O conflito de interpretações sobre o Papa Francisco. Artigo de Christian Albini

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27 Novembro 2013

O Papa Francisco ensina pouco com os documentos e muito com o estilo. O efeito Francisco não pode ser considerado a solução para os problemas da Igreja e para a opacidade do testemunho do Evangelho. Ao invés, é a oportunidade para "reabrir" um dinamismo eclesial que, por várias razões, tinha se bloqueado. Dito de modo simples: a bola agora passou para as mãos da Igreja como sujeito, na sua pluralidade.

A análise é do teólogo leigo italiano Christian Albini, em artigo publicado no blog Sperare per Tutti, 23-11-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

De muitas partes do mundo chegam análises sobre aquele que hoje já é conhecido como o efeito Francisco: a reaproximação à Igreja Católica e à prática religiosa de muitas pessoas atraídas pela figura do Papa Bergoglio.

Esse dado se presta a uma dupla leitura. Ele diz, em primeiro lugar, que estava em ação um afastamento do catolicismo, uma crise que as vozes oficiais negavam por trás dos anúncios triunfalistas dos grandes eventos de massa, sem olhar para a realidade ordinária das dioceses e das comunidades.

Justamente para evitar recair no mesmo triunfalismo, porém, vale a pena se perguntar o que encontram no catolicismo ferial as pessoas que voltam ou talvez se aproximam pela primeira vez. Há uma correspondência com o estilo de Francisco? Está em questão o rosto das nossas comunidades, a qualidade da sua vida cristã. Um assunto que por anos foi subestimado por uma Igreja que se concentrou excessivamente na figura papal, até quase se esquecer do estado de saúde da comunhão católica no seu conjunto.

Basta pensar, por exemplo, em como nunca houve nenhuma verificação real com relação às orientações da Conferência Episcopal Italiana (CEI) para a década passada e, principalmente, sobre os resultados da nota pastoral O rosto missionário das paróquias em um mundo que muda [disponível aqui, em italiano], que era um bom documento em que o tema da comunidade era focalizado com propostas pensadas. Levando-se em conta que um documento é um instrumento, não um fim, em que medida houve uma conscientização e uma renovação, em sentido evangélico, das nossas paróquias?

O Papa Francisco ensina pouco com os documentos e muito com o estilo. O efeito Francisco não pode ser considerado a solução para os problemas da Igreja e para a opacidade do testemunho do Evangelho. Ao invés, é a oportunidade para "reabrir" um dinamismo eclesial que, por várias razões, tinha se bloqueado. Dito de modo simples: a bola agora passou para as mãos da Igreja como sujeito, na sua pluralidade.

Porém, isso não pode ocorrer se prevalece a ansiedade de exercer um "controle" sobre o papa e sobre o papado. Isso se revela pela multiplicação daquelas análises eclesiais que passam pelo crivo cada palavra de Francisco, em busca de pretextos para demonstrar que, na realidade, nada mudou e vai mudar. Não é essa a trama do Evangelho e da história da Igreja, em que há uma fidelidade ao Pai narrado por Jesus de Nazaré que se declina dentro da história com relação aos sinais dos tempos (ou ao mundo que muda, em outras palavras). É o sentido da exigência de atualização desejado por João XXIII ao convocar o Vaticano II.

Há um essencial da fé acreditada, testemunhada e anunciada, mas a mesma fé deve fala hoje, ser compreendida e vivida hoje em um aprofundamento que também recebe contribuições do mundo e da história. Onde o mundo é a realidade criada e amada por Deus, habitada pelo seu Espírito e em que o Filho se encarnou. Outra coisa é o mundo entendido como mundanidade, que é pensar e viver ao oposto do Evangelho em que também podem cair muitas pessoas religiosas (e é por isso que Jesus dirigia as suas palavras mais duras àqueles que se mostravam mais intransigentes e ortodoxos).

Muitos críticos do período conciliar e do Papa Francisco, por exemplo Gnocchi e Palmaro, não se dão conta desse duplo significado presente no Novo Testamento e se expressam indistintamente nos termos de uma contraposição entre a Igreja e o mundo.

As tentativas de "conter" Bergoglio aparecem, por isso, como esforços para manter um poder, uma hegemonia sobre o modo de pensar a Igreja e a fé católica. Onde se está apegado a uma continuidade que é substancialmente repetição do idêntico não há abertura à novidade inexaurível do Evangelho, mas sim desejo de controle.

Há quem passe em revista gestos e palavras do Papa Francisco para lê-los em função do seu próprio interesse?

Com efeito, nos últimos dias, a sensação é de que alguns sites e meios de informação, depois de ter jogado a carta de uma crítica mais ou menos explícita ao papado de Bergoglio, tendo constatado a fraca adesão dessas abordagens, estamos se orientando para divulgar uma leitura própria de Francisco. O objetivo parece ser o de apresentá-lo como pertencente a um determinado alinhamento eclesial. Penso particularmente em Sandro Magister e ao Il Foglio dirigido por Giuliano Ferrara.

A estratégia é a de tomar alguns particulares, palavras e escolhas individuais do papa, e enfatizá-las, atribuindo-lhes arbitrariamente significados mais vastos e ignorando o conjunto da sua pessoa e da sua mensagem.

Dou alguns exemplos.

Uma carta pessoal de congratulações a Dom Agostino Marchettofoi apresentada como uma interpretação do Vaticano II e uma tomada de posição nos debates a propósito da última década. Isso porque Marchetto é um adversário explícito da leitura do Concílio praticada sobretudo pela "escola bolonhesa" de Giuseppe Alberigo. No entanto, o Papa Francisco adotou abertamente uma linha reformista que olha positivamente para o Vaticano II como um concílio ainda a ser implementado, evocando Carlo Maria Martini.

Magister falou de uma retificação do Papa Francisco na sua interpretação do Vaticano II justamente por obra de Marchetto, que o teria persuadido nas últimas semanas. É uma explicação frágil e também pouco respeitosa. Bergoglio não é um tolo iniciante. O Concílio faz parte da sua bagagem de cristão, e não se pode pensar que ele tem uma visão aproximativa, que muda de uma hora para a outra. A sua posição, na entrevista à La Civiltà Cattolica, é inequívoca: "Sim, existem linhas de hermenêutica de continuidade e de descontinuidade. Todavia, uma coisa é clara: a dinâmica de leitura do Evangelho no hoje, que é própria do Concílio, é absolutamente irreversível".

Outra carta, que remonta a quando Bergoglio era arcebispo de Buenos Aires, foi apresentada como uma terrível condenação dos casamentos homossexuais. Lendo-a, encontra-se a afirmação de uma distinção entre matrimônio e uniões homossexuais, mas também uma explícita exortação a não criar contraposições, a não para julgar nem discriminar, a não usar linguagens agressivas e violentas. A distância com relação à militarização dos debates éticos é clara.

No debate sobre o próximo Sínodo dos Bispos sobre a família, a reimpressão de um artigo anterior do arcebispo Müller (que, por sua vez, baseava-se em um texto de Joseph Ratzinger de 20 anos atrás) foi passada por uma intervenção comissionada pelo próprio Francisco. Porém, um dos cardeais do conselho por ele nomeado, Reinhard Marx, logo se expressou contra um encerramento prévio do debate.

Talvez o episódio mais significativo são os títulos exultantes para uma homilia em que o papa rejeita o progressismo adolescente que renega identidade e tradições para negociar a própria fé. É significativo pela forma como essa homilia foi interpretada: o uso de certas palavras é utilizada como "marcador linguístico" para dizer que o papa é contra o alinhamento progressista, enjaulando-o em uma visão dual da Igreja, para anexá-lo ao alinhamento oposto.

Esse é um raciocínio que só funciona dentro desse dualismo, que é estabelecido arbitrária e instrumentalmente. Os progressistas, de acordo com o esquema, são aqueles que querem demolir fé, verdade e ética para se adequar ao pensamento laico, e são inseridas à força nesse alinhamento pessoas e ideias diferentes entre si para deslegitimá-las todas em bloco.

Basta pensar em como uma figura da estatura de Carlo Maria Martini, para o qual o próprio Francisco manifestou uma aberta admiração, definindo-o como "profeta e pai para toda a Igreja", foi rotulada desse modo. Martini não renunciou a fé, verdade e ética, mas rejeitou uma interpretação exclusivista delas, que degrada na ideologia, sempre tentando construir pontes. Ele praticou uma verdadeira cultura do encontro.

É enganoso afirmar que apenas a referência à identidade e à tradição é uma declaração de "militância". De que identidade falamos? E o que entendemos por "tradições"? As respostas não são tão óbvias. São vocábulos que podem ser utilizados com acepções e significados diferentes. Basta pensar em como tanto a reforma litúrgica quanto a oposição a ela apelam à tradição. Certamente existe um progressismo adolescente, assim como existe um conservadorismo fechado e surdo, mas isso não significa que todas as instâncias de renovação levantadas pelo Concílio recaiam nesse vício. O Papa Francisco nunca disse isso. Ao contrário, quer-se que ele o diga.

Esses são todos esquemas que pertencem ao nosso catolicismo europeu e às suas disputas de poder eclesial, que sufocaram a Igreja Católica, que são agora projetadas sobre o Papa Francisco. Ao contrário, é evidente, mesmo só confrontando as suas intervenções e o seu estilo com os da liderança eclesial italiana das últimas décadas, que ele não se move sobre esse tabuleiro, e eu me pergunto até que ponto esses equívocos são involuntários. Em vez de ouvi-lo com ouvidos livres, quer-se fazê-lo entrar novamente em perspectivas velhas. Por que não tentar buscar, ao invés, uma novidade nele?

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