncio da renúncia de Dom Robert Finn foi uma tentativa típica, mas sem sucesso, da Santa Sé em amenizar a desagradável realidade de um bispo reprovado. Uma destituição disfarçada de renúncia. A necessidade absoluta de se responsabilizar os bispos teria sido muito melhor atendida se Finn tivesse sido removido publicamente de seu cargo, em vez de se apresentar uma renúncia camuflada.

O motivo de sua renúncia, na oblíqua linguagem canônica do anúncio, foi a incapacidade de continuar a cumprir o seu ofício por causa de “uma outra causa grave” (cânone 401.2). Grande parte da atenção midiática esteve centrada sobre a condenação de Finn, de 2012, por não relatar às autoridades civis Shawn Ratigan, sacerdote da cidade de Kansas que mantinha pornografia infantil em seu notebook.

Há muito mais aí do que simplesmente triste fato.

O principal aspecto observado pelo investigador vaticano neste caso, Dom Terrence Prendergast, era se Finn havia sido um líder eficaz. Uma das suas maiores falhas como líder da diocese foi a forma desastrosa com que lidava com os casos de abusos sexuais cometidos pelo clero. Eis o outro capítulo da história.

Entre 2005, o ano em que Finn foi nomeado, e 2015, houve no mínimo 94 casos registrados contra a diocese. Alguns deles envolviam acusações de graves abusos sexuais que remontavam a décadas – abusos que foram encobertos e tratados de forma errônea pelos predecessores de Finn. Em muitos deles, Finn não fez parte dos acobertamentos. A sua falha, que não pode ser subestimada, foi na forma como respondia às vítimas que recorriam aos tribunais civis. E a principal razão pela qual a maioria das vítimas recorriam aos tribunais civis é porque lhes estavam sendo negados a justiça, o apoio ou uma indenização merecida por parte do governo da Igreja.

Finn ignorou, e muito, as vítimas. Em seus 10 anos à frente da diocese, ele se encontrou com duas delas e, talvez, mais umas outras, sem porém dedicar-lhes um trabalho pastoral. Os seus momentos com estas vítimas foram todos partes dos procedimentos jurídicos. Segundo todas as fontes consultadas, não há prova alguma de que ele tenha, alguma vez, se colocado como um pastor carinhoso ao lado destas pessoas, cujas vidas foram devastadas por sacerdotes da cidade de Kansas.

Ele fazia o seu serviço sujo por meio dos seus advogados. Ainda que alguns bispos, quando perguntados sobre as bizarrices de seus advogados, tentem se esquivar do problema afirmando que elas eram feitas por estes profissionais e não eles próprios, o fato é que o bispo é quem contrata estes mesmos profissionais, certifica-se de que eles recebem os honorários e aprova as estratégias a serem usadas. Diferentemente dos procuradores das vítimas, que só recebem se ganharem os processos, os advogados da Igreja são pagos por horas de trabalho – não importando se vencem ou perdem. Os advogados da Diocese de Kansas receberam muito dinheiro durante o período que Finn esteve na liderança.

E, assim, chegamos à longa e difícil caminhada de alguns dos casos de abuso através do sistema jurídico. Os advogados das vítimas – um escritório de advocacia praticamente – viam-se diante de uma montanha de moções, notificações de depoimento e outros obstáculos jurídicos para prolongar o inevitável. Os únicos ganhadores foram os advogados, e os maiores perdedores foram os leigos e a diocese, que na verdade angariava dinheiro através de doações para pagar a campanha de Finn contra as vítimas.

Os custos legais da diocese estão na casa dos 24 milhões de dólares. Incluída aqui está uma multa de US$ 1,1 milhão, imposta por um tribunal porque o bispo não honrou alguns dos termos de um dos acordos. Ele, e consequentemente a diocese, concordou em fazer certas coisas porque antes, de modo intencional, não quis realizar. A comunidade diocesana pagou por isso.

Eu fui uma testemunha técnica em alguns dos processos civis. No final de alguns dos meus relatórios na seção de opiniões técnicas, escrevia: “A diocese continua a revitimizar as vítimas e a perseguir suas famílias emplacando um processo jurídico prolongado”. Os advogados de defesa nunca me desafiaram nesta minha disposição aparentemente infinita. E era verdade. Esconder-se por detrás do abuso do sistema jurídico parecia uma forma segura de se espancar as vítimas sem ser culpabilizado, mas isto não funcionou.

As perseguições vieram sob várias formas. Fui destituído em um caso que envolvia uma morte por negligência trazido pelos pais de um menino de 14 anos que cometera suicídio após ser violentado sexualmente. Aqui, os advogados de defesa tomaram 200 depoimentos e registraram aproximadamente duas mil moções, a maioria delas sendo para rejeitar a acusação. Foi um gasto incrível de dinheiro e tempo.

Um dos defensores mais dedicados de Finn foi Bill Donohue, da chamada Liga Católica pelos Direitos Civis (Catholic League for Civil Rights). Donohue fez uma mobilização na cidade de Kansas em defesa de Finn no ano de 2011, quando Finn estava sendo processado por não informar um caso de suspeita de abuso infantil. Donohue proclamava: “Não existiu nenhuma queixa e nenhuma violação da lei”.

Por esta suposta não violação, Ratigan pegou 50 anos de prisão, e Donohue relevou um outro nível de sua ignorância sobre o abuso infantil: um mês mais tarde, ele atacava Jon David Couzens, vítima de abuso cometido pelo clero. Couzens entrou com um processo contra a diocese que terminou em acordo entre as partes. Donohue considerou a história como uma “novela duvidosa”; qualificou Couzens não só de mentiroso, mas disse também que este estava implicado em um “assassinato relacionado com as drogas”. Uma das vítimas desta “novela duvidosa” era o jovem que tirou a sua própria vida aos 14 anos de idade depois de ser abusado sexualmente por um padre. Imagine como os seus pais se sentiram quando viram que o abuso de seu filho estava sendo retratado sob tais termos – irônicos e desonestos.

Couzens processou Donohue por difamação. O caso foi arquivado não porque era “falso”, como erroneamente informou Donohue em recente nota à imprensa. Foi arquivado porque fora apresentado em outro estado americano, o que constituiu um erro. A causa não tinha nada a ver com a substância; a precisão e os fatos, porém, nunca foram um impeditivo para os discursos retóricos de Donohue.

A credibilidade de Donohue é tão próxima de zero que eu sequer gastaria tempo escrevendo uma única frase sobre ele. No entanto, muitas pessoas cometem o erro egrégio de pensar que ele fala pela Igreja Católica. Os seus delírios regulares contra as vítimas de abuso sexual clerical poderiam ser ignorados como tais pela maioria das pessoas, porém eles são profundamente dolorosos às vítimas e suas famílias.

Finn poderia ter parado Donohue, mas não o fez. Ao longo dos anos, Donohue manifestou uma grande preocupação pela ortodoxia doutrinal e pela obediência, que parecem ter suplantado a decência e a caridade básicas cristãs.

Um outro triste capítulo no vácuo presente na liderança da diocese foi a campanha malsucedida de Finn em fechar a Rede de Sobreviventes de Abusados por Padres, a mais antiga e maior organização de apoio às vítimas. Finn tentou fechar a Rede em conluio com o Cardeal Raymond Burke, da Arquidiocese de St. Louis e o sucessor deste, Dom Robert Carlson. Os advogados destes prelados tentaram forçar a Rede a divulgar as comunicações confidenciais das vítimas. Estes tiveram que se defender em juízo, o que custou caro.

O plano dos advogados diocesanos era realizar aquilo que os bispos esperavam, ou seja: apressar a morte da Rede de Sobreviventes de Abusados por Padres (ou SNAP, na sigla em inglês), sugando os seus recursos via litígios inúteis. A SNAP não era parte envolvida em nenhum dos casos usados como plataforma para esta manobra jurídica, mas isso não importava: ela é uma ameaça aos bispos, então tinha de ser extinta. O resultado: Finn e Burke foram ambos escanteados pelo papa, e a SNAP ainda está de pé. Então quem tinha uma base sólida nesta disputa?

O verdadeiro herói neste pesadelo foi o diretor nacional da SNAP, David Clohessy. Este resistiu aos ataques dos advogados; protegeu a privacidade das vítimas; e sobreviveu aos ataques perversos e desonestos contra ele pessoalmente e contra a SNAP, feitos por Donohue.

Mesmo que uns poucos sugiram que Finn tenha sido destituído por motivos ideológicos, nada poderia estar mais longe da verdade. Finn tinha de sair, não porque ele é um conservador eclesiástico que tentou fazer a diocese voltar no tempo e porque quis dar uma nova cara à monarquia desejada por ele. Ele tinha de sair porque se esqueceu – ou nunca percebeu – que quando Cristo se referia “ao menor dos meus irmãos”, ele estava se referindo aos mais rebaixados e rejeitados. Na Igreja da cidade de Kansas, os “menores” eram aqueles que mais precisavam do amor de Cristo: as pessoas violentadas pelos próprios padres da Igreja.

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