Religião e homossexualidade: rumo a uma renovação?

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05 Março 2015

A homossexualidade nos três monoteísmos... do ponto de vista da renovação teológica e da evolução das práticas. Geralmente não é assim que é abordado o problema da relação entre religião e homossexualidade. Ao contrário, esse será o tema de um congresso de amplo porte entre os dias 16 e 17 de março próximos na EHESS (École des Hautes Études en Sciences Sociales), na França.

A reportagem é de Joséphine Bataille, publicada no sítio da revista La Vie, 24-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Rémy Bethmont (Universidade Paris 8), especialista em anglicanismo – dilacerado por essas questões – é o organizador, junto com Martine Gross (CEIFR/CNRS), especialista em judaísmo, do evento.

A inscrição ao congresso pode ser feita por e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Eis a entrevista.

Por que motivo é importante se interessar hoje pela ideia de uma renovação dos monoteísmos sobre o problema da homossexualidade?

Constatei recentemente até que ponto os argumentos provenientes do judaísmo norte-americano em favor de uma liberalização religiosa sobre a questão homossexual eram semelhantes aos que podem ser encontrados no cristianismo. O que chama a atenção também é a proximidade das abordagens metodológicas (histórico, exegético...). Portanto, há debates comuns aos três monoteísmos – incluindo o Islã, porque essa voz existe nos países ocidentais anglófonos, embora seja excepcional.

Sabemos quais são os seus pontos em comum na rejeição da homossexualidade. Vimos as conexões que aconteceram no Manif pour tous, por exemplo. Mas aqui tentaremos olhar para o modo como as grandes religiões – que têm em comum o fato de se basearem em um texto – se encontram e se influenciam sobre essa questão, nunca tratada, do convite à "inclusão" dos homossexuais na comunidade. Isso permitirá que os pesquisadores vejam outros ambientes. Estou ansioso para ver o que isso vai nos permitir descobrir!

Falar de inclusão significa falar de aceitação na comunidade ou de uma releitura teológica do discurso religioso sobre a própria homossexualidade?

Chegaremos a isso, porque os nossos palestrantes se situam a partir de um ponto de vista teológico, embora vindo de correntes muito diferentes. O judaísmo norte-americano é um viveiro muito importante para esse pensamento. Mas o rabino gay Steven Greenberg, ao contrário, se baseia na tradição mais ortodoxa para desenvolver uma série de argumentações de inclusão plena. Trata-se de aceitar os homossexuais na comunidade, mas também de justificar isso teologicamente.

Enquanto os judeus progressistas rejeitam a ideia de uma transmissão oral ligada à Torá, por exemplo, ele se baseia na tradição, que considera essencial, mas a partir de uma releitura original.

Há também uma verdadeira produção por parte do católico James Alison, por exemplo, que analisa a experiência homossexual como uma experiência de não ser. Como católico, o gay recebe a ideia de que não pode ser senão aceitando renunciar àquilo que é. Mas, segundo Alison, a narrativa bíblica mostra que Deus obtém algo daqueles que não são nada, desconstrói o mecanismo do bode expiatório.

O que torna possível a releitura teológica desses religiosos?

Constata-se que os trabalhos de pesquisa em ciências bíblicas realizados conjuntamente por judeus e cristãos sobre o Antigo Testamento têm muito peso. Há o trabalho sobre os famosos versículos do Levítico que condenam as relações sexuais entre homens, por exemplo. Além do trabalho exegético, sente-se a influência da perspectiva histórica e dos estudos de gênero. Cada vez mais, esses teólogos tendem a mostrar que uma tradição religiosa que se supõe "eterna" está muito mais em movimento do que os discursos institucionais permitem entender. Eles põem em discussão a ideia de que "sempre se proclamou que".

É o caso, por exemplo, do discurso cristão sobre a família, que parece ser relativamente recente.

Na Igreja primitiva, o gerar não é essencial, e a família não parece ser, de fato, um valor: ela remete a estruturas estabelecidas pela sociedade, em vez de uma fraternidade universal. "Minha mãe e os meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus", diz Jesus no Evangelho.

Assim, nos primeiros séculos, a família não aparece como célula básica da vida eclesial. O ideal do celibato dentro de uma comunidade monástica é muito mais valorizado. A diferença entre os sexos é especialmente pensada como uma hierarquia e foi teorizada como complementaridade depois. Mas, em todo o caso, nada disso é essencial: o que importa é o advento de uma comunidade onde não há mais nem homem nem mulher, nem judeu nem grego, nem escravo nem livre.

Apenas pessoas homossexuais se dedicam a esse trabalho de pesquisa?

Na maioria, sim, e é frutuoso, porque esse discurso se baseia em uma experiência. James Alison mostra que passou por um percurso pessoal que o levou "da morte à vida". Outros, incluindo os anglicanos, por exemplo, não estão envolvidos pessoalmente, mas argumentam que a mensagem de Jesus é a de ter vindo para unir aqueles que não são mainstream, para fazer deles os seus discípulos. Para eles, portanto, trata-se de uma defesa da essência do Evangelho. Nem todos os nossos palestrantes são religiosos. Há também muitos buscadores sem pertença.

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