Quando o papa voltou a ser ''só'' um homem. Artigo de Enzo Bianchi

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12 Fevereiro 2014

Embora tendo se tornado papa, permanecia em Joseph Ratzinger uma distinção profunda entre o seu ministério e a sua dimensão de simples homem e cristão.

A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Stampa, 11-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Há um ano, "um raio em céu sereno", como disse o cardeal Sodano, atingiu a Igreja Católica, despreparada para viver uma situação inédita há muitos séculos: um bispo emérito de Roma vivendo sob um novo pontificado. O que levara Bento XVI a fazer o gesto da renúncia? A situação de conflitualidade, de escândalos na Cúria Romana estimulava ainda mais as perguntas, que também assumiam contornos inquietos.

Na realidade, Bento XVI, na sua breve declaração de renúncia, tinha afirmado o essencial: em razão da idade avançada, tendo faltado as forças necessárias, não se sentia mais adequado para o exercício do seu ministério e, por isso, em obediência à sua consciência, exercitada na escuta da palavra de Deus e na oração, retirava.

Foi uma novidade esse ícone de oração na Igreja assumido por um sucessor de Pedro, uma novidade eloquente para todos os católicos que amaram e ouviram esse papa, assim como para aqueles que acolheram talvez com dificuldade o seu magistério.

Na missa que o cardeal Ratzinger, então arcebispo de Munique, celebrara por ocasião da morte do Papa Paulo VI, no distante 1978, ele assim afirmara: "Podemos imaginar como podia ser pesado o pensamento de não poder pertencer a si mesmo (...) estar acorrentado até o fim, com o seu corpo que o abandonava, a uma tarefa que exige, dia após dia, o compromisso vivo e pleno de todas as forças humanas".

Ratzinger, portanto, era habitado por um pensamento claro, amadurecido há muito tempo sobre a necessária renúncia a ser feita na ausência das forças: como ele dissera a si mesmo, assim o fez.

Mas também havia nele outra razão que o levou à renúncia: a sua convicção teológica – bastante rara para um pontífice – de que, embora tendo se tornado papa, permanecia uma distinção profunda entre o seu ministério e a sua dimensão de simples homem e cristão. Não por acaso, quando publicou a sua trilogia sobre Jesus de Nazaré, ele quis assinar os livros como simples autor e teólogo, sem muni-los com o magistério papal.

Podemos dizer que Bento XVI nunca esqueceu o que Bernardo de Claraval escreveu ao Papa Eugênio III: "Lembra-te de que és um homem, nascido de uma mulher...". Assim também, na renúncia, Ratzinger soube mostrar a sua humildade, o fato de querer acima de tudo o bem da Igreja, de confessar a sua própria fraqueza e fragilidade, de aceitar ver reduzidas todas as competência a um só mandato: a intercessão.

Além disso, esse êxito de uma vida no ministério pastoral é conhecido há décadas por muitos bispos que, tendo alcançado os 75 anos, deixam o exercício da presidência episcopal na Igreja local e se retiram – "fazem anacorese", na linguagem bíblica – e continuam sendo intercessores.

Bento XVI teve um pontificado relativamente breve, somente oito anos, mas foi altamente significativo para todas as Igrejas em virtude da qualidade teológica do seu magistério, em que a palavra de Deus, Jesus Cristo era o único centro.

Eu conheci o teólogo Ratzinger em congressos internacionais, encontrei-o várias vezes por ocasião da escrita de um livro sobre exegese por ele desejado e para o qual foi solicitado que uma contribuição minha e uma do exegeta De la Potterie ficassem ao lado da de Ratzinger. Depois, eu tinha o dom, pouco depois da sua eleição a papa, de uma longa e, para mim, memorável audiência cujos temas de reflexão foram o ecumenismo, a vida monástica e a liturgia. Sou-lhe grato por ter me nomeado perito nos dois Sínodos dos Bispos sobre a palavra de Deus e sobre a nova evangelização.

Mesmo quando alguns de seus atos pediam obediência à Igreja, e eu me esforçava para compreender as suas razões, temendo uma recepção distorcida deles, nem por isso a minha obediência desaparecia. Estou cada vez mais convencido de que Bento XVI, infelizmente, foi lido na ótica de muitos que, embora dizendo-se fiéis a ele, na realidade, deformavam a sua imagem, acabando por instrumentalizá-lo para as suas batalhas não ditadas pelo espírito evangélico.

Hoje, graças à renúncia de um ano atrás, é bispo de Roma e papa Francisco, que inaugurou uma primavera em toda a Igreja. Há muita expectativa, e o seu anúncio do evangelho na mansidão, no respeito de todos, na afirmação do primado do amor misericordioso de Deus – que nos ama sem que devamos merecê-lo –, de fato, alcança e toca muitos homens e mulheres até agora indiferentes à fé.

Chegou outra estação, e a Igreja, mais uma vez, sente sede de renovação e de reforma, como nos dias do Papa João XXIII: não por acaso, o secretário deste último, Loris Capovilla, foi criado cardeal pelo Papa Francisco aos 98 anos...

Mas eu não me canso de repetir que, se houver uma reforma evangélica de toda a Igreja, de todos os membros do corpo, então, porém, a vida cristã será mais difícil, mais contrariada pelas potências mundanas: o testemunho dado a Jesus Cristo será ainda mais sinal de contradição, porque, cada vez que o evangelho aparece com mais evidência na história, a cruz que cada cristão deve abraçar e portar também emerge mais manifesta.

Nenhuma ilusão: o reino de Deus ainda deve vir, e os cristãos devem esperá-lo e anunciá-lo com a vida, a um alto preço, mesmo às custas da própria vida.

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