Quando a Igreja ouve o mundo. Artigo de Enzo Bianchi

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26 Fevereiro 2014

Alguns pecados não são íntimos, escondidos, mas sim públicos: por isso, a Igreja quer que, visivelmente, apareça coerência entre a vida pública e as exigências da participação na eucaristia, mas as situações são muito diferentes, e a Igreja deve aprender a discerni-las para acompanhar cada um com misericórdia no caminho da verdade.

A reflexão é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Stampa, 23-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em vista do Sínodo dos Bispos, o Papa Francisco desejou inaugurar uma nova modalidade na preparação do debate que irá ocorrer no Vaticano em meados do ano: para que se viva realmente um evento sinodal envolvendo toda a Igreja, foi enviado um questionário às dioceses individuais, para que em cada Igreja local, paróquia ou comunidade fosse possível para os cristãos manifestar o próprio pensamento sobre temas e problemas morais que devem ser abordados com urgência e sobre os quais deve ser pronunciada uma palavra profundamente cristã.

Essa iniciativa – que não agradou a alguns que, sem contestá-la abertamente, não assumiram nenhuma iniciativa nem iniciaram a discussão... – responde a uma necessidade já manifestada nos anos 1950 por Pio XII: a emergência de uma opinião pública na Igreja, de um debate que, ao invés de calar os conflitos e ignorar os novos problemas, os enfrente e tente resolvê-los com o discernimento eclesial.

Sobretudo sobre os temas inerentes à família e à sexualidade, tornara-se necessário escutar aqueles que vivem a realidade do matrimônio cristão ou da vida de casal e dar voz também àqueles que se sentem em situação de dificuldade ou de contradição com relação ao magistério tradicional da Igreja. Escutar! Operação não só necessária em todas as relações humanas, mas também profundamente cristã, essencial para viver a comunidade de fiéis, ou seja, a Igreja.

Pois bem, desse longo e intenso debate preparatório, o questionário recebeu uma grande quantidade de respostas, mostrando como as comunidades são vivazes e capazes de expressar de modo motivado as suas considerações, também no envolvimento das mudanças culturais e de costume ocorridas nessas últimas décadas, especialmente nas Igrejas de antiga tradição cristã ocidental. Por dois anos, haverá um caminho realmente sinodal de toda a Igreja sobre esses temas tão urgentes.

Ao mesmo tempo – e não podia ser de outra forma – empresas e organizações internacionais operavam sondagens para conhecer as diferentes posições das populações dos vários países. Nestes dias, aparecem nas mídias os dados, na verdade nem tão surpreendentes para quem conhece as avaliações éticas e morais de que são capazes as pessoas comuns. Certamente, aparece evidente na Itália – a Itália considerada católica, "núcleo duro do catolicismo", como gostam de defini-la alguns eclesiásticos – um desacordo em relação às posições da Igreja mais marcante do que em outros países. Isso nos interpela?

Talvez o desacordo depende do fato de que, na Itália, a ética não é tão determinante quanto em outros países? Os italianos pensam que o divórcio não constitui pecado, assim como pensam que o fato de não pagar os impostos não é pecado? Nunca como hoje na Itália – país onde a porcentagem (80%) de quem se define católico ou frequenta a missa dominical é a mais alta de todas as cerca de 20 nações "católicas" ocidentais – se desatende tão largamente o que a Igreja pensa? E nunca como hoje, especialmente nas duas últimas décadas, houve esse vistoso afastamento da Igreja por parte das mulheres e das novas gerações? E como ler o dado de que na Itália – apesar da denúncia obstinada da pedofilia – quase um em cada três cidadãos considera admissíveis as relações sexuais com menores?

Infelizmente, nas mídias, aparecem muitas simplificações que suscitam expectativas e esperanças equivocadas com relação à Igreja Católica sobre situações muitas vezes vividas no sofrimento e na labuta, mas sobre as quais é necessário também conhecer o que aparece de inspirador e determinante no Evangelho.

A Igreja, de fato, deve, sim, ouvir a humanidade, mas também deve ser capaz – em obediência àquela que, para ela, é "palavra do Senhor" – de operar um discernimento para reconhecer a mundanidade que pode estar presente nos pedidos e nas avaliações dos católicos.

É um fato evidente que hoje uma certa mundanidade se prolifera em toda a Igreja e, por isso, também no povo dos fiéis: mesmo no espaço cristão habita uma mundanidade dominante de rendição ao mundo, de acolhida de uma cultura que contradiz o Evangelho por ser idólatra.

Ora, a idolatria é um falso humano, não teológico: de fato, é alienação e impedimento caminho de autêntica humanização. Basta-nos como exemplo o matrimônio. Há uma palavra precisa de Jesus sobre a não bondade do divórcio, à qual o cristão deve prestar obediência. A Igreja, ao exigir essa obediência, deve se pôr de joelhos, deve proclamá-la sem arrogância nem espírito de condenação contra qualquer pessoa que viole essa vontade de Deus, mas não pode calá-la ou negá-la.

Que sentido tem, então, perguntar se os divorciados devem ser admitidos à participação eucarística? Que divorciados? Aqueles que fazem da vida de casal uma aventura? Aqueles que não têm nem exigências éticas nem solidez na fé? Ou aqueles que viveram o matrimônio sem as condições necessárias para que fosse um verdadeiro sacramento, portanto indissolúvel, e que depois, em uma nova união, mostram fidelidade, perseverança e capacidade de realizar um autêntico caminho cristão?

Sim, conhecemos bem na vida de todos os dias quantos são os fracassos na questão do matrimônio. E também conhecemos muitos que encontram em uma nova união um caminho que conhece o amor fiel, a perseverança, uma vida renovada que busca realizar as exigências cristãs.

Com um verdadeiro discernimento, sem pressa, mas depois de um tempo côngruo que possa testemunhar uma determinação de amor fiel e de "fazer história" no amor, será possível a readmissão eucarística? Não podemos ouvir das Igrejas ortodoxas a sua práxis milenar na qual se busca viver a vocação cristã do matrimônio indissolúvel na economia da misericórdia?

O discurso do cardeal Kasper proferido nestes dias aos cardeais reunidos em consistório é voz não só de um grande teólogo, mas também de um pastor que conhece bem a situação do rebanho, assim como conhece bem a palavra do Senhor: verdade na misericórdia, sempre.

A Igreja não pode esvaziar o Evangelho ou diluí-lo, mas pode buscar novamente e ler mais em profundidade as novas condições em que estão inseridos os fiéis e discernir se há possibilidades de considerar um novo caminho matrimonial como autêntico e coerente com as palavras de Jesus.

Nós, fiéis, somos todos pecadores, e os pecados mudam de uma pessoa para a outra, mas todos os cometemos e somos responsáveis por eles. Certamente, alguns pecados não são íntimos, escondidos, mas sim públicos: por isso, a Igreja quer que, visivelmente, apareça coerência entre a vida pública e as exigências da participação na eucaristia, mas as situações são muito diferentes, e a Igreja deve aprender a discerni-las para acompanhar cada um com misericórdia no caminho da verdade.

Além disso, como já dizia o Concílio de Trento, a eucaristia também é para a remissão dos pecados, é viático para o crente peregrino e penitente. Não nos esqueçamos de que a lei segundo o Evangelho vigora enquanto não ocorre o pecado, mas, consumado o pecado, deve reinar a misericórdia. Nenhum legalismo, então, nenhuma rigidez, mas também nenhuma graça barata. Entre ética dominante e ética cristã não há identificação, mesmo que os cristãos devam ouvir as instâncias provenientes da sociedade.

Mas os discípulos de Cristo também devem ter a coragem da "diferença", do ser sal da terra, capazes de dar sabor à vida humana e de se comprometer pela humanização e pela autêntica liberdade de todos.

 

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