Papa quer ''demolir'' a casta da Cúria Romana

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18 Fevereiro 2015

Também no Vaticano é tempo de reformas institucionais, e o debate entre os cardeais, como se diz, é construtivo. O corte dos dicastérios, embora programado, ainda não entrou em vigor. Por outro lado, já faz dois anos que o papa atira à queima-roupa contra o seu quartel-general, ou seja, contra a própria Cúria Romana liderada por ele e que ele gostariam que fosse fortemente redimensionada em peso em relação às Igrejas locais e à pesada estrutura burocrática.

A reportagem é de Francesco Peloso, publicada no sítio Linkiesta, 16-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Assim, também no domingo passado, por ocasião da missa celebrada em São Pedro para os novos cardeais recém-eleitos, Francisco reafirmou com extrema precisão – e não sem dureza – a qual modelo de Igreja ele pretende dar origem.

Nesse contexto, ele tirou para fora a palavra-chave que se tornou um mantra contemporâneo: a casta: "Caros irmãos – afirmou Bergoglio –, olhando para Jesus e para a nossa mãe Maria, exorto-os a servirem a Igreja de modo que os cristãos, edificados pelo nosso testemunho, não sejam tentados a estar com Jesus sem querer estar com os marginalizados, isolando-se em uma casta que não tem nada de autenticamente eclesial".

"Exorto-os – acrescentou – a servirem a Jesus crucificado em cada pessoa marginalizada, por qualquer motivo; a verem o Senhor em cada pessoa excluída que tem fome, que tem sede, que está nua; o Senhor que está presente também naqueles que perderam a fé, ou que se afastaram de viver a própria fé; o Senhor, que está na prisão, que está doente, que não tem trabalho, que é perseguido; o Senhor que está no leproso, no corpo ou na alma, que é discriminado!".

Depois, concluiu: "Não descobrimos o Senhor se não acolhemos de modo autêntico o marginalizado. Recordemos sempre a imagem de São Francisco, que não teve medo de abraçar o leproso e de acolher aqueles que sofrem qualquer gênero de marginalização. Na realidade, é no evangelho dos marginalizados que se joga, se descobre e se revela a nossa credibilidade!".

A credibilidade que ganha sentido quando a Igreja está do lado dos últimos. A rejeição do poder e daquela casta que é o contrário da Igreja. Estes, portanto, são os conceitos postos claramente pelo papa, naquela que pode ser definida, com razão, como uma das homilias mais importantes do seu pontificado.

Francisco usou tons particularmente duros, porque, nesses dois anos, ele pôde ver com os seus próprios olhos a que ponto o sistema eclesial romano (e não só) estava enroscado sobre si mesmo: prelados, cardeais, aparatos da Cúria que resistem à mudança tanto no nível pastoral – a pouca atenção dada aos ofendidos, aos marginalizados, aos não crentes, àqueles que perderam a fé, aos perseguidos – quanto no organizativo, onde prevalece o medo de perder postos e privilégios.

De fato, o papa, que queria simplificar a Cúria Romana, pô-la a serviço dos bispos espalhados pelo mundo, eliminar progressivamente as púrpuras no Vaticano, está se deparando com uma oposição que o impede de se apressar.

Diante de um pântano que, de vez em quando, levanta a cabeça, ruge, reivindica a "doutrina tradicional", opõe-se à Igreja aberta, que acolhe também os divorciados, os casais de fato, os separados, os homossexuais, prenunciada por Francisco. E que, embora não tenha a coragem de dizê-lo explicitamente, detesta o primado do "social" desejado pelo papa argentino, com a sua persistente crítica ao capitalismo financeiro e a escolha de colocar os presos, os imigrantes, os pobres antes da bioética.

Enquanto isso, porém, o Papa Francisco, que ainda é jesuíta, mudou um pouco as coisas, e se trata de passos substanciais. Em particular, ampliou o Colégio Cardinalício cada vez mais para o Sul do mundo e restringiu o número dos purpurados europeus. As nomeações de cardeais curiais, além disso, já estão reduzidas ao mínimo. Assim, em um eventual conclave, os barretes vermelhos com direito de voto (menos de 80 anos) extraeuropeus – do Norte ao Sul da América, passando por Tonga, Mianmar, Etiópia e Nova Zelândia – estão em maioria em comparação com os cardeais europeus, 68 a 57. Em suma, o futuro da Igreja parece estar marcado: olha-se para a Ásia e para as Américas.

A próxima etapa, então, é o Sínodo sobre a família de outubro, que, provavelmente, será o ponto decisivo. Se a linha do papa de uma clara abertura da Igreja para a compreensão da condição humana contemporânea, em todos os seus aspectos, tiver um consenso amplo, nesse ponto, o resto virá mais ou menos por conta própria. Além disso, o fato é que Bergoglio deve dar um passo de cada vez e ele não tem muito tempo pela frente: ele já tem 78 anos e não será papa "pela vida inteira" – ao menos, essas são as intenções declaradas. Por isso, é provável que, mais cedo ou mais tarde, ele renuncie como Bento XVI. Assim, depois do Sínodo, ele entrará em cheio também na redução dos dicastérios vaticanos.

Por outro lado, trata-se de reescrever uma constituição, mesmo que apostólica, que, neste caso, se chama Pastor Bonus, isto é, o documento promulgado por João Paulo II em 1988, que estabelece regras, funções e harmonia institucional entre os vários órgãos centrais da Igreja. A constituição desenvolvida por Wojtyla já se baseava nos sólidos fundamentos da reforma, feita por Paulo VI (Regimini ecclesiae universae), que, de fato, tinha aumentado e potencializado o papel da Secretaria de Estado, que se tornou, ao longo dos anos, o verdadeiro motor do Vaticano.

A linha do papa é clara: desburocratizar, reduzir, encorpar e, sobretudo, transformar as poderosas Congregações vaticanas lideradas por cardeais que formavam uma espécie de corte em estruturas a serviço das Igrejas locais, dos seus problemas, capazes de intervir para apoiar os episcopados locais.

Uma mudança radical destinada a pôr em crise hábitos, sinecuras, tradições e pequenos potentados da cidadela vaticana, mas também, mais em geral, uma ideia da Igreja. Bergoglio, na verdade, já deu um golpe como se deve em matéria de reformas, desde logo, poucos meses depois de ter sido eleito. Já é famoso agora o chamado C9, o conselho dos cardeais do papa, que, enquanto isso, tornou-se o verdadeiro centro de governo da Igreja universal. E se trata, além disso, de um clássico organismo colegial. De fato, ele funciona como uma espécie de conselho de ministros do pontífice.

Nesse grupo, encontramos muitos dos homens-chave do pontificado de Francisco: o secretário de Estado, Parolin; o prefeito da Secretaria para a Economia, o cardeal australiano George Pell; o norte-americano O'Malley, o cardeal capuchinho que preside a comissão pontifícia para a proteção da infância (o dicastério da luta contra a pedofilia na Igreja); o cardeal alemão Marx, à frente do Conselho para a Economia, organismo misto de prelados e leigos que traça as diretrizes econômicas da Santa em sintonia com a Secretaria para a Economia. No C9, também está o cardeal Maradiaga, o coordenador do grupo, voz autorizada para descrever o novo modelo econômico e social contrário à globalização financeira, traçado pelo papa.

É dentro desse grupo que foram discutidos todos os dossiês mais delicados – a reforma econômica, a resposta aos abusos sexuais, a própria reforma da Cúria.

O projeto de Bergoglio, no entanto, é ainda mais ambicioso: o objetivo é o de atribuir ao Sínodo, ou seja, a assembleia de bispos delegados de todos os países, poderes cada vez mais amplos, isto é, não só consultivos, mas também decisionais. Também deveriam ter um crescente papel as Conferências Episcopais continentais e nacionais.

São justamente essas as opções que assustam mais a ala conservadora. Desse modo, acabaria o superpoder romano e nasceria uma Igreja colegial em que as vozes locais têm uma importância decisiva.

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