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Por: Caroline | 23 Julho 2014

Desde a comparação feita por Raúl Zibechi, escritor e pensador-ativista uruguaio dedicado ao trabalho com movimentos sociais na América Latina, com os históricos bombardeios aéreos, passados e presentes, já passou uma semana de mortes na Faixa de Gaza. Nesse artigo Zibechi trata da diferença entre um ataque e um “cálculo político”; os “crimes de guerra”; a população civil e as armas que produzem câncer. O artigo é publicado por Lavaca, 17-07-2014. A tradução é do Cepat.

Fonte: http://goo.gl/qTfbES

Eis o artigo.

Em pouco menos de uma semana, Israel desencadeou sobre a Faixa de Gaza uma chuva de bombas que mataram mais de 200 pessoas, 80% delas eram civis e um quinto crianças. A desculpa para os ataques são os mísseis que foram lançados pelo outro lado, pelos milicianos do Hamas sobre Israel, que acabaram causando a primeira vítima mortal em Israel.

Contudo a disparidade não é apenas em relação à quantidade de vítimas: Gaza é um reduzido território com pouco mais de 350 km quadrados que vive sob o ataque sistemático da potencia militar da região.

Dessa maneira, sobre seu milhão e meio de habitantes caem as bombas, seguindo uma repetida lógica de longa data, frente à indiferença das potências ocidentais que, por algo menor do que isso, já estariam preparando uma “intervenção militar humanitária” para frear o agressor.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, como assinala o filósofo espanhol Santiago Alba Rico, foram produzidos na Europa vários acontecimentos que marcaram a história posterior. O primeiro, disse, é que durante os processo de Nuremberg se registra a rejeição abominável ao “modelo Auschwitz”, marcado pela “desumanização e extermínio horizontal do outro”; contudo, anteriormente, a principal potencia vencedora, os Estados Unidos, havia imposto “a legalização de fato dos bombardeios aéreos” sobre a população civil.

O “modelo Hiroshima” se torna então aceitável e “a desumanização e o extermínio vertical do outro são assumidos como rotineiros ou como não penalizáveis” (1). O bombardeio de Dresden, que ocorreu semanas antes da rendição da Alemanha, em março de 1945, no qual as forças aéreas estadunidense e britânica provocaram a morte de entre 25 a 35 mil pessoas, é considerado por Donald Bloxham, editor do Journal of Holocaust Education, como um “crime de guerra”. Derrotados apenas pelos nazistas, a França bombardeava a Argélia e a Síria, provocando massacres sem que os figurões da nova ordem mundial emitissem o menor sinal de protesto.

Os bombardeios aéreos desde então têm sido algo comum, incluindo o horror do Vietnam. “Agora mesmo os drones estadunidenses bombardeiam o Paquistão ou o Iêmen, os aviões de Bashar al Assad ao seu próprio povo e os F-16 de Israel aos palestinos de Gaza. Todos esses bombardeios nos impressionam tanto como uma tormenta de verão e, assim, muito menos que um esfaqueamento no metrô”, conclui Alba Rico.

Ao tratarmos de Gaza, os ataques aéreos contra o território palestino têm uma longa história, com sua sequela de milhares de mortos, entre centenas de crianças, que representam entre 25 a 30 por cento das vítimas.

O jornalista e analista britânico Robert Fisk, especialista nos conflitos do Oriente Médio, escreve em uma coluna publicada esta semana no jornal The Independent de Londres uma conversa sobre os bombardeios de 2008, que mataram mais de 1.400 palestinos: “‘E se Dublin fosse atacada com rojões? ’, perguntou então o embaixador israelense. Contudo na década de 1970 a cidade britânica de Crossmaglen, na Irlanda do Norte, foi atacada com rojões pela república da Irlanda e, apesar disso, a Força Área Real não bombardeou Dublin como vingança, nem matou mulheres e crianças irlandesas”.

O jornalista israelense Gideon Levy insiste que, para Israel, não se trata de combater o terrorismo, mas de matar os árabes: “Desde a primeira guerra do Líbano, há mais de 30 anos, matar os árabes se tornou o principal meio da estratégia israelense. O exército israelense já não briga contra outros exércitos, o objetivo principal é a população civil”, (Haaretz, domingo 13). Prova disso é a utilização de armas proibidas nos bombardeios. “Doutores e o corpo médico encontraram nos corpos de falecidos ou feridos, restos de armas de destruição em massa ilegais para o direito internacional”, asseguram os médicos do hospital Shifa, de Gaza. O cardiologista norueguês Erik Fosse, que trabalha há anos na Faixa, disse à imprensa que poderia se tratar dos denominados explosivos de metal inerte denso (dime, em sua sigla em inglês), uma arma de tipo experimental cujo raio de ação é relativamente pequeno, mas cuja explosão é extremamente potente (Russia Today, segunda-feira 13).

Na contramão do que assegura a propaganda israelense, os bombardeios não são uma resposta aos ataques do Hamas, mas um cálculo político para bloquear as mudanças na região, uma obsessão do establishment desse país: impedir a reconciliação entre o Hamas e o Fatah, e evitar a tomada de distância da União Europeia em relação aos Estados Unidos. Para cumprir com seus objetivos políticos, os dirigentes israelenses não hesitam em perpetrar massacres sempre que considerarem oportuno. Aos fazê-lo revelam um estilo “claramente fascista”, aponta o israelense Uri Avnery. Avnery é uma das personalidades israelenses mais destacadas. Com seus 90 anos não pronuncia a palavra “fascista” com ânimo leve, menos ainda para um judeu. Revendo uma realidade que dói, chega ao coração do problema: o oposto do que deveria ser, o seu país é "um exército equipado com o Estado", diz ele.

(1) Alba Rico não o menciona, mas antes da Segunda Guerra Mundial – provavelmente como um ensaio para o futuro –, durante a guerra civil espanhola, a aviação nazista havia lançado operações de “extermínio vertical” da população civil em zonas de resistência do País Basco, como em Guernica.

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