Um crime que envergonha a humanidade

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05 Março 2014

"No ano de seu cinquentenário, a Campanha da Fraternidade traz um tema complexo e de dimensões universais: o tráfico humano", escreve Raymundo Damasceno Assis, cardeal arcebispo de Aparecida e presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 05-03-2014.

Ele recorda o papa Francisco que classificou o tráfico humano como "uma atividade ignóbil, uma vergonha para as nossas sociedades, que se dizem civilizadas!". "Exploradores e clientes de todos os níveis deveriam fazer um sério exame de consciência diante de si mesmos e perante Deus!".

Eis o artigo.

No ano de seu cinquentenário, a Campanha da Fraternidade traz um tema complexo e de dimensões universais: o tráfico humano.

Colocado entre as atividades mais rentáveis no mundo, chega a movimentar cerca de US$ 32 bilhões por ano, segundo a ONU. Como ficar indiferente a esse crime que atenta contra a vida e a dignidade dos filhos e filhas de Deus?

O papa Francisco classificou-o como "uma atividade ignóbil, uma vergonha para as nossas sociedades, que se dizem civilizadas!". "Exploradores e clientes de todos os níveis deveriam fazer um sério exame de consciência diante de si mesmos e perante Deus!", disse ele.

Realizada durante a Quaresma, tempo especial de conversão e de busca de santidade, a Campanha da Fraternidade é um convite para que toda sociedade brasileira também faça um exame de consciência diante desse crime.

Há pelo menos quatro modalidades de tráfico de pessoas. A primeira é a exploração sexual, que atinge principalmente as mulheres, inclusive crianças e adolescentes. Os aliciadores utilizam-se, entre outras coisas, da pornografia, do turismo e da internet para alcançar seus objetivos. Fazem do corpo uma mercadoria que se usa para fins lucrativos, ferindo de morte a dignidade da pessoa humana, imagem e semelhança de Deus.

A segunda é a exploração do trabalho escravo, cujas vítimas são, em sua maioria, homens. Dados da Comissão Pastoral da Terra apontam que, entre 2003 e 2012, foram registrados 62.802 casos de trabalho escravo ou análogo a escravo. Nessas situações, o trabalho se torna uma maldição que desfigura a pessoa humana e avilta seus direitos de liberdade e dignidade.

A terceira modalidade do tráfico humano é para a extração de órgãos para transplantes. No Brasil, ganhou repercussão a chamada Operação Bisturi, deflagrada em 2003 pela Polícia Federal. Em Recife, as vítimas vendiam um de seus rins e iam a Durban, na África do Sul, para se submeter à cirurgia de retirada do órgão. Um atentado contra os elementares princípios da ética sobre os quais se assenta a vida humana.

É importante frisar que a Campanha da Fraternidade não trata da questão de doação de órgãos sobre a qual a igreja tem posição favorável clara. Vemos isso, por exemplo, na encíclica Evangelium Vitae: "Merece particular apreço a doação de órgãos feita segundo normas eticamente aceitáveis para oferecer possibilidades de saúde e de vida a doentes, por vezes já sem esperança" (n. 86). A campanha vem condenar os que usam da prática ilegal e criminosa de compra e venda de órgãos, aproveitando-se da vulnerabilidade social e econômica das vítimas e aliciando-as com a promessa de riqueza fácil.

Há, ainda, o tráfico de crianças e adolescentes seja para fins de adoção ilegal, seja para exploração no trabalho. Na década de 1980, cerca de 20 mil crianças brasileiras foram enviadas ao exterior para adoção.

A ultrajante realidade não nos permite ficar indiferentes e nos cobra uma atitude. A igreja tem dado sua contribuição por meio da Pastoral da Mobilidade Humana, a Pastoral da Mulher Marginalizada e o Grupo de Trabalho de Combate ao Trabalho Escravo. Além disso, congregações religiosas e várias pastorais têm dado assistência a muitas vítimas do tráfico humano, ajudando-as na sua volta ao convívio social. Mas sempre podemos fazer algo mais.

O Estado também precisa intensificar suas ações para a erradicação dessa vergonha que é o tráfico humano. Urge estruturar o sistema de atendimento às vítimas, bem como sua reintegração social e a diminuição de sua vulnerabilidade.

A esperança cristã nos faz crer que nenhum mal tem a palavra final. Que a ressurreição de Cristo, para a qual nos leva a Quaresma, nos livre da "indiferença globalizada" e seja nossa força na luta contra o mal do tráfico humano.

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