Washington também deve aceitar a realidade de uma Cuba diferente, independente e soberana. Entrevista com Salim Lamrani

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15 Janeiro 2015

Lamrani é doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos da Universidade Paris-Sorbonne - Paris IV, é professor titular da Universidade e periodista e especialista das relações entre Cuba e os Estados Unidos. Seu último livro se intitula Cuba, the Media, and the Challenge of Impartiality, New York, Monthly Review Press, com um prólogo de Eduardo Galiano.

A entrevista é de Sébastien Madau, publicada por La Marseillaise e reproduzido por Rebelión, 14-01-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis a entrevista.

Por acaso os anúncios de 17 de dezembro de 2014 devem ser considerados como
algo surpreendente?

O reatamento do diálogo entre os dois países é histórica na medida em que põe termo a mais de meio século de relações conflitivas. A política de hostilidade dos EEUU contra Cuba é anacrônica, pois remonta à Guerra Fria. O estado de sítio econômico é também cruel, já que afeta as categorias mais vulneráveis da população. Por outra parte, as sanções são ineficazes, dado que não se alcançou o objetivo de obter uma mudança de regime. Ao revés, tem isolado Washington no cenário internacional.

Por acaso essas decisões fazem parte do processo de reformas realizado há alguns anos em Cuba?

Sim. Desde o triunfo da Revolução em janeiro de 1959, Cuba sempre declarou sua vontade de ter relações normais e pacíficas com os Estados Unidos, desde que se baseiem na reciprocidade, na igualdade soberana e na não ingerência nos assuntos internos. Havana sempre se mostrou constante a esse respeito.

Convém recordar que a hostilidade é unilateral. São os Estados Unidos que romperam as relações com Cuba em janeiro de 1961 e que não deixaram de adaptar sua retórica diplomática para justificar a manutenção deste estado de sítio. No início, Washington justificou oficialmente sua política agressiva com Havana pelo processo de nacionalizações e expropriações que afetava seus interesses. Logo se pôs em tela de juízo a aliança com a União Soviética. Nos anos de 1970-1980, foi a solidariedade cubana com os movimentos revolucionários e independentistas da América Latina, África e Ásia que foi apontada com o dedo. Após a queda do muro de Berlim e o desaparecimento da URSS, os Estados Unidos, em vez de normalizar as relações com Havana, procederam, pelo contrário, a um recrudescimento das sanções econômicas, esgrimindo desta vez a presença de Fidel Castro e de Raul Castro no poder.

Cuba sempre disse que estava disposta a dialogar com os Estados Unidos numa base de respeito mútuo. Mas como explicar a mudança de posição dos Estados Unidos?

Sim. O Presidente Barak Obama fez uma lúcida constatação a respeito da atual política dos Estados Unidos com Cuba. Washington fracassou redondamente, pois Cuba renunciou ao seu projeto de sociedade e consolida seu processo socialista tornando-o mais eficiente e adaptando-o às novas realidades. Washington está isolado em todos os níveis sobre a questão cubana. A comunidade internacional é favorável a uma normalização das relações entre ambos os países e condena firmemente a política de sanções. Em outubro de 2014, no vigésimo terceiro ano consecutivo, 188 países – inclusive os aliados mais fiéis dos Estados Unidos – votaram a favor de um levantamento das sanções econômicas contra Cuba. A América Latina se mostra unânime em sua exortação de liberar Cuba do estado de sítio que a asfixia há mais de meio século. A América Latina ameaçou com boicotar a próxima Cúpula das Américas de 2015 no caso de ausência de Cuba. Nos anos de 1960, Cuba estava isolada no continente americano. Somente Canadá e México tinham relações com La Habana. Hoje Havana tem relações diplomáticas e comerciais com todos os países do continente, com exceção dos Estados Unidos. Ao persistir em aplicar uma política absurda e obsoleta, Washington se isolou no mundo.

Por outra parte, a nível nacional, a opinião pública dos Estados Unidos, com uns 70% segundo uma sondagem de CNN, é favorável à normalização das relações com Cuba. O povo estadunidense não entende por quê pode viajar à China, principal adversário comercial e político dos Estados Unidos, ao Vietnã, país contra o qual Washington esteve em guerra durante cerca de 15 anos, e à Coréia do Norte, que possui a arma nuclear, porém não a Cuba, que jamais agrediu os Estados Unidos em sua história e que constitui um destino turístico natural por razões históricas e geográficas evidentes.

A comunidade cubana dos Estados Unidos é favorável em 52%, segundo um estudo, a uma aproximação bilateral, pois aspira a ter relações pacíficas com seu país de origem e deseja que os cubanos da ilha desfrutem de um merecido bem-estar, sem serem vitimas de sanções.
Da mesma forma, o mundo dos negócios estadunidense é partidário do levantamento das sanções contra Cuba, pois vê um mercado natural de 11,2 milhões de habitantes pronto para receber inversões da América Latina, Europa, Canadá e Ásia.

Todos estes fatores levaram Washington a flexibilizar sua posição e adotar um enfoque mais construtivo e racional.

As derrotas eleitorais de Obama e o fim de seu mandato podem explicar esta mudança?

Sim. A realidade constitucional talvez tenha desempenhado algum papel. Com efeito. Obama está em seu segundo mandato presidencial e já não pode voltar a apresentar-se. Mas, parece que se trata acima de tudo de uma tomada de consciência do isolamento crescente dos Estados Unidos no cenário internacional sobre a questão cubana e o patente fracasso de semelhante política agressiva.

Quais foram as reações na ilha? E na Flórida?

Cuba acolheu com regozijo o regresso de seus três compatriotas, Antonio Guerrero, Gerardo Hernández e Ramón Labatino, que cumpriam severas penas de prisão por tentarem neutralizar os mini-grupos terroristas do exílio cubano que haviam causado a morte de várias pessoas realizando atentados com bombas. Tratava-se verdadeiramente de uma causa nacional em Cuba e a manutenção em detenção dessas pessoas constituía o principal obstáculo à normalização das relações entre Washington e La Habana. O povo cubano, que sempre teve um laço espiritual muito forte com o povo estadunidense, recebeu a notícia do restabelecimento das relações bilaterais com satisfação.

Por acaso podemos esperar outras mudanças?

Sim. O restabelecimento das relações diplomáticas é um primeiro passo indispensável. Não obstante, é insuficiente. Os Estados Unidos devem primeiro levantar as sanções econômicas contra Cuba. Obama pode faze uso de suas prerrogativas como presidente e permitir, por exemplo, que os turistas estadunidenses viajem livremente a Cuba. Isso firmaria o fim das sanções contra Cuba, pois o Congresso não resistiria às pressões do mundo dos negócios e estaria obrigado a derrogar as leis sobre o bloqueio. A seguir, Washington deve também aceitar a realidade de uma Cuba diferente, independente e soberana e abandonar suas políticas hostis destinadas a desestabilizar o país financiando a oposição interna. Por fim, deve por termo à ocupação ilegítima de Guantánamo e neutralizar os setores extremistas da Flórida que não renunciaram à violência terrorista.

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Washington também deve aceitar a realidade de uma Cuba diferente, independente e soberana. Entrevista com Salim Lamrani - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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