Não apenas aborto como também Assad separa Francisco e François

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27 Janeiro 2014

Na esteira do tão aguardado tête-à-tête entre o Papa Francisco e o presidente François Hollande, a maioria das análises tem se centrado nas diferenças envolvendo a Igreja Católica e o governo socialista do líder francês quanto a “assuntos de vida” tais como aborto, casamento homoafetivo e eutanásia.

A reportatem é de John L. Allen Jr., publicada por National Catholic Reporter, 25-01-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O foco é compreensível, em parte porque foram principalmente estas questões que induziram mais de 100 mil católicos franceses furiosos a assinar uma petição online antes do encontro, implorando ao papa a expressar o “profundo mal-estar e a crescente preocupação” que estavam vivendo.

Em parte também porque a tentativa transparente de Hollande em minimizar o choque provavelmente fez o caso ficar mais evidente. O resumo do presidente francês após o encontro não fez menção alguma à bioética, enquanto o Vaticano colocou o assunto no centro das atenções.

No entanto, seria uma interpretação errônea concluir que os dois homens estavam basicamente alinhados sobre outros tópicos mencionados nos comunicados oficiais, em especial o conflito na Síria, pois a verdade é que a França e o Vaticano têm visões bem divergentes aí também.

Em outras palavras, não só a questão do aborto separa Francisco e François, mas também Assad.

Os franceses estão entre os mais críticos das potências ocidentais e insistem em derrubar o governo do presidente sírio Bashar al-Assad, dando seu apoio explícito à coalizão de oposição.

Em setembro, quando os EUA estavam pensando em usar a força na Síria, Hollande pediu uma ação e mesmo lançou a ideia de continuar na empreitada sozinho quando os americanos viessem a recuar.

A França é tão claramente percebida como inimiga em Damasco que o presidente Assad a acusou de agir como um “procurador” do Qatar e da Arábia Saudita, dando a entender que a política externa francesa era corrompida pelos “petrodólares” de seus rivais regionais.

A França também ombreou com os Estados Unidos ao insistir que o Irã fosse excluído da conferência Genebra II sobre a Síria, a menos que aceite a ideia de um governo de transição, ou seja, um final em que Assad esteja fora de ação.

Entretanto, o Vaticano está bem mais desconfiado quanto às perspectivas de mudança do regime.

Em agosto passado, quando relatos de que Assad havia usado armas químicas começaram a circular, Dom Silvano Tomasi, o enviado do Vaticano na ONU em Genebra, alertou contra um “julgamento apressado” sobre a culpabilidade do regime.

No mês de setembro, Francisco propôs um Dia mundial de oração e jejum pela paz, um gesto entendido como sendo sinal de oposição à intervenção militar ocidental. Muitos analistas sugeriram que a posição do papa quanto à Síria estava mais próxima à da Rússia e China do que à posição das potências ocidentais, e quando o presidente russo Vladimir Putin visitou o pontífice em novembro, afirmou que os dois estiveram em uníssimo em grande parte.

No dia 13-01-2014, o Vaticano realizou uma reunião a portas fechadas sobre a Síria em preparação à conferência Genebra II, que envolvia pesos-pesados como o especialista em política americana, Jeffrey Sachs, e o estadista egípcio, Mohammed El Baradei. A reunião aconteceu a pedido do papa e terminou com um chamado pontual para que o Irã seja incluído na conferência em Genebra.

Nos últimos meses, várias autoridades vaticanas também pediram uma moratória sobre as “influências externas” que alimentam o conflito sírio, em parte entendido como uma forma de se opor ao armamento de rebeldes contrários ao presidente Assad, seja por países ocidentais, seja por outras potências regionais hostis ao governo sírio.

Para que fique claro, não se trata de que o Vaticano seja fã do presidente Assad.

Aqueles com boa memória vão recorder a forma como ele envergonhou João Paulo II durante a visita que fez à Síria, logo depois que o jovem Assad havia assumido o poder de seu pai na presidência. Durante o que devia ser uma troca educada de cumprimentos no início da viagem, Assad lançou um discurso grosseiro anti-Israel e antissemita, destruindo aqueles que “tentam matar os princípios de todas as religiões com a mesma mentalidade na qual traíram Jesus Cristo e da mesma forma como tentaram trair e matar o Profeta Maomé”.

O Vaticano levou a sério um relatório saudita, datado de fevereiro de 2013, onde se lê que elementos dentro dos serviços militares e de inteligência sírios estavam considerando a possibilidade de tentar assassinar o embaixador papal na Síria, o arcebispo italiano Mario Zenari, após ele aparentemente ter apoiado alguma forma de intervenção externa. (Dom Zenari comparou a comunidade internacional com Pôncio Pilatos, acusando-o de “lavar suas mãos quanto ao conflito sírio”.)

De modo mais geral, o ensino social católico defende tanto os direitos humanos quanto a liberdade política, e o Vaticano está bem ciente de que tais valores são, muitas vezes, mais honrados na violação do que na observância sob o governo de Assad.

No entanto, o ponto de vista vaticano também é fortemente condicionado pela comunidade cristã na Síria, que tende a ver Assad como o menor de dois males haja vista o crescente fundamentalismo islâmico.

Um comunicado de imprensa citou um bispo ortodoxo na Síria, em que este dizia: “Devemos ficar ao lado do governo, em particular do presidente Assad, a fim de evitar com que os Takfiris tomem o poder no país”, usando a palavra árabe de um muçulmano que acusa um outro muçulmano de apostasia.

E isso é verdade não só para os líderes das igrejas como também nas bases. Por exemplo, um católico do rito latino, de 29 anos, em Damasco, chamado Bashar Khoury, falou ao site National Catholic Reporter, em julho, que deixará o país se acaso Assad sair do poder.

“Se isso acontecer, os radicais irão tomar conta e não haverá futuro algum para mim”, disse Bashar.

Ficou claro que Hollande saiu da sessão com o Papa Francisco ciente das diferenças sobre a questão da Síria.

Em sua declaração após a reunião no centro cultural francês, em Roma, ele educadamente convidou o Vaticano a “dar as boas-vindas” à coalizão oposicionista na Síria. Também mostrou sensibilidade com a preocupação sobre a minoria cristã, prometendo apoio para os esforços em defender os cristãos perseguidos no Oriente Médio.

Entretanto, não houve nenhum sinal de que um ou outro lado tenha cedido na questão central: Se dialogar significa deixar um papel futuro para Assad na Síria, seria isso ainda preferível a violência?

Esta questão pairou sobre o encontro entre os dois líderes na sexta-feira, e se o cálculo na Síria é ainda o mesmo daquele feito há dos meses, então também parece possível imaginar a reunião, em 27-03-2014, entre o Papa Francisco e o presidente americano Barack Obama.

Concluindo: é um erro supor que a política externa seja o lugar onde os líderes ocidentais de hoje podem fazer uma pausa de suas diferenças com o papa sobre outros assuntos. Em particular, dado o capital político de que Francisco desfruta no momento, eles terão que enfrentar um desafio neste fronte também, começando pela Síria.

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