O Papa irá ao Sri Lanka em janeiro

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

Por: Caroline | 12 Mai 2014

Francisco é um Pontífice que tem uma atenção especial pela Ásia. Ao receber os bispos do Sri Lanka, que se encontram no Vaticano devido à visita "ad Limina apostolorum", Bergoglio, de acordo com os religiosos, confirmou sua visita para janeiro de 2015, uma viagem que poderá se estender até as Filipinas. Trata-se de uma etapa asiática a mais, após a viagem à Terra Santa (entre 24 e 26 de maio) e à Coréia (entre 14 e 17 de agosto). Os bispos contaram que a “viagem já está marcada e definida”, e explicaram que a presença do Papa em seu país pretende favorecer a reconciliação e uma autentica paz social na ilha.

A reportagem é de Paolo Affatato, publicada por Vatican Insider, 08-05-2014. A tradução é do Cepat.

Fonte: http://goo.gl/igHnqH

Enquanto falavam com Bergoglio, que lhes dedicou cerca de duas horas, os bispos do Sri Lanka expressaram um desejo: que a viagem coincida com a cerimônia de canonização do beato Joseph Vaz (1651-1711), sacerdote indiano da congregação de São Felipe Neri, beatificado em 1995 por João Paulo II durante sua viagem ao Sri Lanka.

Vaz é considerado cofundador da Igreja local: após chegar clandestinamente ao Ceilão, oprimido pela dura repressão anticatólica dos calvinistas do império holandês, Vaz viu como muitas Igrejas haviam sido profanadas ou destruídas e também como os fiéis, aterrorizados, se distanciavam.

Começou uma obra imensa de evangelização e deixou como herança uma missão de 70 mil católicos ardorosos, 15 Igrejas e 400 capelas. A hipótese da canonização é plausível, pois a Congregação para as causas dos santos já recebeu a informação sobre os milagres atribuídos a interseção do beato: a cura dos gêmeos no ventre de uma mulher do Sri Lanka que vive nos Estados Unidos e que não quis abortar (apesar de ter diagnostico doenças genéticas), e a cura completa de um adolescente católico de 16 anos que sofria de leucemia no Sri Lanka.

A figura de Vaz é venerada na atualidade por toda a população da ilha e tem o poder de unificar as duas principais etnias: os cingaleses e tamiles, em um território no qual, há 26 aos, as feridas da guerra civil continuam abertas. A reconciliação, de fato, ainda está longe de acontecer e as relações sociais continuam muito tensas, inclusive dentro da Igreja local.

O local que Marco Polo definiu como “a ilha mais bela do mundo” sofreu um conflito étnico no qual a maioria, os cingaleses (que representam cerca de 75% da população e que ocupam tanto o governo como o exército), enfrentou a minoria tâmil, os chamados “tigres”, que representam 12% da população. Entre 1983 e 2009, quando acabaram os enfretamentos havia um saldo de cerca de 70 mil mortos e meio milhão de desabrigados. Os sinais desta tragédia permanecem marcados na sociedade, na política e mesmo na comunidade cristã. Esta última (que em conjunto representa 7% da população frente à maioria budista e hinduísta) pode ser uma ponte entre ambos os povos, visto que a ela pertencem fiéis de ambas etnias.

Viver e anunciar o Evangelho durante décadas de conflitos não foi nada fácil para os bispos e sacerdotes cingaleses e tamiles. E os problemas não terminaram quando o conflito encerrou. Algumas diferenças entre os bispos ficaram mais agudas após a chegada do atual presidente ao poder, Mahinda Rajapaksa, eleito em 2005 e reeleito em 2010. Seu governo abandonou as negociações e optou por uma ofensiva de amplo alcance por parte do exército regular. Em 2008, de fato, os militares ganharam os territórios que antes estavam sob o controle tâmil. Mucas Ong e a Igreja lançaram o alarme frente a emergência humanitária que provocou a ofensiva, sobretudo nos últimos anos da guerra que causou um enorme número de pessoas desabrigadas e muito sofrimento entre os tâmiles.

Frente aos tons triunfais de Rajapaksa, aclamado pelos cingaleses como pacificador, há a denúncia dos tamiles que, através de documentos que relatam casos de abusos e violências ignorados pelo governo e pela magistratura, pediram a ONU que abrisse uma investigação por crimes de guerra. Contando com o apoio de organizações como a Anistia Internacional e o Human Rights Watch, os bispos e o clero tamil, com ativistas e missionários, acolheram a proposta: mais de duzentos, entre sacerdotes e religiosos, assinaram em março uma carta para pedir uma investigação internacional ao Conselho da ONU para direitos humanos.

A assinatura que encabeça a lista é a do bispo de Mannar, Rayappu Joseph, que explicou que “uma investigação internacional, para chegar à verdade, contribuirá para a reconciliação”. Joseph relembra que muitos sacerdotes, advogados, jornalistas e ativistas que colaboraram com as instituições em relação ao argumento dos “crimes de guerra” sofreram ameaças e intimidações. Sem contar que milhares de casos de violações dos direitos humanos, de abusos sexuais, de homicídios, de desaparecimentos e execuções extrajudiciais continuam sem serem punidas.

O governo, por sua vez, se nega a aceitar a ideia de uma investigação internacional, evocando o princípio da “não interferência”. Inclusive o bispo de Colombo, que trabalhou em diferentes escritórios da Cúria vaticana, o cardeal Malcolm Ranjith, declarou-se contrário a esta hipótese. E foram muitos os meios de comunicação que o criticaram por seu grande apoio ao presidente Rajapaksa.  

Enquanto isso, nas áreas do norte e do leste da ilha, os tamiles continuam a viver sob um clima de ocupação militar com mais de 300 mil soldados efetivos presentes em uma pequena porção de território. E isto também não ajuda a melhorar as coisas. A população local tamil continua denunciando, ainda hoje, a sabotagem sistemática à sua cultura, sua identidade, seus costumes e sua língua.

Neste contexto, os representantes da Santa Sé, nos diferentes dicastérios, expuseram aos bispos a urgência de uma “solução política” à questão, na qual prevaleça o diálogo. O caminho poderia ser a descentralização dos poderes administrativos, em um entorno do tipo federal. A mensagem do Papa Francisco ao episcopado da ilha não podia deixar de pedir a “reconciliação, o respeito dos direitos humanos e a superação das tensões étnicas que persistem”. “A fé – acrescentou o Papa – pode ajudar a criar uma atmosfera de diálogo para construir uma sociedade mais justa”. E, em breve, Bergoglio poderá falar pessoalmente aos moradores do Sri Lanka.