Canclíni vem ao Brasil para falar sobre a nova era da cultura

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14 Abril 2015

Néstor García Canclíni, nome-chave dos debates sobre comunicação e processos culturais na América Latina, é, ele próprio, multicultural e híbrido. Nascido em La Plata (Argentina), o pesquisador de 75 anos estudou em Paris, radicou-se no México e deu aulas nos EUA, na Espanha e no Brasil (professor convidado da ECA-USP). Graduado em filosofia, expandiu seus estudos para as ciências sociais, especialmente a antropologia.

A reportagem é de Ana Paula Sousa, publicada no jornal Valor, 13-04-2015.

É essa multiplicidade de olhares e lugares que Canclíni trará ao Brasil na conferência "Criativos, Precários, Interculturais". A palestra, que ocorre amanhã no Oi Futuro, no Rio, discute uma das grandes questões da cultura contemporânea: o valor e os sentidos do trabalho criativo.

A criatividade congrega questões sobre as quais Canclíni se debruça há décadas: o multiculturalismo, a hibridização entre diferentes culturas, o consumo cultural, a comunicação e a dependência econômica da América Latina. Em entrevista ao Valor, Canclíni diz que a cultura tornou-se objeto de fetiche e a ideia de carreira cedeu lugar a uma vida marcada pela transitoriedade, ou seja, por projetos que vão se sucedendo.

Entre as características que unem artistas e trabalhadores de áreas como audiovisual, design, moda e mídia, o pesquisador cita a conexão intercultural, a inovação e a incerteza. Ao mesmo tempo em que possibilita rotinas menos monótonas, a inovação, que se refere ao caráter não repetitivo dos processos criadores, conduz a um caminho marcado pela necessidade constante de adaptação.
Tais características, na América Latina, tendem a gerar o processo de precarização. "Na Europa, sobretudo após a crise de 2008, as instituições culturais são obrigadas a dar garantias mínimas aos trabalhadores. Na América Latina, as instituições culturais são muito frágeis e qualquer crise econômica leva a uma redução nas bolsas artísticas ou subsídios", diz.

Tanto como reação a isso quanto pela tecnologia, o que se nota é a expansão dos movimentos sociais e culturais que, fora do âmbito da ajuda estatal, buscam trabalhar de forma independente. Canclíni olha com desconfiança para as promessas da economia criativa e do enlace entre cultura e desenvolvimento. "No México, a redução do papel do Estado e a concentração da cultura nas mãos de umas poucas empresas faz com que se desvaneçam as promessas de criação de emprego por meio da cultura."

A economia dos bens simbólicos, diz, é marcada pela informalidade não só de quem a produz, mas de quem a consome. O que é a pirataria senão o consumo feito à margem do mercado?

Canclíni é entusiasta das possibilidades abertas pela tecnologia: "Antes, não tínhamos condições de receber produções de outras culturas que não as hegemônicas. Hoje, podemos conhecer os bens do Irã, da Turquia, e mesclar saberes que nos chegam pelas mais diversas plataformas".

Por que teríamos então, no mundo todo, os mesmos dez filmes sendo campeões de bilheteria? Canclíni dá um suspiro e afirma: "Há uma tensão entre a concentração das indústrias culturais e a maior amplitude de acesso e difusão proporcionada pela tecnologia. Essa tensão envolve muitas disputas e é diferente em cada país". O professor diz, no entanto, que a indústria procura variar estilos em função de públicos segmentados. "O que ainda não se contempla é a diversidade cultural mais ampla, com a inclusão de setores populares, de indígenas etc."

Em busca de entender melhor o processo de absorção e organização do conhecimento no século XXI, ele está coordenando, na Universidade Metropolitana do México, um estudo sobre hábitos de leitura na tela e no papel. "Grande parte das pesquisas não registram devidamente as diversas formas de leitura, que, hoje, não é mais a que fazemos em papel", diz Canclíni.

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