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30 Abril 2014

“Em uma cultura como a nossa, o mais difícil é admitir que não somos iguais. É exatamente o contrário: somos todos diferentes. E não somos diferentes apenas porque alguns habitam a casa e outros habitam a rua: somos diferentes porque somos humanos e tanto a casa quanto a rua são lugar de pluralidade.” A afirmação é de Renato Ferreira Machado, doutor em Teologia, autor de "O desencantamento da experiência religiosa em House: "creia no que quiser, mas não seja idiota", Cadernos Teologia Pública, no. 84

Eis o artigo.

O Brasil deve duzentos anos de trabalho não remunerado aos descendentes das pessoas que vieram do continente Africano para cá em situação de escravidão. Assim falava o saudoso Giba-Giba, que nos deixou no início deste ano, com toda a sabedoria que a ancestralidade da Mãe África lhe conferia. Isto é fato. Ao contrário, porém, do que costumam dizer alguns juristas – que contra fatos não há argumentos – sabe-se que fatos podem ser distorcidos. E a distorção deste fato, em especial, é um dos determinantes da cultura de racismo velado que predomina em nosso país.

Groso modo, a cultura brasileira enxerga a realidade através de um par de óculos bastante peculiar: através de uma lente, a realidade é vista pelo paradigma da “casa grande e da senzala”. Pela outra lente, que complementa a primeira, assume-se como verdade que a casa e a rua são realidades opostas e incomunicáveis. O que sustenta estas duas lentes é a armação da violência. Sabe-se que, quando alguém precisa usar óculos, é porque seu aparelho ótico natural já não consegue decodificar os sinais visíveis do ambiente de forma clara o suficiente para o cérebro. As lentes, utilizadas para a correção ocular, porém, tornam o ambiente reconhecível através de sua distorção: a pessoa volta a “enxergar bem” porque as lentes combinam sua distorção com o problema ocular orgânico, criando a ilusão de ótica de que voltou-se a ver as coisas como elas são. Os óculos brasileiros também são assim.

Primeiro, aprendemos que o Brasil é o país da miscigenação. Que para cá vieram vários povos e que estes povos deram origem à identidade brasileira, tal como a conhecemos. O que custamos a enxergar é que estes povos não vieram para cá de comum acordo, em busca do novo paraíso terrestre: os europeus de Portugal e Espanha vieram explorar riquezas; os africanos vieram escravizados, para sustentar a exploração promovida pelos portugueses e espanhóis; os europeus da Itália, Alemanha e outros países, que vieram depois, eram os pobres daquele continente, que precisavam atravessar o oceano para não morrer de fome; e os indígenas, que já estavam aqui, tornaram-se estrangeiros em sua própria terra. Desta forma, toda a saudada miscigenação se deu sob o paradigma da exploração de mão de obra de povos quase sem opção, a não ser vir trabalhar aqui. A lente da “casa-grande e da senzala” nos levará a ver estes fatos como história superada, pois os escravos foram libertos, os europeus prosperaram e os indígenas tiveram seus direitos reconhecidos. O problema desta visão é o “ponto cego”, onde não enxergamos que todas estas mudanças se deram por vontade unilateral da elite que mantinha todo poder econômico em suas mãos. O que nos leva à segunda lente.

De certa maneira, o território doméstico, em nossa cultura, é uma imitação da casa grande. Dentro de sua casa, uma família é soberana. Estão em um lugar seguro, conquistado por seus esforços, onde reina a paz, a harmonia e tudo aquilo que uma família deve semear para reconhecer-se como família. Uma casa é um lugar a salvo dos perigos da rua, que é lugar de ninguém, onde todos são ameaças e onde a segurança só existe pela coerção do Estado. Por enxergarmos as coisas assim é muito custoso, por exemplo, compreender a violência doméstica como violência: afinal, se é doméstica, é particular e deve ser resolvida entre as quatro paredes da casa. O mesmo vale para a pedofilia, que na maioria dos casos, é um segredo de família muito bem guardado. Aliás, quando estes segredos passam da porta, inicia-se o processo de ruína da casa, pois ela se mostra uma extensão da rua. Só que a rua, na verdade, é o fator que realmente constitui a identidade de uma cidade e, por consequência, a cidadania de seus habitantes. Não se forma uma sociedade entre os muros dos condomínios e muito menos no interior dos shopping centers. A dicotomia entre casa e rua, por isso, reforça a visão da primeira lente: quem habita a casa é senhor. Quem está fora dela sobrevive com as migalhas e benevolências deste senhorio, aceitando estas ofertas generosas com gratidão e humildade.

Sustentando tudo isso está a armação da violência. Afinal, a casa precisa ser protegida e defender-se é um direito dos que habitam a casa. Quem está na casa é o “cidadão de bem”. Portanto, na rua, estão aqueles que não são “de bem” e ameaçam a sociedade como um todo. É preciso segregá-los, separá-los e mostrar-lhes que não se brinca com a segurança daqueles que habitam a casa. Da mesma forma, é preciso ensinar aos jovens habitantes da casa que eles precisam se esforçar e trabalhar bastante, ou acabarão na rua, que é um lugar ameaçador. Assim, justifica-se uma educação moralista, que violenta crianças e jovens em nome de supostas “oportunidades” no mercado. Justifica-se os excessos do senhorio, que se dá direito à diversão, uma vez que trabalha muito e sustenta o próprio país. Ao mesmo tempo, não se tolera a festa dos que são da rua, pois deveriam estar trabalhando para terem uma “vida melhor”. Aos da casa, a razão e o prestígio. Aos da rua, o peso da lei. A armação da violência, sustentando estas duas lentes culturais, nos leva a assumir como naturais grandes desigualdades históricas e a pensar que o empobrecimento de boa parte de nossa população é simplesmente um resultado de falta de esforços por parte destes pobres. Com isso, chegamos às bananas.

Circulam, nas redes sociais, fotos e declarações de celebridades empunhando bananas e afirmando: somos todos macacos. Essa corrente se originou por conta de recentes ataques racistas a jogadores de futebol, nos quais os atletas eram chamados de macacos pela torcida, que ainda jogava ao campo algumas cascas de banana. Recorrendo a Darwin, iniciou-se a campanha. Só há um problema: as bananas são da casa grande. As bananas são alimento dos habitantes da casa. Assim, novamente a casa-grande dá uma carta de alforria aos moradores da senzala, defendendo-os bravamente e dizendo “somos todos iguais”. Em uma cultura como a nossa, o mais difícil é admitir que não somos iguais. É exatamente o contrário: somos todos diferentes. E não somos diferentes apenas porque alguns habitam a casa e outros habitam a rua: somos diferentes porque somos humanos e tanto a casa quanto a rua são lugar de pluralidade. Aliás, um dos pilares de nossa violência se encontra na suposição da igualdade, pois ela funciona como um molde no qual todos precisam se encaixar. Por isso, o problema dos habitantes da casa com as políticas de inclusão social não se dá tanto pelo fato dos habitantes da rua terem acesso a emprego, renda e educação, mas no fato destes, ao ocuparem espaços supostamente dedicados aos primeiros, não se deixarem moldar pela cultura deles. A afirmação de identidade é a grande ameaça, pois ela confundirá os espaços e abrirá as portas da casa àquilo que parece estranho a ela.

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