Dom Tomás, um viageiro incansável

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05 Mai 2014

"Dom Tomás, um viageiro incansável, viajou ontem a sua viagem talvez mais longa. Devemos estar tristes pela pessoa querida e inigualável que nos deixa. Mas não por ele, que talvez desejasse esta viagem mais do que possamos imaginar", escreve Carlos Rodrigues Brandão, antropólogo, em mensagem enviada a seus amigos e que publicamos a seguir.

Eis o texto.

Dom Tomás, um viageiro incansável, viajou ontem a sua viagem talvez mais longa. Devemos estar tristes pela pessoa querida e inigualável que nos deixa. Mas não por ele, que talvez desejasse esta viagem mais do que possamos imaginar

E ele, um sempre fervoroso partidário da fé, da esperança e da ALEGRIA, haveria de ficar triste ao saber que sua partida nos deixou tristes.

Ou talvez seja o momento de dizer: “estamos tristes porque se foi um amigo querido. Mas a esperança que em tudo e todos ele tinha, esta esperança que ele nos deixe na partidam e que em nós e entre nós ela permaneça.

O primeiro poema eu o recebi de Adriano Vieira, e é do querido Pedro Tierra.

O segundo eu o escrevi aqui em Uberlândia, de onde cheguei vindo de Pirapora, após receber na estrada da notícia de que Dom Tomás, depois de tantas e tantas viagens acompanhado sempre de alguém, resolveu fazer sozinho,

Calou-se a voz de Tomás Balduino,
nessa noite de 2 de maio.

Uma voz que nunca quis ser sozinha,
sabia, desde os anos de chumbo:
uma voz solitária não suspende a manhã.

Quis ser uma voz entre vozes,
ergueu sua voz dentro do vasto coro dos oprimidos:
os índios, os posseiros, os lavradores,
os retirantes da seca e da cerca
e os que se levantam contra elas,
as mulheres, os negros, os migrantes, os peregrinos
para forçar claridades, para ensinar amanhecer.
Tomás é palavra.

A palavra que banha como bálsamo.
A palavra que fustiga.
Incendeia.

A palavra que perdoa
mas aponta - sempre - o caminho da Justiça.

E o que somos na vida?
Somos os ossos das palavras
que povoam o caminho de pedra ou flores
que sangram os pés dos nossos filhos.

Tomás é sertão.
O sertão e suas armadilhas.
O sertão e suas infinitas contradições.

Tomás é sertão
onde se dobram os ventos de Goiás e Minas,
onde nascem águas
nessa infinita geografia
que alimenta nossas esperanças.

Calou-se a voz de Tomás Balduíno.
Permanecerá sua palavra.

Tomás é sertão:
gesto de fé nessa gente que não se dobra.

Manhã de 3 de maio, como um quadro de Goya.

Pedro Tierra

Quando alguém como ele parte, viaja, vai embora
e nos deixa como um mestre, um companheiro, um irmão
que de longe acena como quem esteve aqui e agora viajou.

Quando um alguém assim parte e se vai de nós
são as suas palavras o que nós queremos reter e recordar:
o que ele fez, o que disse, o que escreveu, o que deixou.

E a isso nós chamamos: “a obra de um homem".

De Dom Tomás eu quero lembrar o seu silêncio.
Pois quem o conhece de mais longe, lembra os seus atos,
os gestos de fé e de uma corajosa ação de toda a vida,
vividos num púlpito, numa romaria da terra, numa reunião
com camponeses, numa assembléia, numa roda de diálogos.

Mas quem conviveu com a intimidade de seus dias de sempre,
lembra antes os pequenos grandes gestos de acolhida.

Gestos de quem se cala para ouvir a voz de outros,
e quanto mais eram as vozes do povo - suas mulheres e seus homens,
tanto mais ele se calava para ouvir e em silêncio meditar.

E só então, como quem falava em nome de quem ouvira,
ele decretava as ações que eram então palavras suas
porque antes haviam sido as falas de todos.

E eram sábias porque em silêncio amoroso
o saber dos outros Dom Tomás o acolhia.

De tudo o que por tantos anos comparti com ele,
esta foi sempre a maior lição.

Saber calar-se, saber aprender, sendo um bispo,
a ouvir o que diz diante dele um lavrador.

E não apenas pela sagrada virtude da humildade,
mas pela sabedoria que habita o coração e a mente
de quem se cala para fazer sua a acolhida palavra da voz do outro.

Viajei com ele muitas vezes, voei com ele entre Goiás e Marabá.
e aprendi com ele mais a fala do silêncio do calar e acolher
do que com as palavras que eram dele depois de serem nossas.

Nunca li um livro escrito por Dom Tomás.
Não sei se um dia haverá algum.

Não importa, tenho gravada em mim um lição inesquecível dele.
Uma lição de amor e acolhida do outro, ali onde um gesto de silêncio,
uma fala do olhar, um cantarmos juntos ao redor de um círculo
sempre me tocou mais fundo do que toda a teoria sobre tudo.

Partindo, viajando, partindo, encantando-se*,
podemos acreditar que a alma de Tomás terá enfim  
chegando ao céu, que eu não sei se ela sabia onde fica.

Mas o seu corpo de goiano antigo, um corpo cor da terra
de um homem da terra, de quem os primeiros irmãos
eram os índios, os camponeses e os lavradores sem terra
estará nestes dias voltando à sua morada: a terra.

E que com o tempo que ele se transforme nela, a terra.
E talvez caiba a nós imaginar em qual deste três lugares,
(ou nos três, espero):  
os céus celestes
o coração do homens,
o chão de terra,
este humilde mestre do amor
Haverá de se sentir mais em sua casa.

Carlos Brandão

Uberlândia
3 de maio de 2014

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