''Bergoglio não é Lutero''. Entrevista com Eugenio Bernardini

Mais Lidos

  • Papa Francisco: conservadores assustados com a possível escolha de um jovem bispo progressista para o ex-Santo Ofício

    LER MAIS
  • “Foi ele (Bolsonaro) que matou”, denuncia Davi Kopenawa

    LER MAIS
  • O Papa pede "cuidar das homilias, porque são um desastre" e que não ultrapassem dez minutos

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

18 Outubro 2013

No dia 30 de setembro passado, como parte do Meeting Internacional pela Paz, promovido pela Comunidade de Santo Egídio, o moderador da Mesa Valdense, pastor Eugenio Bernardini – presente no Meeting como orador – participou de uma audiência papal no Vaticano e teve uma breve conversa com o Papa Francisco.

A reportagem é de Luca Maria Negro, publicada na revista Riforma, das Igrejas evangélicas batista, metodista e valdense italianas, 18-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Foi o primeiro encontro de um representante do protestantismo italiano com o novo papa. O que vocês se disseram?

Tratou-se de uma breve saudação. Dirigi-me a ele em espanhol, como gesto de cortesia, e mencionei-lhe que a nossa Igreja italiana também tem comunidades e pastores em Buenos Aires e no Rio da Prata. Bergoglio, apertando as minhas mãos, fez um pequeno movimento de surpresa com a cabeça e me disse que se lembra de um pastor valdense, um bom amigo fraterno seu, que agora não está mais conosco. Eu lhe respondi que eu estava a par desse conhecimento e me despedi com a frase: "Que Deus abençoe o seu ministério", uma frase típica de saudação entre cristãos latino-americanos. O "bom amigo fraterno" lembrado pelo papa era Norberto Bertón, pastor e professor de teologia. Nos últimos anos da sua vida, idoso e não mais autossuficiente, Bertón foi acolhido pelo arcebispo Bergoglio em uma casa para sacerdotes idosos, onde morreu depois em 2010.

Nas últimas semanas, o Papa Francisco multiplicou as intervenções nas mídias: a carta de resposta a Eugenio Scalfari, a longa entrevista à Civiltà Cattolica, e por fim o diálogo com Scalfari (La Repubblica, 01-10-2013), em que encontramos expressões surpreendentes na boca de um papa, do tipo "a corte é a lepra do papado" ou "quando eu tenho um clerical na minha frente eu me torno anticlerical na hora". Quase todos estão entusiasmados com o Papa Francisco, à parte certos setores conservadores do catolicismo. E mesmo entre nós [evangélicos], por motivos obviamente diferentes, todas as vezes que publicamos algo sobre Francisco, chegam mensagens que dizem: cuidado, porque ele continua sendo papa...

Eu mesmo fui atacado em sites evangélicos que consideram o papa um anti-Cristo, razão pela qual o fato de ter-lhe apertado a mão e de ter dito a frase "Deus abençoe o seu ministério" seria a demonstração de que nem a Igreja valdense é uma Igreja cristã. Quando Bergoglio foi eleito, eu expressei a esperança de poder, mais cedo ou mais tarde, encontrar uma Igreja católica com uma estrutura própria, com um responsável próprio como todas as Igrejas, talvez um papa, mas sem o papado, um papa no sentido de um dirigente eclesiástico, de um presidente de uma Igreja, mas sem aquele contorno do papado que todos nós conhecemos do ponto de vista da concepção eclesiológica, teológica, doutrinal, disciplinar, simbólica...

A sensação é de que o Papa Francisco tem como programa justamente fazer com que a figura do papa mude de pele e, portanto, mudar também o papado. Este, a meu ver, é um programa que nos alegra a todos, mas que não pode nos fazer pensar que a Igreja Católica está se tornando uma Igreja protestante. Isso não está no seu programa. Portanto, não devemos esperar uma "protestantização" do catolicismo, mas é de se esperar que Bergoglio consiga realizar o programa que ele declara – isto é, uma Igreja próxima das pessoas. Porque a hierarquia hoje, especialmente entre nós, está longe da Igreja; os palácios episcopais estão longe das pessoas. Ele não. Ele, como outros bispos, sobretudo em outros continentes, não está longe. E o fato de que alguém como Bergoglio tenha chegado a Roma, ao papel do papado, é importante, e esperamos que ele tenha sucesso: mas não nos iludimos que a Reforma luterana chegou ao palácio apostólico.

O papado de Francisco voltará a dar prioridade ao diálogo ecumênico?

Acredito que sim. Ele também declarou isso na entrevista com Scalfari, afirmando que os Padres do Concílio Vaticano II "sabiam que se abrir à cultura moderna significava ecumenismo religioso e diálogo com os não crentes", e acrescentando: "Depois de então, foi feito muito pouco nessa direção. Eu tenho a humildade e a ambição de querer fazê-lo". Tenho a sensação de que ele não apenas declarou isso, mas que o irá realizar, dando impulso em muitos aspectos a essa sua vontade. Já temos sinais nesse sentido: a presença de Dom Mansueto Bianchi no Sínodo valdense deste ano, o convite ao encontro de Santo Egídio, a minha breve conversa com o papa são os sinais, e eu espero que haja outros, ainda mais significativos.

Na revista Riforma de 4 de outubro, Simone Maghenzani afirmou que este papa jesuíta, com o seu estilo pastoral, "separa as cartas", e nós, acostumados a encontrar espaço nos fechamentos éticos da Igreja Católica, somos hoje deslocados e devemos mover o debate para um terreno mais teológico.

Eu não seria tão otimista sobre o fato de que encontraremos companheiros de estrada no plano ético. Este papa acenou, sim, à questão dos divorciados, mas, por exemplo, sobre os temas da família ou da interrupção da gravidez, ele não me parece ter se distanciado em nada das posições tradicionais expressas pela hierarquia católica. Certamente, Francisco quer despojar a Igreja Católica de formalismos que derivam do fato de se considerar, no entanto, em nível de aparato, entre os poderosos deste mundo. Ele tem a prioridade de aproximar a realidade da Igreja Católica dos mais desfavorecidos: não só dos pobres econômicos, mas também dos pobres de direitos, de saúde, de idade. Nisso, ele dará passos. Provavelmente, ele também poderia conseguir obter um reconhecimento para o papel das mulheres na Igreja – fala-se de acesso não ao sacerdócio, mas sim ao cardinalato também para algumas figuras femininas – e talvez ele fará alguma escolha simbólica nesse sentido.

Mas, no plano geral da ética, eu não estaria tão seguro de que haverá mudanças significativas: esperemos e vejamos. No entanto, eu considero que qualquer aproximação no plano da Igreja a serviço dos mais desfavorecidos, dos sem direito é positivo, porque abandonar os formalismos e a atitude de "poderoso da terra" é positivo, aproxima-nos do caminho do serviço aos mais humildes do mundo, que é o caminho das Igrejas cristãs e da sua colaboração ecumênica. Também no plano litúrgico, podem-se ver mudanças: Francisco se distanciou da missa em latim, de uma liturgia que não fala diretamente às pessoas, mudou os responsáveis do escritório litúrgico papal. Essas são todas notícias positivas para nós, mas, repito, não devemos pensar que a Reforma de Lutero está prestes a entrar no Vaticano. A meu ver, estamos em outro nível, que, no entanto, facilitará a colaboração e o diálogo ecumênico. Por isso, eu vejo com simpatia a sua obra.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

''Bergoglio não é Lutero''. Entrevista com Eugenio Bernardini - Instituto Humanitas Unisinos - IHU