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30 Outubro 2014


Ganhou força nas igrejas evangélicas o hábito de se relembrar a data de 31 de outubro de 1517, quando Lutero fixou suas 95 teses. Tinha a ideia de iniciar um debate sobre as indulgências e, ao invés disso, mudou a fisionomia da cristandade europeia. O movimento de opiniões por ele desencadeado é conhecido até os dias hoje como a Reforma. Na realidade esta expressão (escrita sempre com R maiúsculo) nasce muito depois, na história alemã de 1800 que enxergava naquele período o nascimento de sua identidade histórica. A essa mesma leitura da história se devem as expressões: “os reformistas”, usado para indicar os personagens daquela época, e a clássica “Contrarreforma” para indicar as medidas tomadas pelo papado para bloquear o avanço do movimento luterano.

O comentário é de Giorgio Tourn publicado pela revista “Riforma”, periódico semanal italiano das Igrejas Batista, Metodista e Valdense, com data de 31-10-2014. A tradução é de Ivan Pedro Lazzarotto.

Os historiadores católicos do século XX objetivaram que a profunda renovação por intermédio do Concílio de Trento não era uma medida muito longe das posições evangélicas (ainda que houvesse sobre alguns aspectos as mesmas características) quanto à atuação de uma verdadeira reforma para o que, historicamente falando, se deve utilizar a expressão “Reforma católica” mais que Contrarreforma. E de fato é assim por dois motivos. Antes de mais nada porque a reforma da igreja foi um projeto cultivado por anos em todos os ambientes do catolicismo da época.

Alexandre VI já havia nomeado uma comissão para isto, os camaldoleses já questionavam ao Papa Leão X, a esperam os cardeais do quinto Concilio de Latrão, a prevê Paulo III formando uma comissão especial com os melhores nomes do colégio de cardeais, e será ele que irá convocar o concílio de 1545. Obadia escreve a ele, “Lutero, para o qual o dinheiro destrói todas as comunidades humanas, pode ser considerado como o verdadeiro fundador do socialismo europeu, cujas fontes se aproximam da então religiosidade”.

Para todos os protestantes é obvio que exista um nexo estreito entre o protestantismo e a liberdade – em particular a liberdade de pensamento. Um nexo que retorna à famosa defesa de Lutero frente a dieta de Worms (18 de abril de 1521), na presença do imperador Carlos V: “A minha consciência é prisioneira da palavra de Deus e eu não posso, nem quero retratar nada. Agir contra a própria consciência não é nem prudente e nem lícito. Aqui paro. Não posso fazer nada”.

Este nexo entre o protestantismo e a liberdade de consciência, o relembra com força o pastor François Clavairoly no seu sermão na Assembleia do Deserto, nas Cevenas, no domingo 7 de setembro, centrado nas palavras de Paulo em sua carta aos Gálatas, cap. 5: “Cristo nos libertou para que fossemos livres” e “Vós fordes chamados à  liberdade”. Clavairoly não deixou de citar quem precedeu Lutero e os outros Reformistas do século XVI nesta longa batalha pela liberdade de consciência: Valdo, Jan Hus, John Wycliffe. Batalha que prosseguiu pelos séculos sucessivos de outros protestantes, entre eles Roger Williams, Pierre Bayle, Pierre Jurieu, John Locke, Immanuel Kant, Pierre e Marie Durand, Jean-Jacques Rousseau, Alexandre Vinet, Ferdinand Buissom.

Todos eram, como Lutero, profundamente convictos que sua consciência era “prisioneira da Palavra de Deus” e isso quer dizer que indissoluvelmente ligada à experiência concreta de uma liberação que compete a Deus.

Jaurès, nascido em uma família tradicional católica, não era nem materialista nem positivista; pelo contrário, era convicto que com o socialismo seriam realizados os ideais cristãos de liberdade, igualdade e fraternidade, que vem a ser o mesmo lema da Revolução Francesa, da qual, não por acaso, participarão ativamente alguns protestantes como o pastor Jean-Paul Rabaut Saint-Etienne, autor da  “Declaração dos direitos do homem e do cidadão”.

Não podemos esquecer que em 1906 outros dois pastores, os suíços Hermann Kutter e Lonhard Ragaz, fundaram o movimento do “socialismo religioso” ao qual muitos protestantes aderiram, dentre os quais o jovem Karl Barth.

Nada de estranho então que o protestantismo seja considerado como o “verdadeiro precursor da liberdade” e como “uma religião do socialismo”. Jaurès insistia, porém: não ao catolicismo dogmático que, por estar inserido ao serviço dos “cálculos inteligentes dos poderosos”, afastou os homens da religião, diferente do protestantismo iniciado pela Reforma de Lutero que, mais que uma religião, é a fé no Deus “totalmente Outro”, para dizê-lo com Barth, que ninguém pode comprar. Para Jaurès, somente o protestantismo, com a sua carga profética e dinâmica, estava apto a realizar aquilo que Teilhard de Chardin chamaria mais tarde de “Cristianificação” da humanidade e da criação.

Por fim cabe lembrar, como o fez Jean Baubérot sobre a Reforma, o papel decisivo desenvolvimento por Jaurès, em apoio ao grupo de protestantes liberais que foram os principais artifícios da Reforma, na criação do sentido laico e em particular da lei de 1905 sobre a separação entre a Igreja e o Estado que, não por acaso, no seu artigo primeiro, “assegura a liberdade de consciência” e “garante o livre exercício dos cultos”.

Baubérot sustenta justamente que a liberdade de consciência é a mãe de todas as luberdades, que “inclui” a liberdade de pensamento e a liberdade de religião. No momento em que o fundamentalismo religioso (não somente aquele islâmico), responsável pela degeneração da religião em idolatria, está tragicamente pisoteando essa preciosa liberdade que tem sua fonte em Deus, é mais do que necessário levar a frente à batalha pela liberdade de consciência, confiando em um Deus libertador que “nos chamou para a liberdade”.

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