Ameaça global: Crise hídrica em São Paulo serve de alerta para muitas outras metrópoles

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03 Dezembro 2014

O pescador Ernane da Silva olha para o vale que se estende a seus pés. No local onde pescou por três décadas agora só resta erva daninha e terra seca, ressecada pelo sol.

A reportagem foi publicada por AFP e reproduzida pelo Yahoo Notícias, 01-12-2014.

São Paulo sofre com a pior seca em 80 anos. A crise hídrica serve de alerta para muitas outras metrópoles: o desmatamento, as temperaturas mais altas e a expansão dos centros urbanos reproduzem este desastre em outros cantos do planeta.

“Fui um dos primeiros pescadores a chegar aqui e agora sou um dos últimos que restam”, contou Silva, de 60 anos, em meio à represa do rio Jacareí, no pequeno município de Piracaia, a 100 km da cidade de São Paulo.

“Eu pesquei aqui durante 30 anos. Como ia pensar que um dia a água acabaria?”, se perguntou com um misto de incredulidade e tristeza, refletindo sobre um problema que não afeta só a ele, mas em maior ou menor medida a milhões de paulistanos.

Vestindo roupas simples e um boné que o protege do sol forte, ele conta que deixou sua casa, nas margens da represa, e que este ano teve que ir pescar em regiões mais altas, onde ainda há água, mas que não sabe mais se no ano que vem poderá continuar fazendo isto.

– Chuvas insuficientes –

A represa de Jacareí, construída no final dos anos 1970, é uma das cinco que compõem o enorme sistema Cantareira, que abastece 45% dos 20 milhões de habitantes da região metropolitana de São Paulo.

As chuvas desta temporada úmida – de outubro a março – são insuficientes. Na região das represas da Cantareira, as chuvas foram de 90 mm, em novembro, contra uma média histórica de 161,2 mm.

“A falta de chuva foi severa neste último ano, acompanhada de altas temperaturas, tanto no verão, quanto no inverno, o que altera a evaporação das represas”, disse à AFP o meteorologista Marcelo Schneider, do oficial Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

“E tudo piora porque, diferentemente de secas anteriores, agora a população e a demanda por água são muito maiores”, acrescentou.

Centro econômico e industrial do Brasil, São Paulo já viveu uma forte seca em 2001 e outra muito grave no começo dos anos 1960.

- Má gestão, outro vilão -

“A seca não é só um assunto climático: é importante se estamos ou não preparados para enfrentá-la”, explicou à AFP a pesquisadora Maria Assunção Silva, do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo.

Em São Paulo se juntaram a falta de investimentos e infra-estrutura para armazenar água em anos de abundância, a sobrecarga do sistema e a má gestão. Segundo especialistas, não se informou adequadamente a população e o recurso não foi racionalizado.

A Sabesp, a maior empresa de águas de São Paulo, garante ter tomado medidas e que não é necessário racionamento, o que é reafirmado constantemente pelo governador Geraldo Alckmin, reeleito em outubro.

O governo anunciou há pouco que construiria uma planta para reuso de água e novos depósitos para armazenamento.

A AFP ouviu vários relatos de cortes de abastecimento de água – sem aviso, nem planejamento – na capital, tanto na periferia, quanto no centro da cidade.

Outras cidades do estado, onde vivem 40 milhões de pessoas, racionaram água fortemente, entre elas Guarulhos e Itu, onde a Sabesp não opera.

- Menos árvores, menos chuva -

Para alguns especialistas há, ainda, uma questão chave: o desmatamento.

“A seca excepcional que a região sudeste do Brasil vive, especialmente São Paulo, já pode ser o resultado do desmatamento da Amazônia”, disse à AFP o respeitado pesquisador Antonio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

“A Amazônia exporta umidade (…) e leva chuvas ao sudeste, ao centro-oeste e ao sul do Brasil, e também a outras regiões de Bolívia, Paraguai, Argentina, a milhares de quilômetros”, explicou Nobre.

Cientistas afirmam, também, que eventos como as fortes chuvas na região Ásia-Pacífico, a maior temperatura do mar e a seca na Califórnia estão conectados e são partes de um mesmo desequilíbrio global.

Os cada vez mais populosos centros urbanos, com pouca vegetação e enormes extensões de asfalto e cimento, contribuem para este desequilíbrio.

“A sucessão de extremos chuvosos e secos veio para ficar”, alertou Maria Assunção Silva.

O pescador Ernane da Silva mantém o olhar fixo no local onde antes havia água e hoje, apenas terra. “Esta seca mudou toda a minha vida. Aqui, antes a água sobrava, estava cheio de gente pescando, nadando, aproveitando. Agora não há nada, não fica ninguém”, lamentou.

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