Resposta dos bispos à crise de imigração é mais compassiva do que a dos políticos

Revista ihu on-line

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Mais Lidos

  • A fantasia de Deus. Leonardo Boff e o Espírito Santo

    LER MAIS
  • As feridas cada vez mais abertas. As acusações da Unicef e da Oxfam

    LER MAIS
  • A crise energética, a escolha europeia, e a “reviravolta russa”. Artigo de José Luís Fiori

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


05 Agosto 2014

A caricatura de que os bispos dos Estados Unidos só estão preocupados com o sexo tem sido alimentada pelo seu foco no aborto, casamento gay e controle de natalidade, mas, quando se trata de imigração, os bispos mostram não só a sua preocupação com os pobres, mas também a sua atenção clara para a raiz das causas da crise. Isso tem sido especialmente verdadeiro para as milhares de crianças desacompanhadas que estão aparecendo na fronteira dos Estados Unidos e México.bispos eua

A análise é do jesuíta norte-americano Thomas J. Reese, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos EUA, de 1998 a 2005, e autor de O Vaticano por dentro (Ed. Edusc, 1998). O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 01-08-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

A imigração tornou-se um jogo político em Washington, onde o foco não está em corrigir o problema, mas em como maximizar os benefícios políticos pela postura partidária.

Os candidatos republicanos jogam na sua base de direita, especialmente nas eleições primárias. Se lhes fosse dada a chance, eles construiriam um muro entre os Estados Unidos e o México, que combinaria com o muro entre Israel e a Palestina. Além disso, eles não ficariam contentes até que guardas estivessem ombro a ombro ao longo de toda a fronteira.

Quanto às crianças que atravessam a fronteira, os republicanos culpam o presidente Barack Obama, que está incentivando as crianças imigrantes ao parar a deportação dos "dreamers" [sonhadores], crianças cujos pais as trouxeram para este país. A solução dos republicanos é colocar as crianças no primeiro avião de volta para seus países de origem, não importando o que elas possam enfrentar no retorno.

Enquanto isso, os democratas atraem os hispânicos com promessas não cumpridas de reforma da imigração. Embora o presidente tenha usado sua autoridade executiva para ajudar alguns imigrantes, ele também deportou mais imigrantes do que qualquer outro presidente anterior, o que lhe valeu o título de "Deportador-Chefe". Além disso, tiroteios e abusos de imigrantes realizados por parte de alguns funcionários que atuam no controle das fronteiras é um escândalo que precisa ser controlado.

Em comparação com os políticos estadunidenses, os bispos norte-americanos são modelos de compaixão e competência, como visto nos programas realizados pelo Serviço aos Refugiados e Migração (MRS) da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos (USCCB). O MRS é a maior agência de reassentamento de refugiados no mundo. A ajuda é muito concreta e prática.

Por exemplo, o MRS tem 12 programas da assistência social a menores desacompanhados, prestando atendimento de transição para as crianças até que elas possam ser liberadas para suas famílias, bem como assistência social a longo prazo para as crianças sem um responsável adulto. A maioria das crianças são reunificadas com suas famílias, enquanto outras são colocadas em casas de famílias de acolhimento.

Enquanto os republicanos culpam Obama pela enxurrada de crianças na fronteira, os bispos veem vários fatores inter-relacionados que contribuem para a crise.

De acordo com o MRS, "alguns desses fatores incluem: a falta de fortes instituições sociais e apoio da sociedade civil, o abuso na família decorrente da pressão sobre as unidades familiares devido à violência e à separação da família, a falta de oportunidades econômicas e educacionais viáveis ​​e fatores ambientais que afetam a produção agrícola".

Mas, de acordo com uma delegação de bispos que visitaram a América Central em novembro, "um fator primordial tem desempenhado um papel decisivo e vigoroso nos últimos anos: a violência generalizada nos níveis estadual e local, e um colapso correspondente do Estado de direito têm ameaçado a segurança do cidadão e criado uma cultura de medo e desesperança".

Apenas crianças cujas vidas já estão em risco arriscariam suas vidas para viajar pelo caminho traiçoeiro da América Central, passando pelo México para chegar aos Estados Unidos.

Muitas dessas crianças foram ameaçadas por gangues que dizem: "Junte-se a nós ou morra". Melhor arriscar a vida tentando se juntar a um membro da família que está nos Estados Unidos do que viver em perigo em seu próprio país.

Os republicanos realmente estão meio certos. As políticas norte-americanas são em parte responsáveis ​​pelo afluxo de imigrantes para as fronteiras, mas não as políticas que eles apontam.

O que causou a explosão de violência na América Central é principalmente o tráfico de drogas, que as fornece para o nosso apetite insaciável. Os republicanos, que destacam os benefícios do mercado, devem compreender que, enquanto a demanda por drogas não for reduzida, o tráfico de drogas com toda a sua violência vai continuar a empurrar os centro-americanos para os Estados Unidos para fugir da violência. Enquanto a demanda não for reduzida, os criminosos continuarão a nos fornecer.

Por exemplo, se uma pequena percentagem do dinheiro dedicado ao controle de fronteiras fosse colocado em programas de tratamento de drogas, obteríamos melhores resultados. É um escândalo que aqueles que querem entrar em programas de tratamento muitas vezes têm que esperar meses por uma vaga.

Os Estados Unidos também têm contribuído para o problema ao deportar membros de gangues para a América Central, onde eles usam habilidades desenvolvidas em Los Angeles para organizar quadrilhas em seus países de origem. Uma consequência não intencional de reformas necessárias no processo de sentenças será a deportação de mais membros de gangues assim que eles forem liberados da prisão.

Também fazemos muito pouco para deter o fluxo de armas para o sul dos Estados Unidos, que armam gangues no México e na América Central. Se armas similares estivessem chegando nas mãos de terroristas nos EUA, invadiríamos esses países.

Finalmente, aos olhos da maioria dos bispos da América Central, os acordos de livre comércio impostos em seus países pelos Estados Unidos também têm contribuído para o problema, forçando os agricultores de subsistência para fora de suas terras para se juntar às massas de desempregados nas cidades. Eles não têm como competir com o agronegócio norte-americano, com seus subsídios governamentais. Sem programas para ajudar os camponeses na transição para outros postos de trabalho, eles foram deixados à mercê das forças darwinianas do mercado. Este é o lado feio da globalização tão criticado pelo Papa Francisco.

Por que nós estamos surpresos pelo fato de que as pessoas sem outras opções arriscam tudo para alcançar nossas fronteiras quando nós faríamos o mesmo? Na verdade, nossos antepassados ​​europeus irlandeses, italianos e outros fizeram exatamente isso, quando eles vieram para a América e foram recebidos pelo preconceito nativista.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Resposta dos bispos à crise de imigração é mais compassiva do que a dos políticos - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV