Há 237 anos Catarina ordenava que os jesuítas ignorassem a Bula Papal de supressão

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20 Janeiro 2014

Em 1774, os jesuítas na Rússia Branca (Polônia, Lituânia, etc.) viram-se numa situação parecida com um limbo. Catarina recusou-se a promulgar a Bula Papal de Supressão e falou aos jesuítas para continuarem a fazer aquilo que eles faziam tão bem: administrar colégios. O documento “Dominus ac Redemptor” chegou à Polônia em meados de setembro de 1773. Sob as ordens de Catarina, todas as cópias da bula foram reunidas e entregues ao governador de Mogilev. À frente dos jesuítas nesta época estava o lituano Estanislau Czerniewicz; este percebeu que os religiosos da Ordem estavam numa corda bamba. Desobedecer as instruções de Catarina para ignorar a bula iria desagradá-la e poderia pôr os católicos russos em perigo.

Por outro lado, obedecer a Catarina e ignorar a bula poderia ser interpretado como desobediência ao papa, mesmo que para a bula estar valendo ela precisasse ser promulgada em nível local.

A informação é de Estanislau Czerniewicz, SJ, publicada por Jesuit Restoration 1814, 13-01-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Percebendo que Estanislau Czerniewicz estava numa situação difícil, Catarina publicou um “ukase” (edital) em 13-01-1774 (há 237 anos), falando para os jesuítas não mudarem nada.

Até aí tudo bem, mas eles ainda estavam preocupados em consciência quando, então, chamaram alguns canonistas. O cardeal Garampi, o núncio papal para a Polônia, foi o primeiro ao qual eles recorreram. Dom Garampi jogou limpo: de um lado, eles eram obrigados a obedecer a bula já que seu conteúdo era amplamente conhecido; entretanto, como o direito positivo não obriga que o impossível seja feito, eles poderiam continuar com sua obra.

Estanislau Czerniewicz informou ao Papa Pio VI que a bula não havia sido promulgada e que os jesuítas estavam ainda obrigados, em consciência, a observar os votos e seguir as Constituições. Entretanto, como os jesuítas estava ainda inquietos, através do cardeal Rezzonico pediram para o papa indicar se ele estava descontente com esta interpretação do direito canônico.

Dois anos depois – em 13-01-1776 –, de acordo com o historiador Walter Banghert, o papa respondeu de forma enigmática: “Que o resultado de nossas orações, na forma como eu antevejo e como vocês desejam, tenha um resultado feliz”. Aparentemente o papa também estava numa corda bamba, na esperança de que os jesuítas se mantivessem seguros aí sem enfurecer os embaixadores Bourbons.

Contextualização: Catarina, a Grande

Catarina, a Grande, foi uma salvadora incomum dos jesuítas. Nasceu no ambiente aristocrático da Polônia, sendo a filha de um príncipe alemão. Ambiciosa e inteligente, quando tinha 16 anos mudou sua religião: de luterana para a igreja ortodoxa russa, e seu nome: de Sofia para Catarina, tudo para se casar com o grão-duque Pedro, o herdeiro do trono russo. Foi um casamento infeliz, porém tiveram um filho chamado Paulo, quem, como czar, iria convidar os jesuítas para administrar instituições de ensino em São Petersburgo.

Catarina certamente não era nenhuma santa. Na verdade, após seu marido Pedro ascender ao trono, ele era para ser deposto e ela seria declarada Imperatriz. Vivendo separados a esta altura, Catarina e Pedro tiveram seus amantes, e por causa da admiração de Pedro pela Alemanha, Catarina teve o apoio do exército; Pedro iria morrer logo após, com provas inconclusas que dão a entender algum envolvimento de Catarina neste fato. Ela pensava em expandir o império russo ao longo da Europa central, repartindo a Polônia em três. Em parte foi para manter a aristocracia polonesa a seu lado que ela se interessou em reter os Colégios Jesuítas.

Frequentemente, ela é referida como a Imperatriz Iluminada, buscando a modernização e aplicando políticas ocidentais. Entretanto, esta paixão pela reforma social foi rapidamente controlada, já que durante o seu longo reinado ela se tornaria mais e mais conservadora, uma vez que percebeu precisar do apoio da nobreza para evitar rebeliões.

Habilmente, jogou o papado e os Bourbons um contra os outros, sendo que a Companhia de Jesus foi um usada neste jogo. Permanecendo neutro na Guerra de Independência Americana, a Espanha e a França estavam cada vez mais ansiosas com a possibilidade de que ela viesse a intervir em nome dos britânicos. Tal ameaça foi útil para o enfraquecimento de seus protestos e para pressionar o papa a entrar em acordo com os jesuítas na Rússia.

Jesuítas foram banidos de São Petersburgo, em 1816, e os colégios foram confiscados

O então superior geral da Companhia de Jesus, Pe. Brzozowski [1], e 25 jesuítas foram banidos de São Petersburgo pela Guarda Imperial russa e seus colégios foram confiscados, no dia 03 de janeiro de 1816.

Os colégios jesuítas que tanto haviam atraído a atenção de sua protetora, Catarina, a Grande, foram neste momento vistos como uma ameaça, vítimas de seu próprio sucesso. Havia uma grande demanda na capital russa por educação ocidental devido à presença de uma enorme quantidade de diplomatas, artesãos e a uma onde recente de refugiados escapando dos excessos da Revolução Francesa.

O Colégio Jesuíta de São Petersburgo, o Colégio Paulino, uma escola gratuita criada em 1801, logo tornaram-se prestigiadas, excedendo suas ofertas de vagas. Um segundo colégio, The Noble Pension, se tornou particularmente conhecido entre a nobreza, que via nele um baluarte contra a impiedade e as revoluções que só aumentavam na Europa.

Por que desmantelar uma educação bem-sucedida e próspera? Trata-se de um padrão que se encontrava no coração da supressão e que tem, desde então, se repetido em muitos países. Parece ser uma ferida autoimposta, especialmente quando feita em nome do “iluminismo” e do progresso. A educação leva ao poder a à influência, em particular quando se está educando a elite.

Na virada do século XIX, a educação jesuíta prosperou por causa de um desencantamento generalizado com a Igreja Ortodoxa. No entanto, por volta de 1816 surge uma onda crescente de nacionalismo na Rússia, e a Igreja Ortodoxa Russa ressurge. Nesse ambiente, os jesuítas são acusados de estarem convertendo a nobreza russa ao catolicismo. De modo brilhante, esta sensação está registrada por Tostói no livro épico “Guerra e Paz”. No livro II, que se passa na primeira década do século XIX, Tolstói descreve a conversão ao catolicismo da bela e imortal filha do príncipe Kuragin, Hélène, a qual é, então, conduzida a apoiar financeiramente os Colégios Jesuítas. Pensa-se que os jesuítas a enredaram neste caso.

O banimento de São Petersburgo marca uma mudança curiosa: os jesuítas, que foram recentemente restaurados, estão prestes a ser expulsos do Império Russo. A única nação que se recusou a promulgar a Bula de Supressão agora se torna um inimigo da Companhia.

Astutamente, o Pe. Brzozowski previu o que estava para acontecer e dispersou seus homens em diferentes países da Europa Ocidental no intuito de, neles, acelerar a restauração da Companhia de Jesus.

Curiosamente, o próprio Pe. Brzozowski, o primeiro Superior Geral após a restauração, se encontrava proibido de deixar a Rússia pelo czar Paulo I. Sem permissão para retornar a Roma e administrar a Companhia, morre na Bielorrússia quatro anos depois, em 1820

, no Colégio Jesuíta em Polatsk, onde tinha sido reitor. Naquele mesmo ano os jesuítas seriam expulsos de todo o território da Rússia.

Para saber mais sobre os colégios jesuítas na Rússia, leia “History of Education Quarterly, Vol. 37, No. 4 (Winter, 1997): True to the Ratio Studiorum? Jesuit Colleges in St. Petersburg”, de Daniel L Schafly JR, professor de História no St Louis University.

Nota 1: Jesuíta polonês considerado um talentoso linguista. Foi eleito como o 19º Superior Geral da Companhia de Jesus em 1814. Foi proibido de deixar a Rússia pelo czar Alexandre I; foi também o primeiro superior geral da Companhia Restaurada. Foi enterrado em Polatsk, na Bielorrússia.

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