Relatório da ONU sobre o Vaticano e os abusos sexuais pode prejudicar a reforma da Igreja

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06 Fevereiro 2014

Como o Comitê sobre os Direitos da Criança das Nações Unidas não tem nenhum poder de polícia, ele se baseia na pressão moral para fazer com que os Estados adotem as suas recomendações de proteção à criança. Obviamente, é isso que ele esperava conseguir com um relatório do dia 5 de fevereiro sobre o Vaticano e os escândalos de abuso infantil que abalaram o catolicismo ao longo da última década, emitindo uma pungente acusação contra o que ele chamou de uma cultura de "impunidade" dos agressores.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no jornal The Boston Globe, 05-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No entanto, há uma forte possibilidade de que o fuzilamento do painel da ONU possa sair pela culatra, ao desfocar a causa da proteção à criança com as guerras culturais em torno dos costumes sexuais.

Em várias seções do seu relatório, o comitê soma à sua crítica contra os abusos com o conselho contundente de que Roma abandone o ensinamento da Igreja sobre questões como o aborto, o casamento homossexual e a contracepção. Em um ponto, o painel recomenda até mesmo que se revogue uma cláusula da lei da Igreja que impõe a excomunhão automática por participar de um aborto.

Esses conselhos provavelmente não apenas não serão adotados, mas também podem fortalecer, de fato, o lado daqueles que, na Igreja, ainda estão negando os escândalos de abuso, ao lhes permitir definir o relatório da ONU como uma crítica secular muito familiar impulsionada por questões políticas.

Isso pode ofuscar o fato de que há, na verdade, muitas recomendações de proteção à criança presentes no relatório que a própria ala reformista da Igreja defende há muito tempo.

Por exemplo, o painel sugere que uma nova comissão papal sobre a proteção às crianças, criada pelo Papa Francisco e anunciada em dezembro, deve ser cobrada não apenas por investigar as acusações de abuso, mas também casos em que os bispos são acusados de ter deixado falhado em aplicar a nova política de "tolerância zero" da Igreja.

Isso é algo que os reformadores católicos há muito defendem, incluindo uma das autoridades vaticanas que compareceram perante o painel da ONU em Genebra, no dia 16 de janeiro, o bispo auxiliar Charles Scicluna, de Malta. Scicluna é conhecido como um verdadeiro detetive da Igreja Católica quando se trata de abusos infantis, pelo seu papel como promotor do Vaticano ao derrubar um poderoso clérigo mexicano acusado de abuso, o padre Marcial Maciel Degollado, fundador da ordem religiosa dos Legionários de Cristo.

Maciel tinha uma vasta rede de amigos e de aliados no Vaticano, mas Scicluna foi atrás dele assim mesmo. Em 2006, Bento XVI sentenciou o padre, que morreu dois anos mais tarde, a uma vida de oração e penitência.

"Um bispo não pode ser um verdadeiro servo se não fizer da proteção das crianças uma de suas principais prioridades", disse Scicluna em uma recente entrevista, admitindo que a Igreja precisa de um mecanismo mais forte para responsabilizar os bispos quando eles não agem com relação às denúncias de abuso.

O próprio cardeal Sean O'Malley, de Boston, disse o mesmo tipo de coisa repetidamente. Em uma entrevista de maio de 2010 com o National Catholic Reporter, por exemplo, O'Malley disse sem rodeios que qualquer bispo que, sabidamente, transfere um padre que enfrenta acusações críveis de abuso "deve ser removido".

Se o comitê da ONU tivesse se limitado a esse tipo de observação, ele teria fortalecido a posição de O'Malley e de Scicluna com relação à Igreja, líderes que estão pressionando-a a tomar um novo rumo. Borrar esses pontos com um ataque contra à doutrina católica sobre o sexo, no entanto, pode turvar as águas.

Não se engane: há um forte campo no catolicismo que acredita que a Igreja tem sido injustamente escolhida com relação aos escândalos de abuso e que, no mínimo, ela já foi longe demais ao acomodar os seus críticos.

A poderosa Conferência Episcopal Italiana, por exemplo, finalmente adotou um conjunto de diretrizes antiabuso no mês passado, e eles não incluíram uma exigência de que os bispos devam denunciar qualquer acusação crível de abuso à polícia. O novo secretário da Conferência nomeado pelo Papa Francisco, Dom Nunzio Galantino, disse que um bispo "não é um funcionário público ou um ministro público", e não se deveria esperar que ele denuncie os seus próprios padres.

Galantino, aliás, dificilmente é uma figura da velha guarda. Ele é o bispo de uma pequena diocese, conhecido pela simplicidade de seu trato pessoal e pelo seu amor pelas pessoas comuns, muito em sintonia com o estilo do novo papa. O fato de que mesmo clérigos como ele não estejam a bordo de uma abrangente abordagem de "tolerância zero" indica a íngreme subida que os reformadores ainda enfrentam.

O perigo é de que, quando líderes católicos como Galantino, lerem o relatório da ONU e se depararem com as partes sobre as guerras culturais, eles podem ser tentados a arquivar a coisa toda como a costumeira queixa secular. Isso já começou, como sugeriu o enviado do Vaticano a Genebra em entrevista à Rádio Vaticano, ao dizer que as ONGs liberais do sistema da ONU "reforçaram uma linha ideológica" ao elaborar o relatório.

Ao longo dos anos, o Vaticano foi acusado às vezes de ser espetacularmente surdo em sua resposta à crise dos abusos, e Deus sabe que há mérito nessas percepções. Agora, pode ser que a ONU esteja fora de tom, reabastecendo aquela que havia sido a munição das pessoas inclinadas a defender o status quo.

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