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07 Abril 2014

"Os jesuítas continuam tendo grandes antropólogos e lutadores da causa indígena no continente. Xavier Albó, na Bolívia, Bartomeu Meliá, no Paraguai, Egydio Schwade, Tomás Lisboa e Antonio Iasi, no Brasil. Este último completando neste sábado, dia 5 de abril, seus 95 anos. Parabéns pelo testemunho e compromisso histórico com a luta dos povos indígenas. Eles foram baluartes de rupturas corajosas como o fechamento do internato de Utiariti, no final da década de 60 e construtores das linhas de ação do Cimi. O jesuíta argentino, Papa Francisco, recebeu na última sexta-feira o presidente e assessor teológico do Cimi, para uma informação e conversa sobre a questão indígena no Brasil. Gestos promissores", escreve Egon Heck, secretariado do Cimi, ao enviar o artigo que publicamos a seguir.

Eis o artigo.

Fatos marcantes na memória brasileira. O golpe militar, após meio século, ainda deixa rastros e entulhos autoritários nas estruturas e no modelo desenvolvimentista. Sem milagres mas com a  mesma mão de ferro,  continua  impondo projetos que agridem e desrespeitam as populações indígenas e tradicionais, especialmente na Amazônia. Se atualizam as Balbinas, Tucuruis, Itaipus, com Belo Monte, Jirau-Santo Antonio, Tapajós... e  dezenas de hidrelétricas no cronograma oficial.

As maiores vítimas do “milagre brasileiro” no período do general Garrastazu Médici (1969-1974) foram os povos indígenas. As grandes rodovias, hidrelétricas, mineração, rasgaram os territórios de dezenas de povos indígenas, desencadeando um processo de destruição e violência que deixou um rastro de milhares de mortos, comunidades inteiras destruídas pelo impacto dos projetos, das bombas, armas de fogo, epidemias, calados e condenados pela repressão e invisibilidade.

O mais grave é  ter acontecido como se estivesse sendo feito um dever de casa, realizando uma ação patriótica. Prova disso é que até hoje não se viu esboçar nenhum gesto de reconhecimento das atrocidades e pedido de perdão aos povos indígenas, por parte do Estado brasileiro e seus mandantes. O mínimo que deveria estar acontecendo seria um reconhecimento dos crimes através de um  gesto concreto de reparação, demarcando e protegendo os territórios indígenas.

Papa Francisco  e o encontro com representantes do Cimi

Manhã do dia 4 de abril. Na agenda do Papa um singelo encontro com o presidente do Cimi, D. Erwin Kräutler e o assessor teológico do Cimi, Paulo Suess. Na pauta do encontro, a questão indígena no Brasil. Na conversa é apresentada a situação candente de povos violentados em seus direitos, suas vidas, e suas almas. Realidades que o Cimi vem denunciando há mais de quatro décadas, mas que infelizmente persistem.

“Durante a audiência, os representantes do Cimi levaram a Francisco casos de violências a que estão submetidos os povos indígenas e seus aliados. Destacaram a questão Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul, onde  “o confinamento (45 mil indígenas) em área tão pequena traz consigo mortes, suicídios e sofrimento atroz e permanente... A truculência do governo brasileiro contra os Tupinambá, no sul da Bahia, que hoje têm em suas terras uma base do Exército, incêndio de casas, como a de um agricultor aliado dos Kaingang, no Rio Grande do Sul, e os ataques do agronegócio contra o Cimi e demais organizações”.

Um rosário de citações de um calvário e martírio sem fim. Os dados e números mostram que as veias abertas da América latina, com os decretos de morte dos povos originários, continuam abertas. No Brasil não é diferente . O capital voraz com apoio do governo e políticos avança, inexoravelmente, sobre os territórios, riquezas e vidas dos povos indígenas. “Sobre os grandes empreendimentos, o bispo lembrou que 519 empresas hoje, no Brasil, causam impacto em 437 terras pertencentes a 204 povos indígenas, conforme relatório produzido pelo Cimi com base também em outros estudos.”

De acordo com Dom Erwin Kräutler, o Papa Francisco demonstrou atenção, preocupação e sensibilidade para com as questões levadas até ele pelo Cimi, organismo vinculado a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Que a canonização de José de Anchieta seja um momento de lembrar também os santos e mártires da resistência, enfatizando o compromisso dos jesuítas na construção de um projeto de autonomia dos povos indígenas na “República comunista cristã dos Guarani”, conforme expressou Lugon. Quem sabe se tivesse algumas dúzias de Bartolomeu de Las Casas a realidade no continente seria bem outra. Se Sepé Tiaraju e seus guerreiros Guarani, tivessem vencido os exércitos de Espanha Portugal, em Caiboaté, bem diferente seria a  América do Sul.

É  de desconstruir mitos, dispensar milagres, reconhecer os santos e mártires, da construção de uma outra América e um outro Brasil. O Guerreiro Guarani Sepé Tiaraju, é venerado como santo, no Rio Grande do Sul. Resta reconhecer as terras e o direito dos Guarani e Kaingang viveram em paz, com dignidade e sabedoria milenar.

Que os gestos singelos do Papa Francisco, de dispensar milagres e receber os representantes do Cimi, sejam sinais de novos tempos de compromisso com a vida dos povos indígenas em nosso país.

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